Juliana Paes é a nova Gabriela

Atriz diz ignorar polêmicas: "Mexer com Gabriela é quase como mexer com Nossa Senhora"

Alline Dauroiz, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h09

Pele escura, cabelos armados, sobrancelhas por fazer, dentes amarelos e unhas dos pés e mãos encardidas fizeram de Juliana Paes - suja de terra e pó de maquiagem - uma mulher irreconhecível até para Pedro, filho da atriz, de 1 ano e 4 meses. Ele visitou, no feriado de Páscoa, o set de gravações da nova versão de Gabriela para às 23h da Globo (prevista para junho), em Canavieiras (a 110 quilômetros de Ilhéus) - e se assustou com a nova aparência da mãe.

Atriz que reposicionou a própria marca e, de "A Boa da Antarctica", passou a ícone fashion em campanhas para grifes classudas, Juliana virou alvo de acaloradas discussões desde novembro, quando foi oficializada como a protagonista da obra baseada em Jorge Amado: afinal, ela tem o necessário para substituir Sônia Braga no imaginário das novas gerações como a Gabriela, Cravo e Canela? Aos 33 anos, não estaria velha demais para o papel?

Nem na pequena Canavieiras, com cerca de 40 mil habitantes, a polêmica passou despercebida. "Ela é muito simpática, humilde, sentou no chão da loja, brincou com minha cadelinha. Acho que tem aquela coisa moleca da Gabriela", diz a vendedora de uma galeria de souvenirs. "Pois eu acho que deveria ser a Camila Pitanga. A Juliana é meio acabadinha sem maquiagem", acredita o garçom do restaurante point da cidade. "Rapaz, ela até tá parecida com Gabriela, mas tem aqueles olhões, né?", disse a atendente do bar, que logo emendou: "Mas com aquele sorrisão... ela vai ganhar todo mundo".

Transformação. Diretor da minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos, da novela Renascer (que se passava em Ilhéus) e da última versão de O Astro, Mauro Mendonça Filho se assume como autor da ideia de transformar Juliana na nova Gabriela. "Foi nossa primeira escolha: Gabriela é um ícone de beleza feminina selvagem, brejeira, brasileira. Sônia Braga era um símbolo sexual. A gente só podia pensar em ter outro símbolo sexual, que fosse tão boa atriz quanto a Sônia. Pensa aí em 300 nomes e você vai chegar à mesma conclusão", explica o diretor. "Juliana está fazendo uma Gabriela deliciosa, supersexy, mas com a dureza de uma retirante. Cara de brasileira total."

Para Juliana, a discussão está superada. Caracterizada como Gabriela, a atriz falou ao Estado sobre as críticas (em "baianês", sotaque que aprendeu em aulas de prosódia e que evoca durante a entrevista apenas quando fala de Gabriela). "Um amigo meu disse bem: mexer com Gabriela é igual mexer com Nossa Senhora. É sagrado. Qualquer pessoa que escolhessem ia passar pelos mesmos questionamentos", disse a atriz.

Quando você sentiu que tinha virado a Gabriela?

Acho que só vi minha Gabriela quando gravei no sertão. Não fico me olhando no espelho nem quis ver nenhuma cena no vídeo, porque, antes de estrear, se a gente se vê, começa a querer remendar. E, no momento de composição, prefiro confiar no meu subconsciente, desenhando a personagem de uma maneira mais primitiva e sensorial.

Você é ícone fashion, só se associa a boas marcas. Foi tranquilo se desglamourizar?

Quando a sobrancelha começou a ficar esquisita, as pessoas desconfiaram (risos). Sou muito vaidosa, mas só quando estou de Juliana. Não faço a linha cool, de ator que diz que não tá nem aí. Gosto de tendência de moda, sim. Isso não me torna fútil. Também sei curtir um bom livro. Mas para a personagem, não tenho vaidade.

Sair na rua sem maquiagem, de sandália rasteira e vestido praiano faz com que o público te associe à Gabriela?

Não sei. As fotos que saíram de mim sem maquiagem em São Raimundo Nonato (Piauí) não foram propositais. Foram fotos de fã, que pararam na internet. Nem tudo o que a gente faz é estratégia. Nenhuma mulher gosta de ser pega do jeito que sai da cama. Mas, se foi bom, que bom (risos). Quando vou para um ambiente no qual haverá imprensa, me arrumo, porque acho que o público quer me ver arrumada. Acho falta de respeito ir a um lugar, tendo sido contratada, e aparecer de qualquer jeito. Não quero parecer desleixada, mas me permito ir ao mercado de cara lavada.

Quando começou a emagrecer para encarnar Gabriela?

Não emagreci na balança, mas enxuguei medidas. Troquei gordura por músculo. Desde dezembro, sabia que começaríamos a gravar no fim de março. Então, deixei crescer a sobrancelha e passei a treinar TRX, princípio parecido com pilates, em que se usa a força do corpo para se pendurar. Tudo para ficar com a silhueta enxuta e forte, que acho que tem a ver com essa sertaneja, essa mulher que não tem uma magreza esquálida, mas uma magreza de quem pega peso, anda pra caramba. Também tomei muito sol. Meu cabelo já estava comprido e passo longe de manicure há meses.

Você já disse que evitou ver a novela e o filme com a Sônia Braga e que o livro é "sua bíblia" para esse trabalho. Como então tem estudado para ser Gabriela?

Tive aulas de culinária, aprendi a fazer acarajé, moqueca, frigideira de bacalhau, bolinho de estudante, pamonha de milho, tapioca, abará... Também aprendi prosódia, fiz preparação com o coach Sérgio Pena (preparador do Rodrigo Santoro), tive aulas de corpo. Mas é quando você deita em sua cama na hora de dormir, que pensa: "Acho que ela gosta de água gelada." São pequenos detalhes. A professora de corpo dá dicas, do tipo: "Procure sentir o vento". E tudo isso vai te inspirando...

Você fez o tal laboratório no sertão, não?

Fiquei dois dias vivenciando a caatinga, antes de gravar. Passei o dia na casa de uma senhora, sem luz, vendo ela fazer o café, como é o dia de uma pessoa que tem poucos utensílios na cozinha. Vi como a neta dela lida com a terra, pega fruto do pé, anda naquele terreno espinhoso. A paisagem externa acaba ficando interna e aparece no seu olho. E aí entra o figurino, a caracterização, o sotaque...

Você está falando "baianês"...

Mas a gente já não vem para a Bahia, passar uma semana, e não volta falando com sotaque? Imagina você querendo aprender? Soma-se a isso tudo o sobrenatural, a gente pede a bênção aos espíritos dessa terra. Eu acredito muito num plano espiritual, que ajuda na inspiração e, na hora do "gravando", vem.

O público de televisão é mais conservador do que o de cinema e teatro. Até que ponto você po-de se desapegar das referências da novela de 1975, para não desagradar à audiência?

O grande público de agora não acompanhou a novela e tem muito mais uma referência da figura dessa mulher. A gente está sendo muito fiel à mulher de tez bronzeada, cabelo grande, cheio, selvagem. Uma mulher que tem a fala rude, que não é letrada, que é alegre, moleca, que está feliz com a vida que leva e quer se divertir. Tudo isso é fiel ao que já foi feito anteriormente. Agora, o texto, as cenas, eu sou outra pessoa...

Seu nome como Gabriela gerou polêmica.

Um amigo meu falou bem: mexer com a Gabriela é igual mexer com Nossa Senhora. É mexer com o xodozinho das pessoas. Eu não fico remoendo muito isso. Na época, fiquei um pouco. Até perguntei para a direção: "O que tá acontecendo? Isso aí está vindo da onde?" E eles disseram que sempre me quiseram para o papel.

Falaram da sua idade. Acha que foi preconceito?

Não sei. O preconceito vive em muitas esferas. É uma questão da condição da mulher hoje. Quando a gente discute idade, a gente vai para um patamar muito sério, que tem a ver com toda essa indústria de padrão de beleza que se põe, das meninas que estão ficando anoréxicas, colocando botox antes da hora, tomando remédio para emagrecer com 16 anos. Porque fica todo mundo querendo entrar numa fôrma da Barbie, de 18 anos, com aquele corpinho. Saiu daquele padrão, dessa faixa etária, acabaram-se as possibilidades? Criou-se uma discussão tão maluca em torno disso, mas não existe nenhuma alusão à idade de Gabriela no livro. Foi mais uma comparação com a Sônia Braga. Existe uma histeria sobre isso, que não procede. Nem Sônia era uma adolescente.

O livro é a sua bíblia. Você não quis ver nenhuma cena. Você leu outros livros para criar Gabriela?

Coincidentemente, havia um projeto de fazer um filme de Jorge Amado, então, no meio do ano passado, li dois livros dele: Tieta e Tereza Batista. Quando veio a coisa de Gabriela, pensei, "bom, eu já estou no universo, né?" Foi uma leitura até rápida. Assisti a Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, São Bernardo, Deus e o Diabo na Terra do Sol, filmes que mostram o sertão, falam de retirantes. E tem mais um filme que não estou lembrando... oxente. Fiquei mesmo no universo sertanejo, porque no fim das contas, gente, ela é uma sertaneja. Gabriela é uma mulher do sertão, sem cultura. De repente, ela chega na casa do seu Nacib e tem comida pra fazer, cebola pra picar, tem comida farta. É isso que deixa Gabriela tão feliz. É como uma mulher seca que se estia em bom prato. Ela se sente vencedora, atravessou aquilo tudo e chegou aqui e conseguiu.

Gabriela é uma mulher muito livre e sensual e, claro, você vai fazer muitas cenas de sexo, de nudez. Como é isso pra você?

O (autor) Walcyr (Carrasco) está com tanta vontade de contar essa história, ele está escrevendo com um gosto, uma poesia, não tem nada fora do lugar. E as cenas de sexo entram aí, contando uma história. E quando é assim, dentro de um contexto, eu não tenho o menor problema. A nudez é bonita. E vou contar com o bom gosto do Maurinho, que a gente já pôde ver no Astro. As cenas da Carolina (Ferraz) com Rodrigo (Lombardi) eram inspiradoras. De pensar: "Poxa! Hoje quero chamegar também." Isso é bacana. Mas se eu vir que: "Pô, isso aqui não tá precisando não", vou falar. "Essa cena aqui não tá carecendo não".

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