Kazan dissecou mais a fundo questão familiar

Cannes aguardou por A Árvore da Vida durante pelo menos dois anos. E embora Robert De Niro tenha conseguido emplacar o prêmio de direção para Drive, de Nicolas Winding Refn, tão filhote de Taxi Driver, nunca houve Palma de Ouro mais anunciada.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

Pode parecer injustiça não gostar de A Árvore da Vida. O filme tem qualidades, certamente. Pode parecer excessivo que se estruture entre uma abertura à Stanley Kubrick, evocando a pré-história do homem, como em 2001, Uma Odisseia no Espaço, e um desfecho à Chico Xavier, Nosso Lar, que Terrence Malick não deve ter visto. No meio, o entrecho trata de uma saga familiar.

Sean Penn reflete: "Pai, mãe, vocês vão brigar sempre dentro de mim". O pai, interpretado por Brad Pitt, é autoritário. Briga com a mulher, com os filhos. Na tentativa de fortalecê-los para o duro embate da vida, talvez os enfraqueça - ou pelo menos neurotize. É um filme sobre laços familiares. É melhor dizer: sobre os grilhões familiares.

Há um culto a Terrence Malick. Não ocorre com nenhum outro diretor dos EUA. Malick virou o J. D. Salinger do cinema. Como o autor de O Apanhador no Campo de Centeio, ele vive isolado para criar. Necessita da reclusão. Não participa da mundanidade dos tapetes vermelhos, nem o de Cannes. Há uma espécie de blindagem para protegê-lo. E Malick, beneficiado pelo anonimato, pode ter visto seu filme nas sessões de imprensa (e oficial) do maior evento de cinema do mundo, sem que ninguém percebesse sua presença.

É um autor. Um filósofo? Vai nisso certo exagero. Kubrick, sim, talvez fosse o filósofo. E, quanto à família, Elia Kazan foi mais fundo na dissecação dessas relações que muitas vezes são difíceis (e sufocantes). A natureza humana reage sempre às tentativas para represá-la, em Malick como em Kazan. Não há nada radicalmente novo em A Árvore da Vida, mas a blindagem funciona. Virou o maior marketing autoral do cinema na atualidade. Terrence Malick dá respeitabilidade à indústria - astros como Brad Pitt e Sean Penn - e a indústria, por sua vez, retribui, permitindo-lhe criar no seu tempo (ou ritmo). É interessante ver como Malick dobrou a indústria a seu favor. Sinal dos tempos - do politicamente correto? Outros, maiores que ele, sucumbiram diante das pressões. Para tirar a teima, veja também Melancolia. Lars Von Trier, se não tivesse se complicado com as palavras, merecia mais a Palma. Melancolia é mais ousado (e inovador), mas não levou.

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