Juntos, a cia. dos atores e os fofos encenam

Grupos do Rio e de São Paulo farão espetáculo em parceria

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2010 | 00h00

Manter um grupo de teatro não é tarefa das mais triviais. Existem as dificuldades financeiras a conspirar contra sua longevidade, o desafio de buscar novos repertórios, a árdua empreitada de dirimir desavenças entre artistas - gente que, diz o senso comum, tem lá suas idiossincrasias. Agora, imagine juntar duas companhias - com histórias, estilos e sedes em Estados diferentes? É essa a pretensão da carioca Cia. dos Atores e do grupo paulistano Os Fofos Encenam, que acabam de firmar uma parceria.

Não há só a geografia a separar os dois coletivos. Além de sediadas em cidades distintas, Cia. dos Atores e Os Fofos construíram trajetórias divergentes. Os cariocas surgiram há 22 anos. Acostumaram-se a criar seus textos em processos colaborativos ou a reler em chave muito particular clássicos, como o Hamlet, de Shakespeare e, mais recentemente, Lulu - A Caixa de Pandora, de Franz Wedekind.

No caso dos Fofos, o tempo de estrada não chegou ainda a uma década. E quem passa em revista o seu repertório encontra uma história outra: que esbarra no circo-teatro e faz uma ponte com questões bem "brasileiras". Basta olhar para a herança patriarcal descrita nas obras de Gilberto Freyre e que encontrou forma em montagens como Memória da Cana.

Se tudo aparentemente os afastava, o que motivou a recente união? Newton Moreno, diretor e dramaturgo dos Fofos, ensaia uma explicação falando em curiosidade. "Sempre nos interessou entender de que maneira eles explodem e expandem esses textos clássicos. E acho que eles também têm uma curiosidade sobre os nossos processos. O que nos uniu foi a dramaturgia."

Verdade é que dos dois lados havia a vontade de trabalhar com uma dramaturgia nova, com autores vivos. Daí, parece que ambos descobriram que a melhor maneira de fazer isso não era apostar no método de criar peças coletivamente, nem escarafunchar volumes em busca de textos recentes. Um dos jeitos de trazer frescor às criações de cada uma das partes seria justamente se misturar.

É o projeto Rumos, do Itaú Cultural, quem deve financiar a aproximação. E a intenção é que a contaminação já apareça nos trabalhos futuros dos coletivos - tanto em Auto-Peças 2, nova criação da Cia. dos Atores, quanto em Pentateuco, projeto que a trupe de São Paulo planeja conceber em 2011. "Construir um espetáculo comum não chega a ser um objetivo", ressalva Moreno. Mas também não é uma ideia que esteja completamente descartada.

Na África. Serão três as etapas de aproximação. Cada uma das companhias deve passar alguns meses do outro lado da ponte aérea. Conhecendo e participando dos processos de criação. Por fim, está prevista também uma viagem a Angola, onde os atores devem recolher impressões e material sobre o cotidiano de uma ex-colônia portuguesa.

A prospecção, explica Marcelo Olinto, da Cia. dos Atores., irá alimentar o tema ao redor do qual ambos os coletivos escolheram gravitar: a memória. "Será em volta dessa temática que os dois grupos vão conduzir suas pesquisas", diz ele.

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