Ken Loach em fase bem-humorada

O diretor inglês muda o tom, mas mantém os temas políticos no premiado A Parte dos Anjos

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2013 | 02h12

Até o ano que vem - Ken Loach havia rido da observação do repórter, no final da entrevista feita no Festival de Cannes do ano passado, no qual apresentava Angel's Share. Com o título de A Parte dos Anjos, o filme estreia hoje nos cinemas brasileiros. Loach tem sido um frequentador tão ativo de Cannes que a observação se referia à possibilidade de que este ano ele estivesse de volta à competição da Croisette. Na verdade, nem foi preciso esperar tanto. Em fevereiro, Loach participou do Festival de Berlim com um documentário - The Spirit of 45. O que representou a histórica vitória dos trabalhistas nas primeiras eleições realizadas na Inglaterra, após a 2.ª Guerra?

Num mundo que havia conseguido derrotar o nazi-fascismo, a vitória do Labour Party encerrava um desejo e um projeto de mudança - e os trabalhistas ganharam com a promessa de criar empregos e dar estabilidade às pessoas nos empregos. Nada a ver com as relações de trabalho que hoje dominam as economias globais. Loach, velho esquerdista, pode mudar o gênero e o formato - A Parte dos Anjos é uma raridade em sua carreira, uma comédia -, mas o humanismo (palavra que hoje em dia soa como insulto) e a consciência social continuam dando a medida do seu trabalho. A entrevista em Cannes foi realizada antes que ele recebesse o prêmio do júri (presidido pelo ator e diretor Nanni Moretti). Em matéria de Croisette, o cineasta inglês talvez seja recordista. Participou 11 vezes da seleção oficial, em diferentes seções. Ganhou a Palma de Ouro em 2006, por Ventos da Liberdade.

A Parte dos Anjos é sobre um grupo de jovens que cumpre serviço comunitário, último estágio antes da cadeia. Sem chance de integração, eles planejam o roubo de um barril raro de uísque. A cena do tribunal lembra os documentários do francês Raymond Depardon, que Loach conhece, mas não foi uma influência. "Nós nos documentamos para fazer certo", conta. O que surgiu primeiro - os garotos no tribunal ou o roubo do uísque? "As coisas são sempre muito orgânicas", explica o diretor. "Paul (o roteirista Paul Laverty - leia entrevista) e eu trabalhamos há tanto tempo juntos que é difícil dizer como os assuntos surgem, ou o que é ideia de quem nos filmes. Mas eu diria que o roubo do uísque foi o que nos motivou. Num mundo que os rejeita, o que esses jovens podem fazer? Não quero ser cínico, dizendo que os bancos e os patrões também roubam, mas é o que todo mundo pensa, não? O roubo do uísque parecia realmente interessante."

E Loach acrescenta - "Paul é advogado e há tempos queria abordar a questão do serviço comunitário. Quando se trabalha junto, como nós, é preciso estar na mesma sintonia. Tenho a impressão de que os roteiros que ele me propõe são cada vez mais ricos e complexos, e o paradoxo é que eles são também simples, como se Paul estivesse se despindo de todo supérfluo para se concentrar em questões essenciais. Mesmo quando trabalha com clichês, sua capacidade de observação e destreza do olhar e da escrita sempre termina por propor algo novo e verdadeiro".

Rota Irlandesa, Irish Route, de 2010, era um drama pesado sobre a Guerra do Iraque. Loach admitiu, surpreso, que foi o maior sucesso de público de sua carreira, creditando o fato à participação de Stephen Lord, um ator muito popular na TV inglesa. "O final do filme era forte, mas deixava muitos espectadores aflitos ou frustrados. Até como reação contrária, pensamos - por que não fazemos algo que as pessoas possam ver sorrindo? O fato de se tratar agora de uma comédia não significa que tenha havido alguma mudança na nossa maneira de ver o mundo. As pessoas continuam sendo marginalizadas e maltratadas, mas os personagens são jovens e o jovem é irreverente e contestador por natureza. O olhar deles é naturalmente mais bem-humorado e eu diria até que engenhoso, na maneira de enfrentar a crise. Essa engenhosidade é que nos interessava colocar no filme."

Um autor como Peter Greenaway irrita-se com a vertente do cinema que procura retratar o mundo tal como o vivemos. Ninguém é mais realista que Ken Loach. Ele veio lapidando essa espécie de naturalismo cênico desde os curtas e documentários dos anos 1960, antes que A Lágrima Secreta/Poor Cow, de 1968 - um ano emblemático - marcasse o começo de sua obra de cinema. O que Loach pensa disso? "De eu ser realista? Não vou polemizar com Peter (Greenaway). Ele faz o cinema dele, eu faço o meu. Mas eu venho de um meio operário. É o mundo que conheço e que me interessa. Não vou falar do que desconheço, não tenho esse tipo de curiosidade. E também não faço distinção entre comédia e tragédia. No fundo, é tudo a mesma coisa, ambas fazem parte da vida. E os atores... A única coisa que espero deles é que pareçam reais para o público. Não gosto de falsificar nada. O distanciamento (brechtiano) também não me interessa. Paul Brannigan, que faz um dos protagonistas, nunca atuou antes, mas é inteligente, divertido e muito humano. É esse o meu prazer, trabalhar com gente como a gente."

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