Edison Vara/Divulgação
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Júri aposta na ousadia e premia 'Tatuagem'

O colombiano 'Cazando Luciernagas' foi o melhor da competição latina

Luiz Carlos Merten/ Gramado, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 02h14

Ao contrário da competição brasileira, a latina do 41º Festival de Gramado deve ter sido bem fácil para o júri. O colombiano Cazando Luciernagas, exibido na última noite, sexta, era realmente o melhor título da seleção e nem deve ter havido muita discussão para atribuir o Kikito ao filme do diretor Roberto Flores Prieto. Já a mostra brasileira deve ter animado discussões acaloradas e o júri premiou Tatuagem, de Hilton Lacerda, como melhor filme.

Irandhir Santos foi melhor ator, mas Hilton viu o Kikito de direção ser atribuído a dupla Andradina Azevedo e Dida Andrade, por A Bruta Flor do Querer. São filmes gêmeos e, de certa forma, foram os escândalos, no plural, de Gramado em 2013, Dois filmes que discutem a criação, um mais metalinguístico (A Bruta Flor) e ambos marcados por cenas de sexo muito forte. A diferença é que o sexo de um é homo e o do outro é hétero, embora no debate, falando da perfeita união entre ambos, Andradina Azevedo e Dida Andrade tenham dito que o casamento deles é puramente platônico.

O júri apostou no ousado, e isso é bom, mas suas escolhas vão dar o que falar. Por melhor ator que seja Irandhir Santos, não foi o melhor do festival. E atribuir um Kikito póstumo, de coadjuvante, para Walmor Chagas - por A Coleção Invisível -, foi uma facilidade e uma covardia, alem de injustiça com os estreantes do filme pernambucano. Jesuíta Barbosa e Rodrigo Garcia são melhores que Irandhir Santos (neste filme, ao menos) e o júri teria ousado mais desatacando o trabalho dos garotos, em vez do prêmio para o grande Walmor. Ele não apenas não precisa mais do prêmio - não precisaria nem em vida - como é bom no padrão de qualidade que sempre foi o seu, sem a visceralidade dos papéis de Jesuíta e Rodrigo.

Sem cinismo algum, pode-se dizer que as discussões em Gramado foram melhores que os filmes. O próprio Tatuagem, por discutível que seja, possui sua importância e a história de uma companhia transgressora (dos costumes e da política), no Recife, durante os duros anos da repressão do regime militar, levanta questões muito interessantes. O líder da companhia que se apresenta no espaço Chão de Estrelas é um gay que teve um filho. Ele se envolve com um soldadinho sob os olhos do filho, que acompanha a ligação e tem a frase final sobre ela, no último diálogo. O menino talvez seja o melhor personagem do filme e, embora Tatuagem não seja autobiográfico, tem muito do diretor.

Tatuagem sugere uma mistura de A Febre do Rato, de Claudio Assis, que Hilton Lacerda escreveu, com Dzi Croquettes, o documentário sobre o grupo que afrontou a ditadura com seu comportamento libertário. Dzi foi feito - em parceria - por Raphael Alvarez e Tatiana Issa, filha de um dos Dzi. É mais ou menos como se o menino de Tatuagem fizesse anos mais tarde, já adulto, um documentário sobre seu pai. A transgressão jovem de Tatuagem e A Bruta Flor foi uma aposta do júri, com prejuízo para obras como Os Amigos, de Lina Chamie, e O Primeiro Dia de Um ano Qualquer, de Domingos Oliveira.

É curioso que tanto Tatuagem e A Bruta Flor quanto O Primeiro Dia e Os Amigos são filmes irmãos, os últimos discutindo relações na perspectiva de uma geração mais madura. São também filmes mais clássicos, e o de Domingos é melhor. Sem que se possa dizer que Os Amigos é ruim, pois não é, não sustentou a expectativa dos que esperavam outro grande filme da diretora.

Enfim, o prêmio de direção para Andradina Azevedo e Dida Andrade deve ter ido além dos sonhos da dupla. Nas pegadas de François Truffaut, que fazia filmes para dormir com suas atrizes, Dida virou o incubo das feministas ao declarar - um diálogo do filme - que também virou diretor para pegar mulheres. Elas o detestaram por isso, e não se preocuparam como o filme é belo na sua discussão de temas como criação, rejeição e reinvenção. Os jovens do filme, interpretados pelos diretores, são cafajestes? São o espelho de sua geração e, a propósito, a cena final é, inconscientemente, como disse Dida, uma homenagem ao clássico de Ruy Guerra.

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