Keith Jarrett, a fusão entre homem e piano

Assistir a uma apresentação de Keith Jarrett é presenciar uma fusão total entre homem e máquina, artista e meio. Tanto que, em alguns momentos do recital de quarta-feira à noite, na Sala São Paulo, não era possível discernir se era Keith que tocava o piano, ou o piano que tocava Keith. A intimidade entre os dois é absoluta. Pouco depois das nove horas, a sala escureceu. Keith subiu ao palco, agradeceu os aplausos e curvou-se sobre o seu amigo para ouvir o que ele tinha a dizer. O primeiro segredo revelou uma série de fragmentos harmônicos que Keith colheu e espalhou feito pólen pela sala. As melodias eram curtas. Quando pareciam tomar forma, influenciadas pelo contraponto dissonante de Scriabin, logo enveredavam por outros caminhos e se encaixavam em outros contextos. O final de uma frase dava início a outra, como nuvens que se fazem e desfazem rapidamente em uma noite enluarada: o silêncio, ou a escuridão do céu, é a única constante. Quando se satisfez com o reboliço harmônico, Keith se desprendeu da improvisação, levantou e agradeceu novamente.

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2011 | 00h00

O programa, inteiramente improvisado, revelou a versatilidade do pianista. É uma viagem, mais como uma refeição de oito ou nove pratos, servidos por um chef confiante em sua alta culinária. Por quase duas horas, Keith transitou pelo blues, o folk, o free jazz e o erudito, mesmo que seu gênero só possa ser classificado como Keith Jarrett. A segunda peça na sala São Paulo mostrou o lado mais visceral da conexão entre músico e instrumento. Keith construiu em torno de uma figura rítmica funkeada por quase cinco minutos, revirando-a do avesso em busca de todas as possibilidades. Quando tocava algo que lhe inspirava, se erguia em posição de homo erectus e gemia do fundo da alma, como se o piano fosse seu amante, um gesto repetido em todos os improvisos ritmados da noite. Mas Keith não é de deixar o batuque dominar a sua música. O ar de suas improvisações é rarefeito, e o ingrediente suingue, como a feijoada da senzala, seria muito explícito em seu banquete. Em vez disso, a função do ritmo é algo subentendido, uma estrutura efêmera sobre a qual o pianista apoia suas notas.

Exceto por uma brilhante improvisação atonal na segunda parte, em que criava uma tempestade silenciosa com tanta calma que era capaz de botar um nenê para dormir, Keith ficou mais acessível com a progressão do show. Já havia interrompido uma balada com o aviso cômico de que não tinha gostado da introdução, e parecia criar em paz. Agradou o público com uma de suas viagens de acordes simples e sinceros, que remetiam ao tipo de improviso do lendário Koln Concert, de 1975. Esboçou humor quando disse: "Vocês podem tossir agora", uma referência à fama que o músico tem de encerrar suas apresentações por causa de gargantas inquietas. Mas não foi o suficiente para conter a jequice de alguns fãs. Quando voltou para o bis, Keith pediu cinicamente para o público tirar todas as fotos que quisesse e parar quando ele estivesse tocando. Os flashs continuaram e Keith terminou a metade do bis, levantou e foi embora para não voltar.

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