Julia Kristeva pensa o momento

Romancista e pensadora búlgara de expressão francesa, Julia Kristeva tornou-se um ícone intelectual identificado pelo rótulo de feminista, principalmente nos EUA. Pouco à vontade com a definição, ela no entanto iniciou uma série de estudos sobre grandes mulheres, como forma, sobretudo, de encontrar caminhos de esperança para a humanidade Nos momentos de maior crise na história que começa a ser escrita agora, a humanidade será dividida em pequenas comunidades de errantes e infelizes, e isso será, no entanto, motivo de esperança, porque toda crença apocalíptica é uma forma de histeria. Essa idéia sobre o futuro pode ser surpreendente, provocadora e audaciosa e assim é também sua autora: Julia Kristeva. Ensaísta, psicanalista e romancista búlgara de expressão francesa, Kristeva ocupa tanto na cultura da França quanto no comunidade acadêmica norte-americana o lugar de um mito intelectual da segunda metade do século 20. Ao seu nome - ainda que muitas vezes contra sua vontade - estão ligados movimentos como "o novo feminismo" ou o "politicamente correto", fazendo de Kristeva uma espécie de orientadora de um pensamento que terminou gerando, em meio à polêmicas, tanto o "inferno relativista" quanto "a nova esperança social", com livros como Estrangeiros para Nós Mesmos (1988), Les Nouvelles Maladies de l´Âme (1993) ou La Révolte Intime (1997). Kristeva, companheira do escritor Philippe Sollers, participou da grande geração revolucionária que se articulou no comitê de edição da revista parisiense Tel Quel, no final dos anos 60. À época, ela estava atraída pela revolução chinesa, pela linguagem e o papel decisivo da vanguarda, em todas suas formas. Hoje, sua atenção está voltada para o que define como o "gênio feminino", as obras da filósofa Hannah Arendt (1906-1975), da psicanalista Melanie Klein (1882-1960) e da escritora Colette (1873-1954). Dessa sua coleção de ensaios, a editora francesa Fayard já publicou os dois primeiros volumes, sobre Arendt e Klein (respectivamente em 1999 e 2000), e ela prepara o tomo final, sobre Colette. Em entrevista ao Estado, Julia Kristeva fala sobre seu novo trabalho, o anti-intelectualismo e as previsões para o novo século. Estado - Podemos utilizar o pensamento de Hannah Arendt, Melanie Klein ou Colette para pensar esse futuro que se desenha agora? Julia Kristeva - Acho que só podemos compreender o futuro a partir de uma arqueologia do passado. Não somos videntes, e se possuímos raízes na racionalidade, a única maneira de pensar o futuro é se servindo de lições do passado. E o trabalho de Hannah Arendt é desse tipo. Por exemplo, para imaginar uma nova forma de relação política entre indivíduos livres, ela se apóia em Santo Agostinho ou Duns Scot. É uma releitura do passado que a permite imaginar uma nova forma de relações livres entre os homens. Ela repensa a noção de amor, ela critica tal forma de sionismo que lhe parece muito nacionalista ou tal forma de stalinismo que lhe parece totalitária, que ela rejeita, etc. A mesma coisa com Melanie Klein; o que a interessa é salvar a capacidade de pensar. Não podemos imaginar um ato futurista mais forte, pois se somos capazes de pensar é que nós temos um futuro a nossa frente. Como ela vai salvar a capacidade de pensar da criança? O que digo é muito importante, pois ela mudou a psicanálise, que acreditávamos uma terapia do sexual e ela fez dela uma terapia do pensamento. Como ela vai salvar a capacidade de pensamento da criança? Fazendo com que ela conte seus traumatismos antigos, seu passado. Portanto, o futuro se faz relendo nossos ancestrais, nossos pais, e assim podemos tentar decifrá-lo. A sra. está então otimista? Sou otimista porque estou além do otimismo. Gosto de dizer que a felicidade é um luto da infelicidade e o otimismo é um luto do pessimismo. É preciso perceber a justa medida do que não vai bem e da dificuldade na qual se encontra o mundo moderno, mas, a partir dessa medida, podemos tentar propor soluções que não são mirabolantes, e sim de um otimismo moderado. Essas idéias apocalípticas são formas de histeria que se deixam invadir pela impossibilidade de propor uma situação criativa para os conflitos atuais. Sempre houve conflitos - acho que chegamos a alguns limites do humano e dos laços sociais. Vemos a expansão dos fenômenos de psicose, de melancolia, de perversão que não são patologias, mas que invadem o comportamento cultural. Tudo isso mostra que a humanidade está vivendo uma etapa da sua evolução, mas não acho que seja catastrófica, pois há linguagem, expressão, pensamento que acompanham essas mudanças. Por exemplo, participei de um colóquio sobre Paul Celan, o escritor, poeta judeu de origem romena. Ele foi muito longe na desconstrução da língua alemã e da sua própria identidade, até chegar próximo do homicídio - de sua mulher e de seu filho - e do suicídio. Isso quer dizer que ele é um caso incurável? Eu não acredito; não apenas desse caso incurável ele conseguiu fazer um ato cultural, porque ele encontrou uma linguagem para colocar em forma seus estados limites, e quando nós o lemos, mesmo se não chegamos aos estados extremos a que ele vai, essa linguagem fala aos nossos estados de crise. E o fato de mantermos essa conversação nos faz criar uma espécie de comunidade dos errantes, dos nômades. E uma comunidade (comunhão) da infelicidade já é uma forma de otimismo. E como isso se passará nesta nova fase do capitalismo? Eu não falaria de capitalismo, pois isso remete à categorias do século 19; eu diria, depois da Idade Moderna, que vai do fim do século 19 ao 20. Nós chegamos a uma outra era, que eu chamaria de planetária e que se caracteriza por uma explosão técnica sem precedentes, dos meios técnicos tradicionais, novas tecnologias, aceleração da imagem... Essa tendência implica risco de uma banalização do humano, e eu iria mais longe, de uma destruição do espaço psíquico. Quando você está diante de um bombardeamento de imagens, seu interior se apaga e é substituído por Loft Story, Big Brother, No Limite; mesmo se é débil, você está contente porque isso lhe diz alguma coisa, fala à sua infelicidade, com a qual você não tem nenhum espaço de comunicação, porque a família está em crise e porque a comunidade social é uma comunidade de trabalhadores e não de parceiros. Dito isso, acontecem novos fenômenos; procuramos, por exemplo, politicamente na Europa, introduzir na globalização o direito do consumidor, o princípio de precaução, a necessidade de se levar em conta a ecologia, os direitos do trabalhador para manter o direito à livre empresa, mas também os interesses do assalariado. Procuramos compromissos que não são uma rejeição à mundialização, mas, como já disse, uma regulação. Ao lado disso, procuramos tentar novas formas de democracia, para nos tornarmos mais próximos das pessoas, para que o poder nãos seja apenas a delegação a uma classe dirigente. Os escândalos que aconteceram em vários países provocaram um desgosto pela política, mas também o desejo em várias pessoas de se ocupar dessa política. Não acho, portanto, que haja uma demissão da humanidade; ela está exposta, mas também é lúcida, os dois movimentos estão lançados, e é melhor mirar na lucidez, não na derrota. A idéia de gênio feminino começou com seus seminários na universidade. Mas qual o objetivo da coleção de ensaios? Você deve saber que passo por uma autora feminista e geralmente sou citada como tal por universitários norte-americanos ou mulheres universitárias dos EUA, mas percebi que não fiz uma obra sistemática sobre as mulheres e quis preencher a lacuna fazendo um trabalho mais contínuo. Ao mesmo tempo, queria me demarcar em relação ao que chamo feminismo massificador. Eu distingo três etapas na evolução da emancipação da mulher: o movimento de sufrágio universal, no final do século 19, que pedia um reconhecimento político - direito ao trabalho, ao voto, etc. Um segundo momento, com Simone de Beauvoir, que insistia sobre a igualdade entre homens e mulheres. E uma terceira etapa, que ocorreu a partir de maio de 68, que reivindicou muito a idéia da diferença das mulheres - em termos de sexualidade, da criatividade, da linguagem, da mentalidade.

Agencia Estado,

21 de outubro de 2001 | 13h05

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