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Juventude congelada

Por que os chefes de Estado no século 21 se dirigem a nós como se fôssemos crianças?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2014 | 02h05

O sofá diante da TV ou a cadeira ergonômica diante da tela me fazem sentir fora de lugar, às vezes, quando ouço o presidente falar. Tenho a mesma sensação, ainda que as oportunidades sejam mais infrequentes, quando ouço a presidente falar. O assento correto seria uma daquelas cadeiras baixinhas que mal acomodam o derrière de professores em turmas de maternal.

Há momentos em que palavras presidenciais me remetem a cenas de infância quando apertava a mão da minha mãe no escuro e ela me prometia que, se eu fechasse os olhos, não teria mais um sonho com o bicho-papão. O mundo está mergulhado em conflitos armados, terrorismo, epidemias e recessão mas nossos ouvidos delicados precisam de palavras de conforto e eufemismos. Para escapismo, eu prefiro musicais da Metro ou episódios da série Veep.

Se há mais de um mês os Estados Unidos bombardeiam os monstros do Estado Islâmico no Iraque, se já despacharam centenas de membros de forças especiais, por que vamos acreditar que tudo não passa de um "esforço" antiterrorista?

Se há mais de dez anos a Petrobrás é saqueada como um vilarejo poeirento do Oeste americano no meio do século 19, por que devemos acreditar que dois presidentes consecutivos viviam em completa ignorância da prevaricação? E, pior, podemos nos tranquilizar com as palavras maternas no escuro que nos garantem que "a sangria já foi estancada"?

Quando descobrimos que inúmeros soldados ucranianos cercados por separatistas e soldados russos preferiram meter uma bala na cabeça a cair nas mãos de mercenários chechenos, encarregados de fazer o trabalho de limpeza e famosos por torturar prisioneiros, só mesmo uma regressão nos permite levar a sério Obama se vangloriando de que a América liderou o mundo para proteger a Ucrânia da agressão russa.

Tomemos o solene discurso à nação feito da Casa Branca na semana passada para anunciar a escalada do conflito no Iraque, quando Obama não só duvidou da inteligência e maturidade dos ucranianos como usou uma comparação extraordinária para explicar o novo "esforço". Ele disse que os ataques por drones no Iêmen e na Somália foram um sucesso porque mataram inúmeros terroristas. Sem dúvida. Mas não disse que os ataques semearam novos recrutas por atrair simpatia para militantes islâmicos entre os iemenitas e a Somália continua a ser um estado falido onde o último comandante da al-Shabab, morto por um drone, já foi substituído.

Na abertura de um dos discursos mais importantes de sua presidência, um discurso que ele se elegeu para não fazer porque chegou à Casa Branca graças à fadiga dos eleitores com duas guerras, Obama disse, mais de uma vez: "Vamos degradar e no fim destruir o grupo terrorista conhecido como ISIL". O governo americano evita usar "Estado Islâmico" para não promover o branding do mais bem-sucedido movimento militante islâmico desde a Al Qaeda. Degradar pode ser possível, destruir, a médio prazo, não é.

E, pela enésima vez, Obama usou "não teremos botas no chão" como quem coloca a chupeta de volta na boca do bebê chorão. Que "esforço" cirúrgico e antisséptico é este que vai dar cabo de dezenas de milhares de militantes fanáticos, bem armados, com os cofres abarrotados, capazes de tornar irrelevante a fronteira entre a Síria e o Iraque e no controle de uma área com mais de 4 milhões de habitantes? Sim, os americanos não querem saber de uma nova guerra. Mas também não querem incorporar à sua dieta televisiva espetáculos com seus cidadãos ajoelhados sendo degolados por mascarados. É preciso explicar o momento sem dourar a pílula.

Em 1933, ao tomar posse pela primeira vez com o país mergulhado na Grande Depressão e a poucas semanas da posse de Hitler, Franklin Roosevelt quis unir os americanos mas como adultos e disse a famosa frase "A única coisa que devemos temer é o próprio medo". Passamos dela para o Obama de "Quero que o povo americano compreenda que este esforço (...) não vai envolver tropas de combate lutando em solo estrangeiro". Ou seja, o país enfrenta uma dantesca nova ameaça de militância islâmica mas existe uma solução indolor. Não estou aqui, de forma alguma, defendendo uma nova aventura militar nem a ocupação de um país contra a sua vontade.

O discurso de admissão de problemas graves, sejam eles o terrorismo ou a corrupção em grande escala, se tornou um exercício de marquetagem e diluição.

Mas os presidentes não estão sendo originais. Em junho, a escritora Ruth Graham criticou na Slate adultos que leem Harry Potter e destacou o fato de que mais da metade dos consumidores de ficção para adolescentes tem mais de 18 anos. Foi bombardeada por protestos e xingada como uma Stalin cultural. Há toda uma cultura contemporânea que nos promete uma vida de permanente menoridade psicológica.

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