Kafka e a eterna luta pela dignidade

A Cia. Borelli revê em Colônia Penal toda a violência da ditadura brasileira

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2013 | 02h09

Na semana em que Kafka (1883- 1924) completaria 130 anos, a Cia. Borelli de Dança estreia Colônia Penal, sua quinta produção baseada na obra do escritor checo, que escrevia em alemão. As outras quatro são: A Metamorfose (2002), O Processo (2003), Carta ao Pai (2006) e Kafka in Off (2007). O que elas têm em comum é um interesse pelas diversas formas de violência que tecem as relações humanas, tema que Sandro Borelli trabalha nas 21 coreografias que já criou.

"Sei que já posso estar sendo chamado de Sandro Kafka, mas entendo a arte como uma militância política e social e encontro nela uma ressonância que possibilita, cada vez mais, que eu vá me infiltrando nessa direção", diz ele, rindo, em entrevista telefônica ao Estado.

"A arte precisa estar antenada e, como se trata de verba pública, pois estamos produzindo com recursos vindos da Lei de Fomento à Dança da cidade de São Paulo, a responsabilidade fica ainda maior. Precisamos devolver para a população a nossa história em forma de arte."

Dessa vez, a obra é dedicada aos desaparecidos da ditadura brasileira (1964-1985). "Pensava na Colônia Penal do Kafka desde 2010, por ver nela um lugar onde os personagens não encontram nenhuma saída. Logo no início do livro, você já percebe que vai terminar como começou. Acabamos construindo uma peça violenta, com tortura física e, sobretudo, psicológica, o tempo todo. De um lado, trabalhamos a energia de Golbery, Erasmo Dias e dos presidentes militares, e do outro, a de Carlos Lamarca e Carlos Marighella."

Como no elenco estão jovens que não viveram essa época, Borelli conta que tenta seduzi-los, sublinhando a importância desse tipo de escolha artística. "Chafurdamos pelo material sobre o tema que, felizmente, não é pouco. O intérprete precisa estar contaminado para evitar fazer somente uma repetição de movimentos. Ele precisa acreditar naquilo que está dançando."

A dramaturgia da sua Colônia Penal discute o papel dos heróis. "Colocamos aquele observador enviado pelo país mais desenvolvido para observar os métodos arcaicos do país menor, o personagem central dessa obra de Kafka, como um anti-herói. O processo de criação é sempre mágico para mim, e me alimenta mais enquanto dura do que quando estreia."

Sandro Borelli é também o presidente da Cooperativa Paulista de Dança, onde começou como vice, em 2010. Lá, capitaneia o movimento A Dança se Move, que reúne artistas, pensadores e produtores conscientes da necessidade de produzir políticas públicas para a dança na cidade.

"Às vezes, tenho saudade dos anos 1990, quando não existia esse tipo de financiamento para a dança e, mesmo sem ele, produzíamos e sobrevivíamos do nosso trabalho. O que sei é que algo precisa ser feito para mudar o atual cenário. Penso diariamente em como avançar e qualificar politicamente os que estão agora entrando no mercado."

Colônia Penal fica em cena até 4 de agosto, na sede da companhia, o Kasulo, na Barra Funda. No elenco estão Alex Merino, Amanda Santos, Francisco Silvino, Maíra Campos, Verônica Santos e Branca Gonzaga (estagiária). Com trilha sonora de Gustavo Domingues, figurino escolhido pela própria companhia, tem concepção, coreografia e direção de Sandro Borelli, que também assina a luz do espetáculo.

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