Juventude e pobreza de ilusões

Foi por causa de um poema de Giovanni Pascoli que a italiana Silvia Avallone decidiu, aos 8 anos, que seria escritora. Preparou-se por 15 anos e estudou Filosofia no meio do caminho, até lançar, em 2007, aos 23, sua primeira coletânea de poemas, o premiado Il Libro Dei Vent'Anni. Três anos mais tarde, voltaria às livrarias com o romance Aço. Publicado agora no Brasil pela Alfaguara, o livro, que ganhou prêmios na Itália e na França e adaptação para o cinema - a estreia será em 2012 -, já foi vendido para 17 países.

Maria Fernanda Rodrigues, de O Estado de S. Paulo,

10 de dezembro de 2011 | 03h10

Vista como a nova revelação da literatura italiana, Silvia, hoje com 27 anos, diz que ainda é cedo para se considerar escritora e conta que adoraria ensinar literatura nas escolas. Seria uma oportunidade de mostrar aos estudantes suas preferências literárias: Dostoievski, Flaubert, Capote, Steinbeck, Pasolini, Elsa Morante, Marina Tsvetaeva, Gabriel García Márquez e - curiosamente - Jorge Amado. Enquanto o futuro não se define, Silvia segue, com a dificuldade de quem só fala italiano, divulgando Aço.

Para um romance tão delicado, apesar da linguagem, que trata da amizade e das descobertas de duas amigas adolescentes durante o verão de 2001, e das relações humanas que se desenrolam num bairro operário de Piombino, área industrial da cenográfica Toscana, o livro tem um título duro e, talvez, pouco atrativo. Mas existe um bom motivo para ele estar ali. A história gira em torno da siderúrgica Lucchini, que existe de verdade e ajuda, ou ajudava, a sustentar a cidade.

Ao falar sobre as ilusões e desilusões dos jovens Anna, Francesca, Alessio e Cris, para quem a vida só é perfeita na praia, num rinque de patinação ou numa casa de prostituição, a autora retrata uma Itália em crise. "Meu livro não é um romance ideológico, mas com certeza é 'engajado', porque os problemas do meu país me dizem respeito e porque considero que a literatura serve também para falar das dificuldades e para enfrentá-las", comenta. Questões como o desemprego, violência doméstica e falta de perspectivas estão no romance de Silvia, uma crítica ferrenha da Era Berlusconi. Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista que ela concedeu ao Estado.

Antes de publicar Aço, você já tinha escrito um livro de poemas. Poesia e prosa têm pesos idênticos na sua produção?

A poesia teve grande influência no meu estilo narrativo e foi uma extraordinária oficina linguística. Em Aço, misturei o léxico e o ritmo da poesia à linguagem oral, cotidiana e viva das pessoas e dos lugares. Talvez derive daí uma certa contradição, que para mim significa riqueza e complementaridade. Meu estilo tenta expressar a poesia que existe na realidade.

Como foi experiência de escrever Aço?

Foi, antes de tudo, uma aventura inesquecível, como toda primeira vez. Não tinha ideia do que significava "escrever um romance" e vivi isso de modo apaixonado desde o momento em que o primeiro capítulo, numa tarde inspirada e afortunada, me veio espontaneamente. Segui as emoções e as histórias de meus personagens. No processo de escrever, precisei afundar as mãos na realidade. Meus conhecimentos e minhas emoções não eram suficientes. Tive de pegar o trem e viajar para conhecer melhor a fábrica e as discotecas da província. Descobri, ao mesmo tempo, a escrita e o mundo.

Você tem sido apontada como a nova revelação da literatura italiana.

Não penso nisso, não me deixo condicionar por clamores que são sempre passageiros. A acolhida dos leitores a Aço foi uma surpresa imensa e um presente que me emociona até hoje. Mas a meu ver ninguém se torna escritor com um único romance. A escrita é um percurso paralelo à vida e eu mal comecei. Tenho muitos e muitos desafios e muita estrada pela frente.

Por que acha que Aço foi tão bem recebido pela crítica italiana?

Talvez por ser um romance com uma forte carga social, mas, ao mesmo tempo, também um romance íntimo, que mergulha no interior dos personagens. E talvez também porque minha linguagem é crua e, ao mesmo tempo, lírica.

Alguns dos estereótipos italianos estão no livro. Como isso foi visto?

Eu diria que toquei em muitos temas difíceis e em problemas do meu país: os jovens operários nestes tempos de crise, a dificuldade de crescer na província e de se tornar adulto numa época em que o futuro é cada vez mais incerto, o problema da discriminação contra as mulheres (livres no papel, mas na realidade ainda vítimas de demasiadas injustiças, como a violência doméstica no interior das famílias). Todos esses são temas que, a meu ver, merecem a máxima atenção e o máximo empenho.

O que significa ter 27 anos hoje na Itália?

Minha geração, ao contrário das anteriores, vive na própria pele os problemas relacionados à crise econômica. Hoje é muito complicado atingir metas que, para as gerações passadas, eram evidentes: encontrar um trabalho, casar, ter filhos. O desemprego aumenta e é cada vez mais difícil sonhar com um futuro de certezas. Mas continuo bastante confiante. Minha geração, exatamente porque precisa conquistar tudo isso, lidando com problemas que as gerações anteriores deixaram como herança, está crescendo mais forte, mais determinada e, eu diria, até mais responsável.

Sob o impacto de certos agentes externos, como o calor, o aço se deforma e pode ser trabalhado. É uma metáfora para a própria existência humana?

A vida é como o aço, sob certos aspectos: dura e maravilhosa. Muitas vezes, porém, a vida é também um destino: depende de onde você nasce, do tempo em que nasce e de quem são os seus pais. Nem todos têm a liberdade de escolher o próprio futuro, nem todos conseguem se libertar dos condicionamentos sociais e do peso do passado. Nesse sentido, moldar a própria vida, libertá-la de condicionamentos é uma tarefa colossal e extenuante, exatamente como o ciclo integral contínuo de uma siderúrgica.

Houve alguma reação por parte dos diretores da Lucchini em razão da utilização da fábrica como cenário do livro? E dos operários e da população de um modo geral?

Recebi mensagens de satisfação de inúmeros operários e até de diretores, e não somente da Lucchini, porque finalmente alguém falava deles e da fábrica. Muitos me cumprimentaram por ter retratado os jovens operários de hoje com seus problemas e sem recorrer aos velhos chavões do passado. Mas naturalmente há quem não aprecie meu romance. Muitos cidadãos de Piombino não se reconheceram em Aço e me acusaram de ter feito uma "publicidade negativa" da cidade, de ter retratado uma realidade degradada. Para mim, porém, não existe nenhuma degradação na realidade que narro - ao contrário. Eu retrato uma humanidade que para mim é belíssima e cheia de dignidade e orgulho.

Cristiano promete ao filho bebê um dia levá-lo ao carnaval do Brasil. Qual é a sua relação com o País?

O carnaval do Brasil é, para todos, uma espécie de sonho, de paraíso transbordante de vida, e é natural que Cristiano queira, cedo ou tarde, alcançar esse paraíso para mostrar ao filho quanto o mundo pode ser extraordinário. O Brasil é um país que me atrai muito por sua imensa vitalidade, por seu crescimento imponente e também por todas as suas contradições. Sonho em visitá-lo um dia e sentir seus cheiros, sua música, olhá-lo nos olhos.

Como imagina a Itália sem Berlusconi?

Creio que chegou ao fim a época em que se podia dizer que "a vida é uma festa" e na qual os sonhos eram aqueles mostrados na tevê. A vida, felizmente, não se reduz a isso e é possível alimentar projetos mais ambiciosos. Agora, todos estamos empenhados em enfrentar os problemas reais para construir um futuro diverso, com mais justiça e equidade - a milhares de milhas de distância das máscaras e brilhos dos espetáculos de variedades e dos reality shows.

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