Karina Buhr e seus sons e letras fora do padrão

Karina Buhr e seus sons e letras fora do padrão

Compositora e cantora mostra amanhã o repertório de seu primeiro álbum-solo, Eu Menti pra Você

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

Navegando segura sobre as ondas intermináveis de novas cantoras, Karina Buhr, em sua incomum estreia-solo, tem várias virtudes que a maioria não tem. Umas produzem discos razoáveis, mas na hora de pisar no palco, sem os truques de estúdio, a ilusão se esfacela. E vice-versa. No caso dela, esta é uma das principais diferenças: tanto o CD Eu Menti pra Você (independente e todo autoral) como suas performances no palco são precisos e complementares. Quem quiser comprovar pode vê-la amanhã no esperado show de lançamento do CD no Sesc Pompeia.

Ela, que vem de experiências no Teatro Oficina - que, além das extravagâncias cênicas do inquieto José Celso Martinez Corrêa, é um bom laboratório de gente de música -, na banda Eddie, como percussionista, e com a Comadre Fulozinha, não foi por acaso que esperou tanto tempo para produzir um álbum-solo.

"Acabou sendo legal primeiro a escolha de Bruno Buarque (bateria) e Mau (baixo) para produzir o disco junto comigo. De todo jeito, eu tinha tanta certeza do que eu queria, que nem pensei em chamar alguém de fora. Bruno e Mau estavam tão envolvidos, que resolvemos produzir os três. Acho que isso teve muita importância pra manter essa história", diz Karina. "A gente já fazia isso ao vivo, então foi só ir pro estúdio e reproduzir isso."

"Sujeira". Uma das certezas de Karina era manter uma certa "sujeira" na sonoridade do disco. "Gravamos juntos todas as baterias e baixos. Fiz a voz guia e cantei quantas vezes foi preciso para servir de referência para o baixo e a bateria, como se fosse ao vivo. Eu queria ter um pouco do elemento punk. O tratamento da voz mesmo não é uma coisa super-limpa. Foi proposital."

A montagem da sequência das faixas difere da ordem do show, e embora dê várias guinadas rítmicas - rock, balada, ska, reggae, funk - há a tão questionada "unidade", possível pela naturalidade com que ela e os coprodutores organizaram o material. "Ficou muito verdadeiro."

O CD abre e fecha com duas canções que já são hits nos shows: Eu Menti pra Você e Plástico Bolha. A primeira já virou sua assinatura musical. Gruda à primeira audição e ela fez questão que fosse a primeira faixa do álbum. "Eu sou uma pessoa má/ Eu menti pra você", canta ela, ao som da guitarra meio etérea de Edgar Scandurra e o trompete jazzy de Guizado, contrastando com uma suposta agressividade que poderia insinuar uma letra desse teor.

Fora do padrão. Outro toque de ironia vem em Ciranda do Incentivo, a única letra que diz ter relação com ela própria. É que em ocasiões em que se inscreveu em leis de incentivo, Karina, baiana criada no Recife, deparou com os estereótipos, que sua música não tem. Porque ainda há quem espere dos pernambucanos a ligação com o folclore, no máximo algo relacionado com o mangue beat. Karina e uma infinidade de outros artistas que vivem ou vêm de lá já estão muito além. Daí essa "ciranda" misturada com funk, tirando onda com o mercado fonográfico. Ela nem gosta de dizer que toca alfaia, mas "bumbo". "Tem uma coisa muito boa de ter divulgado o maracatu, que é muito forte, bonito, mas rolou uma pasteurização que gerou umas coisas que acho horrorosas."

Seja séria ou fazendo humor, como na lânguida Plástico Bolha, ela sempre foge dos clichês. "Tá tudo padronizado/ No nosso coração/ Nosso jeito de amar/ Pelo jeito/ Não é nosso não", espeta em Mira Ira. A guerra é tema de dois rocks: Soldat, feita para seu avô alemão, e Nassiria e Najaf.

Além de Bruno Buarque, Mau, Guizado e Dustan Gallas (teclados) e Fernando Catatau (guitarra), que estarão no show com ela, Karina contou com a participação de Edgar Scandurra e Marcelo Jeneci (acordeon e piano) no CD. São presenças à altura de sua significância.

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