Daniel Dal Zennaro/EFE
Daniel Dal Zennaro/EFE

Kim Ki-Duk diz que seu filme é sobre as consequências do capitalismo extremo

Tudo é surpresa em 'Pietà', das premissas ao desenvolvimento, chegando à conclusão

LUIZ ZANIN ORICCHIO - ENVIADO ESPECIAL,

05 de setembro de 2012 | 03h11

Pietà, surpreendente filme do sul-coreano Kim Ki-Duk, arrancou aplausos prolongados em Veneza. Com mais de meio festival andado, talvez desponte como uma espécie de azarão ao Leão de Ouro caso o júri presidido por Michael Mann resolva aprontar alguma surpresa. Méritos, o filme tem.

O primeiro deles é não se deixar levar pelo óbvio. Tudo é surpresa, das premissas ao desenvolvimento, chegando à conclusão. O personagem central é um rapaz impiedoso, que trabalha como cobrador de dívidas para um agiota. Como os pobres diabos que tomaram dinheiro emprestado não têm onde cair mortos, ele faz com que sofram "acidentes" de modo que possam receber indenizações. Perder uma perna ou uma mão rende dinheiro. E dinheiro será o motor dessa história, que parece saída da cabeça de um Balzac exacerbado. Sim, porque dificilmente M. Honoré imaginaria a chegada de uma mulher misteriosa, que se apresenta como mãe do impiedoso cobrador. Ela se diz arrependida de havê-lo abandonado em criança e atribui à falta de carinho os descaminhos que ele enfrentou. Não será a única reviravolta desse filme perturbador.

Encontramos nele uma estética da crueldade já conhecida de trabalhos anteriores de Kim Ki-Duk (Pietà é seu 18 longa-metragem). Agora, ela vem a serviço de um propósito de crítica social muito mais claro, embora não previsível, óbvio ou panfletário.

Kim Ki-Duk diz que esteve em Roma, no Vaticano, e ficou impressionado com a obra de Michelangelo. "Aquele abraço da mãe no corpo do filho morto me tocou profundamente", diz. Daí o título. Pietà, ele diz, deseja ser um abraço de solidariedade a todos os que sofrem. Por sorte, esse bom propósito não cai na pieguice ou na abstração. A análise do diretor, transposta de modo claro para a ficção, fala menos de piedade do que de uma estrutura de vida, um modo econômico que esmaga as pessoas. "O filme é sobre as consequências do capitalismo extremo", define.

Pietà se resolve muito bem entre a surpresa que provoca no espectador e a empatia despertada pelos personagens. Imersos num cotidiano duro da periferia de Seul, eles lembram tipos pasolinianos, pelos quais se pode experimentar repulsa e ternura ao mesmo tempo. São muito bem interpretados. A engenharia da trama, que joga com as expectativas do espectador e as frustra uma a uma, só faz aumentar a intensidade do que se vê na tela. É uma linda e terrível parábola sobre aquilo que Marx chamava de poder corrosivo do dinheiro.

História. Linhas de Wellington, de Valéria Sarmiento, foi outra boa surpresa na seleção de Veneza. Temia-se por esse longo filme histórico ambientado durante a invasão francesa em Portugal no século 19, no curso das Guerras Napoleônicas. O projeto original de Raul Ruiz, foi interrompido por sua morte. Como fazer um filme de alguém tão original como Ruiz, na ausência do próprio? Quem responde é o produtor português Paulo Branco. "O projeto surgiu logo após o de Mistérios de Lisboa, que o Raul adaptou de Camilo Castelo Branco. Ele estava doente e esperávamos a sua recuperação que, infelizmente, não aconteceu", diz. A tarefa de dirigir o filme foi entregue a Valéria Sarmiento. "Não era nem o caso de fazer um filme de Ruiz sem Ruiz, porque isso seria impossível. Era um autor muito original e surpreendente, não temos ideia do que teria feito."

De qualquer forma, a inspiração de Ruiz parece toda lá. Em especial, a do Ruiz de Mistérios de Lisboa, um magnífico folhetim cinematográfico de mais de 4 horas de duração. Linhas de Wellington não chega a tanto. Tem "apenas" 151 minutos. Não cansa em momento algum. As tais linhas significam a retirada portuguesa para atrás da defesa montada pelo inglês Wellington (John Malkovich). Mas são também as linhas que tecem os destinos dos personagens dessa guerra, a gente comum, os enriquecidos e, sobretudo, as mulheres, que em geral são as que mais sofrem.

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