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Kanye West salta em busca da divindade

Rapper lança Yeezus, disco esparso feito por um ego maximalista

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2013 | 02h14

Esqueçam o discurso moralista, aquela velha arma engatilhada pela inveja: o ego de Kanye West é uma obra de arte colossal, provocante e contundente como poucos artefatos culturais na mesma esfera de popularidade. O sexto disco lançado pelo rapper chega às lojas hoje e chama-se Yeezus, título de autoproclamada divindade que combina o apelido Yeezy com o nome do Cristo. Não é o primeiro rapper a se elevar a tais alturas. O mais tranquilo Jay-Z já declarou, há uma década, ser J-Hova, referindo-se a jeová. E ao contrário do que se poderia esperar de um Kanye West, aos 36, em fase madura, com uma mulher grávida (o filho nasceu no fim de semana) e nada a provar, tal narcisismo sacro consegue ser o estopim de faixas agressivas e, em parte, vanguardistas, que enxugam o maximalismo protagonizado pelo rapper em seu último disco, My Beautiful Dark Twisted Fantasy, lançado há três anos.

Mas tanto no disco em questão como agora, a auto imolação é a essência. E em Yeezus, Kanye a emprega com maestria. Quando se espera uma megalomania desenfreada, sua relação com Jesus é até respeitosa, considerando a ousadia. I Am a God, terceira faixa, o rapper tem na letra: "Acabei de falar com Jesus, ele me perguntou 'e aí Yeezus?'/ Eu disse: 'tô de boa, tentando empilhar os meus milhões'". A faixa, embora sombria e agressiva como o resto de Yeezus, é bem-humorada. Seu refrão declama: "Eu sou um deus/ Anda logo com a minha massagem/ Eu sou um deus/ Tira o Porsche da garagem".

Yeezus, no entanto, emprega também outros lados da persona de Kanye. Em New Slaves, há uma visceral manifestação contra o estado atual do negro e, em I'm In It, ele rima sobre taras sexuais. O que se ouve é um nítido cuidado com as rimas, que estão mais cortantes e vituperiosas do que se tem ouvido de Kanye, especialmente na fraca coletânea Cruel Summer, lançada ano passado com algumas faixas inéditas. A preocupação revela uma das qualidades mais interessantes do artista, e a provável razão pela qual continua produzindo discos de impacto: seis álbuns adentro de sua carreira, o rapper parece ainda ter algo a provar. Não é a toa que Yeezus, que tem participação de Bon Iver, Daft Punk, Skrillex, e produção de Rick Rubin, foi retocado pelo perfeccionista West até uma semana antes do lançamento. A qualidade das rimas também reflete as críticas a Cruel Summer.

Yeezus é a versão 2013 de uma persona que Kanye West constrói desde os tempos do clássico College Dropout, seu disco de estreia, de 2004, cujo single Jesus Walks ainda colocava a figura sagrada em um patamar inalcançável. Desde então, Kanye protagonizou momentos de popularidade messiânica, como quando criticou George Bush por não gostar de pessoas negras, depois do desastre do furacão Katrina, em 2005. Foi parar na fossa em 2009, ao interromper Taylor Swift na premiação do MTV Video Awards. E voltou com My Beautiful Dark Twisted Fantasy, de 2010, disco em que explora sua egolatria decadente com um bisturi aflitivo, gerando novos clássicos do hip hop.

Twisted Fantasy provavelmente será visto daqui há alguns anos como uma espécie de ápice na carreira do rapper, pois tal intensidade, traduzida em hits e batidas extremamente populares, é difícil de ser alcançada duas vezes. O que não quer dizer que Yeezus seja um disco inferior. É apenas o melhor disco que Kanye West poderia fazer neste momento de sua carreira. O rapper, que além de deus, se considera o Michael Jordan e o Steve Jobs da música atual, mostra preocupação em empurrar o gênero para frente. Sua entrevista com o New York Times, publicada na semana passada, revelou uma recente obsessão com o minimalismo.

Kanye disse que, ao passar uma temporada em Paris, viu em um museu uma luminária projetada por Le Corbusier e refletiu bastante sobre a estética do menos. Assim, combinado à sua declaração de que Yeezus é influenciado por house music dos anos 80, parece balela colar pensamentos vanguardistas às batidas do disco. São simples e boas, sim, mas longe de serem obras primas de minimalismo em música eletrônica. Mas Yeezus tem visão, sim, e não se engane: Kanye continuará fazendo discos tão bons quanto. Basta ouvir Blood On the Leaves, com sample de Nina Simone cantando Strange Fruit, densificado por cornetas de guerra. Ou a escuridão de I'm In It, pelo qual os vocais de Bon Iver vagam como espíritos perdidos. Em conjunto com a primeira metade de Yeezus, justificam o admirável ego de Kanye West.

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