Kerouac, os beats e o bop

Roberto Muggiati

O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2012 | 03h07

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E vamos pegar carona de novo com Jack Kerouac. O filme Na Estrada, de Walter Salles, baseado no romance-manifesto da Geração Beat, On the Road, apresenta às novas gerações o movimento que trouxe a literatura para as ruas e injetou nela um novo sopro de vida. Um sopro que tinha muito a ver com os trompetes e saxofones do jazz: pela primeira vez, um movimento cultural se dizia influenciado diretamente pelo jazz.

Não falta jazz nas páginas de On the Road. Charlie Parker, Lester Young, Dizzy Gillespie e Stan Getz são amplamente citados. O jazz é uma espécie de código secreto: "Sentado ali ouvindo aquele som da noite que o bop veio representar para todos nós, pensei em todos os meus amigos de uma extremidade à outra do país..." Kerouac insere até uma mini-história do jazz em seu romance: "Era uma vez Louis Armstrong soprando bonito como ninguém no lodaçal de Nova Orleans; antes dele, os músicos doidos que nas paradas festivas entortavam as marchas marciais e as transformavam em ragtimes..." Um fetiche particular de Kerouac é o pianista cego inglês George Shearing, apelidado de "Deus." Dean e Sal ouvem um show dele no Birdland de Nova York; 100 páginas depois, voltam a ouvi-lo em Chicago. Dean anuncia: "'Sal, Deus acaba de chegar.' Olhei. George Shearing. E, como sempre, estava com a cabeça cega apoiada na mão pálida, ouvidos bem abertos como orelhas de elefante, ouvindo os sons americanos e traduzindo-os para seu uso de uma noite de verão inglesa."

Mas o jazz não é um mero tema. Para Kerouac, ele oferece uma técnica narrativa a ser transposta para sua própria prosa, que o poeta Allen Ginsberg chamou de "prosódia espontânea do bop". Segundo ele, "os músicos do bop estavam se adaptando à cadência da fala dos negros, que conversavam entre si através dos seus instrumentos. Kerouac levou isso para a linguagem falada, usando ritmos mais interessantes do que a poesia e a prosa impressas, para injetar as mesmas emoções da língua falada na língua escrita." O próprio Ginsberg menciona o jazz logo no início do seu poema mais famoso, Howl/Uivo (1956): "... pobres esfarrapados olheiras fundas e drogados fumavam sentados na escuridão sobrenatural de apartamentos miseráveis sem água quente flutuando sobre os telhados das cidades contemplando o jazz..."

Kerouac foi bem mais explícito. Na abertura de seu livro de poesias México City Blues (242 Choruses), de 1959, escreveu: "Quero ser considerado um jazz-poeta improvisando um longo blues em uma jam session numa tarde de domingo." Um ano antes, num artigo intitulado Essência da Prosa Espontânea, ele descreveu seu método: "... linguagem é o fluxo mental tranquilo de ideias palavras pessoais secretas, improvisado (como o músico de jazz) sobre o tema da imagem, nenhuma pontuação, mas o vigoroso traço separando a respiração retórica (como o músico de jazz tomando fôlego entre duas frases), pausas marcadas que são a essência da nossa fala. Improvise tão fundo quanto quiser, escreva tão fundo, procure tão longe quanto quiser, satisfaça primeiro a si mesmo e o leitor também receberá o choque telepático e o significado-excitação pelas mesmas leis que operam na sua mente."

É bom deixar claro o tipo de jazz que marcou Kerouac. Aos 18 anos, ele publicou no jornal da universidade um artigo sobre Glenn Miller. Tentou entrevistar o bandleader e surpreendeu-se ao vê-lo berrando palavrões como qualquer mortal. O jovem Jack gostava do som convencional das big bands do Swing. Foi através do amigo Jerry Newman, dono de uma pequena gravadora, que conheceu o bebop e despertou para a revolução cultural dos jovens músicos negros que criavam o jazz moderno. O culto da espontaneidade insinuava-se na nova estética do pós-guerra: na action painting de Jackson Pollock, no Actor's Studio de Brando e James Dean, na concepção cênica do Living Theatre, no cabaré satírico de Lenny Bruce, no jornalismo do Village Voice, nos cartuns de Jules Feiffer, na improvisação do bop e na literatura beat.

Jack foi até homenageado com o título de uma das primeiras músicas gravadas do bebop, uma improvisação assinada pelo guitarrista Charlie Christian e pelo trompetista Dizzy Gillespie. Jerry Newman gravou-a ao vivo em 1941 no Minton's, uma boate do Harlem. Baseado na grade de acordes do standard Exactly Like You, o tema precisava de um título, para não pagar direitos autorais. Jerry sugeriu Kerouac. Mesmo desconhecendo Jack, Dizzy gostou do som e topou. (Para ouvir, é só buscar no YouTube: Charlie Christian plays Kerouac (sic).)

Outras afinidades: Kerouac escreveu o texto original de On the Road num rolo de papel de 36 metros de comprimento, datilografando direto em 20 dias (de 2 a 22 de abril de 1950) - algo parecido a um longo solo de jazz, sem nenhuma interrupção no fluxo criativo. O beat que batizou o movimento vem igualmente de beat (beatífico) e beat (batida do jazz). A própria expressão "on the road" já era usada nos anos 1930 no jargão dos músicos de bandas, que viviam "na estrada", tocando cada noite numa cidade diferente.

Kerouac não só foi o grande artífice da fusão jazz + literatura. Teve a sorte - graças à notoriedade de On the Road - de gravar vários discos, recitando acompanhado pelo piano de Steve Allen ou até dizendo haicais e cantando blues apoiado por seus dois saxofonistas favoritos, All Cohn e Zoot Sims. Com sua voz clara e envolvente, Jack transmite todo o seu fascínio pela palavra oral, pode-se até falar numa verbalidade orgástica. O movimento beat desembocou inexoravelmente na grande revolução mochileira dos hippies, no jazz&poetry e nos road movies, no rock de Lou Reed, Tom Waits, Rickie Lee Hones e Patti Smith e - por que não? - do velho Dylan, até hoje na estrada com sua Never Ending Tour, que completou 24 anos na quinta-feira, 7 de junho. A turnê interminável, que contou com a participação entusiástica de Allen Ginsberg. Na comemoração dos 25 anos de On the Road, Ginsberg disse: "Queríamos falar em público como fazíamos na intimidade, queríamos provocar um terremoto cultural." Quem sabe - sem se darem conta disso - os beats provocaram um tsunami na arte e na literatura do nosso tempo.

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