Junto e misturado

Em Prazer, cia. Luna Lunera divide criação com artistas convidados

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 23h59

É preciso coragem para se buscar alegria. Coragem para não se cansar dos dias. Para seguir. Sem ceder à tentação de se enclausurar por temor da dor e das perdas. Em Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, Clarice Lispector investigava o percurso da professora primária Lóri e seu encontro determinante com Ulisses. O homem que iria ensiná-la a aceitar o amor, a descobrir que é preciso viver apesar de. "Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer", lhe diz Ulisses. "Inclusive, muitas vezes, é o próprio 'apesar de' que nos empurra para frente."

O romance de Clarice e especificamente esse trecho serviram como impulso para a criação de Prazer, espetáculo que a cia. Luna Lunera apresenta a partir de amanhã no CCBB. Na peça, eles substituem o enlace amoroso pelo reencontro de quatro amigos, reunidos depois de um longo tempo separados. "Surgiu o desejo de aprofundar na obra da Clarice. Não para adaptá-la, mas para usá-la como uma fonte de alimento. Para que cada um de nós encontrasse ali qual é o fragmento que mais o mobiliza", comenta Isabela Paes, atriz e uma das diretoras da montagem.

Assim como fizeram em sua mais conhecida criação, a premiada peça Aqueles Dois, os integrantes do grupo voltam a assumir coletivamente a responsabilidade pela direção. Os intérpretes revezaram-se na função em diferentes momentos. Também conjunto foi o esforço para alinhavar a dramaturgia.

O que difere Prazer é a maneira como esse sistema de criação colaborativa foi aprofundado. A Luna Lunera não apenas reforçou sua convicção de que o ator é autor e dono da cena. Mas também resolveu se aproximar de profissionais de fora da companhia.

Trabalharam com artistas como o dramaturgo Jô Bilac. Estiveram ainda na Dinamarca, fazendo uma residência com o Odin Teatret, a renomada companhia do diretor italiano Eugenio Barba. "Queríamos gente que tirasse o nosso tapete, no melhor dos sentidos, e ressignificasse a nossa forma de criar", aponta o ator Odilon Esteves.

Determinante também parece ter sido o encontro com o coreógrafo Mário Nascimento. Possibilidade de descobrir um novo tratamento para o corpo. "Ele alterou o jogo que se estabelecia entre nós desde o início da cia.", aponta Marcelo Souza e Silva. A questão física, afinal, ocupou lugar proeminente nos cinco títulos anteriores do grupo e transparecia em seus pendores pelo teatro-dança e pela técnica do contato improvisação.

Em meio a tantas interferências, o grupo poderia temer diluir-se, apagar sua identidade. É preciso coragem também para lançar-se ao novo. "Encontrar o outro nunca é algo que nos anula", diz Odilon Esteves. "É leve. A gente quer é se deixar afetar."

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