Kaki King, heroína da guitarra

Virtuosa já tocou no metrô e diz que experiência ajudou na 1ª turnê

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2012 | 03h10

Em 2007, a revista norte-americana Rolling Stone deu uma capa intitulada Os Novos Deuses da Guitarra, e ela era a única mulher a integrar aquele time. Bonita, veloz, inteligente, lésbica assumida: aos 32 anos, a guitarrista Kaki King é hoje uma solitária representante do gênero "guitar heroin", e largamente celebrada por seus pares, gente como Eddie Vedder (Pearl Jam), Dave Grohl (Foo Fighters), John McIntire (do Tortoise), entre outros.

"Muita gente ressalta isso em artigos e reportagens, e eu fico grata por me destacarem, mas há muitas outras guitarristas mulheres, além de homens, e isso não é algo realmente interessante para mim", desabafou a violonista e guitarrista ao Estado, anteontem à noite, já em São Paulo. Ela toca no Sesc Ipiranga hoje e amanhã, às 21 h. No ano passado, ela esteve no Brasil e já fez algumas novas amizades no País - uma delas com o percussionista brasileiro João Parahyba, do lendário combo de samba jazz Trio Mocotó, que lhe deu umas aulas de pandeiro.

Kaki é o codinome de Katherine Elizabeth King, nascida em Atlanta, Georgia, em 24 de agosto de 1979. No início da carreira, ela chegou a tocar no metrô de Nova York, tornando-se uma espécie de "residente" da Linha L.

"Foi bonito. Foi na época do atentado do World Trade Center, quando Nova York andou um pouco perigosa. Eu tinha acabado de sair da faculdade, não tinha emprego, não tinha dinheiro, não tinha nenhuma pista do que faria a seguir. Estava uma bagunça a minha vida. E as pessoas me trataram muito bem, mostraram-se conectadas comigo. Em Nova York, a música ocupa um lugar muito especial, culturalmente, na vida cotidiana. Encaram a música normalmente em lugares públicos. Foi uma grande lição para mim", ela conta. "Aquela experiência me preparou para minhas primeiras turnês, para tocar em lugares barulhentos, onde havia gente falando alto, garrafas, garçons passando. Ajudou na concentração. Sou grata por aquela experiência."

Hoje, Kaki já tem um cartel de sete discos lançados. Multi-instrumentista, em alguns dos seus discos ela tocou bateria, percussão, baixo, guitarra, teclados, sintetizadores, lap steel e guitarra elétrica, além de cantar e compor. Kaki ficou sinceramente lisonjeada com a lembrança de que há algo do estilo de Ry Cooder em algumas interpretações dela em seu disco ...Until We Felt Red (gravado em 2006, relançado em 2011). "É um grande elogio." Também comentou sua relação com a música brasileira. "João Gilberto é uma lenda. Um dos caras maravilhosos de seu tempo. É claro que a bossa nova foi uma influência para mim, assim como todas as coisas rítmicas."

Kaki trabalhou com Eddie Vedder e Michael Brook na trilha sonora de Na Natureza Selvagem, de Sean Penn, pela qual o trio recebeu indicação para o Globo de Ouro. Ela tem como peculiaridade falar abertamente de sua homossexualidade e fazer canções que tratam de seus relacionamentos, como Jessica (a respeito de uma monitora de camping que ela conheceu na adolescência). Outra canção, Gay Sons of Lesbian Mothers, virou um tipo de manifesto. "É só uma canção. É um título tolo. As pessoas de fato gostam dessa canção, mas eu não sou muito boa para dar títulos a músicas. É instrumental, não é um manifesto."

Kaki admite influência direta de músicos como Michael Hedges, Preston Reed e Leo Kottke, mas é daí que vem seu estilo pessoal e virtuoso de tocar violão e guitarra, com técnicas percussivas e afinações inesperadas? "Sabe, eu comecei a tocar violão quando eu tinha 4 anos de idade. Acho que quando eu tinha 13, 14 anos, eu já era uma violonista suficiente boa para decidir o que queria tocar. Podia tocar rock, clássico, speed metal se quisesse. Mas nenhuma dessas coisas era suficiente para mim, embora normais. Tocava tudo do meu jeito. Eu tinha passado minha vida ouvindo aqueles guitarristas, admirando aqueles discos, mas eu não estava tentando deliberadamente criar uma técnica ou um estilo. Isso veio naturalmente, sem forçar a barra."

Ela contou que andou compondo algumas coisas no Brasil. "Não é nada em nível oficial, mas estou compondo bastante. Amo tocar, estou aprendendo como me manter criativa, tentando ver para onde me levam os próximos passos."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.