"K.I." encerra com brilho mostra russa em Brasília

São cinco da tarde de segunda-feira. No saguão do Cine Brasília, espera-se o início da palestra do diretor russo Kama Ginkas (pronuncia-se Guinkas),que participa do Cena Contemporânea - o festival internacional de teatro da cidade - com o espetáculo "K.I. Crime e Castigo". Esta é o última das cinco montagens a virem ao Brasil na chamada Estação Russa, evento realizado em parceria pela Funarte, Sesc-SP e o Núcleo de Festivais. Solo de uma estupenda atriz - Oksana Mysina - com a participação ainda de três crianças russas, K.I. será apresentada a partir de hoje no Sesc Ipiranga.Ginkas dispensa microfone, tablado e senta-se junto ao pequeno público. É simpático e sóbrio, porém rigoroso e provocador. Critica a ausência de estudantes - foi a prometida presença deles que o estimulou a realizar o encontro - e os que chegam atrasados. Sua performance nessa palestra diz tanto de seu teatro quanto suas palavras. O tempo todo tenta estabelecer uma relação efetiva, verdadeira com as pessoas. Provoca perguntas, reage a elas, gesticula, representa - fez o público rir ´sendo´ uma poltrona. Tenta superar a barreira do idioma ora apelando para o inglês, ora corrigindo a tradutora, cujos equívocos detectava pela reação das pessoas.Não por acaso, um dos pontos fortes de "K.I.", montagem por ele criada há 12 anos, é a relação com o público - ou a busca dela. ´Teatro é encontro. Nem sempre ele acontece, infelizmente. Se o ator não sente o público, o teatro não acontece.´ Oksana vive Katerina Ivanovna, uma personagem secundária no romance "Crime e Castigo", de Dostoievski. Atriz de presença muito forte, olha nos olhos, senta-se em meio ao público, reage ao riso frouxo de um, à emoção de outros. Ao filho, que obriga de forma violenta a cantar para o público, ela exige que olhe nos olhos do espectador. E o menino o faz. A busca de contato com o público perpassa todo o espetáculo.No romance de Dostoievski, Katerina é duas vezes viúva, a última delas do bêbado Marmeladov. Ela prepara um almoço depois do enterro e gasta ali o pouco que lhe resta. Está devendo o aluguel e será expulsa, com os três filhos pequenos, do quarto onde vive. Na rua, obriga os filhos a cantar, seminus, no frio, enlouquece e morre. Na montagem, tudo isso se dá em dois ambientes. Ela nos recebe à porta de sua casa, onde ficamos por algum tempo, depois somos convidados a entrar. Não há legendas. Oksana fala em russo, um pouco de inglês, francês, alemão e, em português, frases-chave como ´meu marido era um beberrão´ ou ´na Rússia temos uma tradição de oferecer um almoço depois do velório´ ou ´meu marido morreu´, entre outras. Ela também distribui pedaços de papel com frases em português, e pede ao espectador que leia.Por que a escolha desse recorte? ´Este é um romance imenso, com muitos personagens, uns 15 importantes. Katerina está em segundo plano´, explica Ginkas. Segundo ele, a grande questão de Raskolnikov, o protagonista, é: você é um inseto ou um homem? No primeiro caso, aceita, submete-se à vontade de Deus. Mas o homem que tem dignidade, toma a rédea de seus atos, busca o que considera seu por direito, e assume as conseqüências. ´Raskolnikov pensa assim, mas Dostoievski não. Katerina não pode nada. Ela não tem casa, não tem marido, não tem como sustentar os filhos, não tem saúde - morre diante de nossos olhos no palco. Mas ela se agarra à vida e faz perguntas até o fim. Katerina tem a dimensão de uma heroína trágica. Na última cena, diz que não precisa de padre, porque ela e Deus sabem de seus pecados. E se Ele não sabe, então também não precisa.´ Segundo Ginkas, em russo também só se entende 3/4 do que se diz: ´Ela delira.´Pergunto sobre a liberdade estética porventura adquirida com o fim da União Soviética. ´Sim, temos liberdade. Agora, pode-se assaltar, pode ter nudez no palco, se quiser mostrar o ato sexual, sim, também pode´, ironiza. ´Eu gosto muito de liberdade, mas as pessoas confundem ser livre com poder fazer o que se quer´, diz. Lembra então que sua mais recente montagem é O Grande Inquisidor, retirado do livro Os Irmãos Karamazov, um tratado filosófico e metafísico sobre a liberdade. ´Nesse texto, Dostoievski mostra que o homem não quer liberdade. Ele está pronto a entregá-la a Stalin ou Hitler. Busch pode decidir por ele o que fazer no Iraque, ele quer apenas cuidar de seu milho. Por outro lado, esse mesmo homem quer fazer tudo o que tem vontade, o que é diferente de ter liberdade.´Ginkas fala ainda das mudanças econômicas. ´O teatro é popular e muito importante na Rússia. Ainda é. Mas o dinheiro cada vez mais é a coisa mais importante. No capitalismo, não se pergunta de onde ele vem. Você vendeu seu corpo? Tem dinheiro? Então tudo bem. Limpar privadas ou vender o corpo, tudo é trabalho. Dá dinheiro? Tudo bem. Antes, o teatro comercial já existia, mas tinha vergonha de sê-lo, fingia ser também um templo. Agora, não. Tem dinheiro? Então não importa o que você faz, tudo bem.´A repórter viajou a convite da organização do Cena ContemporâneaK.I. Crime e Castigo. Sesc Ipiranga - Garagem (100 lug.). Rua Bom Pastor, 822, 3340-2000. Hoje e amanhã, 21 h; dom., 20 h. R$ 15

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