Regis Duvignau/ Reuters
Regis Duvignau/ Reuters

Jurados de Cannes apostam no novo e nos provocadores

Além de 'A Vida de Adele', Grand Prix do festival, causou surpresa a escolha do diretor mexicano Amat Escalante

LUIZ CARLOS MERTEN - ENVIADO ESPECIAL,

27 de maio de 2013 | 02h05

CANNES - Havia gente - jornalistas de língua inglesa - querendo saber do presidente Steven Spielberg como ele achava que um filme com as cenas de sexo de A Vida de Adèle poderia chegar ao conservador público do meio Oeste dos EUA? "Espero sinceramente que o filme encontre seu público na América. É possível que em alguns Estados tenha mais problemas, mas este foi outro assunto que não levamos em consideração - se o filme seria palatável."

O prêmio para as atrizes Adèle Axerchopoulos e Lea Seydoux, embutido na Palma de Ouro, liberou o júri para outorgar a Berenice Bejo o prêmio de interpretação feminina pelo filme de Asghar Farhadi, O Passado.

Não foi uma grande escolha, mas é pelo menos defensável. Se era para premiar Farhadi - e ele virou um dos diretores mais prestigiados do mundo, após o Urso de Ouro e o Oscar de Uma Separação -, Berenice é o que o filme tem de melhor.

Outro diretor que poderia ser premiado em várias categorias - Grand Prix, roteiro, contribuição artística (pela admirável fotografia em preto e branco) -, o norte-americano Alexander Payne recebeu o mais indiscutível dos troféus para o seu Nebraska. OK, o italiano Toni Servillo poderia ter sido melhor ator por La Grande Bellezza, de Paolo Sorrentino, mas Bruce Dern é maravilhoso no filme de Payne e o prêmio ainda coroa uma daquelas carreiras que tendem a ser negligenciadas.

Embora tenha feito mais de 80 filmes, Dern, pai da atriz Laura Dern, foi sempre coadjuvante. Vira agora protagonista aos 77 anos. Em entrevista ao Estado, ele disse que tem a impressão de estar começando. "É como se Nebraska fosse meu primeiro filme."

Mas nenhum prêmio foi mais inesperado - e surpreendente, no bom sentido - que o de mise-en-scène. Para quem se dispunha a abrir os olhos para o cinema do mundo, Steven Spielberg e seu júri fizeram uma grande aposta e o prêmio de direção foi para o mexicano Amat Escalante, por Heli.

Produzido por Carlos Reygadas, foi um dos filmes mais radicais vistos neste festival. A história passa-se na região fronteiriça com os EUA. Trata da violência ligada ao trafico.

Heli, o protagonista, trabalha na indústria automotora. Sua irmã de 13 anos inicia uma relação perigosa com um soldado das forças de combate a traficantes.

Só que o próprio soldado e outros integrantes do pelotão - incluindo o chefe - estão desviando drogas que deveriam destruir. Colhido no centro de uma explosão de violência, Heli conhece na carne o próprio inferno. Como em A Vida de Adèle, de Abdellatif Kechiche, mas agora entre héteros, o sexo joga um papel importante.

O filme constrói-se entre um coito interrompido e outro que finalmente se concretiza. A última imagem vale sozinha o prêmio de direção. Há uma luz especial (silenciosa?), como nos filmes de Reygadas. México, China (Jia Zhangh-ke), Japão (Hirokazu Kore-eda), França (Abdellartif Kechiche), EUA (Alexander Payne).

O júri de Spielberg realmente celebrou, com um certo olhar, o cinema do mundo. Kim Novak, ao entregar o Grand Prix (para os irmãos Coen) lembrou que Um Corpo Que Cai, em 1958, não parecia tão grande e hoje é um filme cult. Só o tempo dirá, mas algumas escolhas corajosas de Spielberg e seu júri já nascem com vocação de cult.

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