Justiça quer leiloar acervo da família Bloch

Telas valiosas de nomes como Volpi, Portinari, Djanira, Di Cavalcanti e Pancetti estarão à venda num leilão milionário em abril, que pode arrecadar cerca de R$ 200 milhões. A farta quantia não vai para o bolso de nenhum excêntrico colecionador de arte, e sim para o pagamento de credores, entre eles, funcionários e ex-funcionários, e impostos atrasados da Bloch Editores, cuja falência foi decretada em 1.º de agosto.Ao todo, são 258 quadros e 15 esculturas que foram apreendidas no dia 19 no Rio, por determinação do juiz da 5.ª Vara de Falências e Concordatas, José Carlos Maldonado de Carvalho. O acervo, uma das grandes paixões do já falecido fundador da Bloch Editores, Adolpho Bloch, foi apreendido em três localidades: na casa de Lucy Bloch (ex-mulher do empresário Oscar Bloch), na casa da filha do ex-controlador da Manchete/Bloch, Pedro Jack Kapeller, Daniella, as duas em Copacabana, e numa casa em Teresópolis, região serrana do Rio. Segundo o juiz Maldonado, a Justiça vai avaliar nos próximos 15 dias se o acervo apreendido faz parte da massa falida da editora. As obras passarão por uma perícia, em que serão analisadas por marchands para terem sua autenticidade comprovada e, assim, passarem a leilão. Entre as telas mais valiosas, há a obra A Retirada, de Volpi, avaliada em R$ 1 milhão. "Acredito que todas as telas sejam autênticas, pois pertenciam à Pinacoteca Adolpho Bloch", diz o juiz.Maldonado conta que a Justiça ficou sabendo da existência do acervo por meio da denúncia de alguns ex-funcionários, que declararam em depoimentos que os prédios tanto da Bloch como da extinta TV Manchete, pertencentes ao mesmo grupo, tinham os corredores repletos de obras de arte. Mesmo assim, esclarece o juiz, a família Bloch não apresentou nenhuma resistência no dia da apreensão. Segundo ele, o advogado da família Bloch, Alfredo Bumachar, entregou no dia 21, "espontaneamente", 29 telas que não haviam sido encontradas no dia da apreensão.Alfredo Bumachar diz que é possível que quadros não pertecententes à massa falida da empresa tenham sido apreendidos. Segundo ele, durante a perícia realizada pela Justiça, um perito indicado pela família vai analisar o que pode ir ou não a leilão. "A família só quer o benefício dos credores, eles estão em primeiro lugar, por isso entregamos à Justiça, espontanemente, 29 quadros que pertencem à coleção mais valiosa do acervo e devem valer cerca de R$ 3 milhões", diz Bumachar. "Mesmo assim, vamos esperar o exame minucioso de nosso perito e da Justiça, para recorrer se encontrarmos quadros que não são da massa falida."Os primeiros beneficiados pelo leilão, diz o juiz Maldonado, serão os trabalhadores que estão sem receber salários e os ex-funcionários que não receberam suas recisões. A dívida trabalhista da família Bloch passa dos R$ 30 milhões, e com os fornecedores chega a R$ 42 milhões, acredita o juiz. Para o Sindicato dos Radialistas do Rio, o rombo é muito maior. Eles estimam que as obras apreendidas não pagarão nem a metade do que a Bloch deve a trabalhadores e credores. "Passa dos R$ 400 milhões a dívida da família Bloch", acusa Roberto Souza Machado, diretor do Sindicato dos Radialistas do Rio. "Mas acho que se o leilão ocorrer, a Justiça já estará dando um grande passo."

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