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Julgamentos

Não são poucos os exemplos de boa arte feita por más pessoas. Ou pessoas de quem a gente discorda (grandes reacionários podem ser grandes escritores)

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2018 | 02h00

Há duas exposições simultâneas do Picasso em Paris. Uma no museu de Orsay, com obras das suas fases azul e rosa, outra no magnífico museu que tem seu nome e inclui todas as suas fases a partir da acadêmica. O mais extraordinário é o tamanho das exposições combinadas. Com todos os seus quadros de todas as fases, além das gravuras, das esculturas e da atenção que precisava dar às suas sucessivas mulheres, quando Picasso tinha tempo para produzir o que produziu? E fez a grande arte do seu tempo. Foi o artista definitivo do século.

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Fora da arte, Picasso não foi, digamos, um caráter exemplar. Tratou mal as mulheres, que o endeusavam. Tinha razão para ser vaidoso, mas exagerou. Mas sua fama permanece apesar de tudo que foi revelado sobre seu comportamento extra-arte. A mágica da arte derrotou o julgamento moral. Ninguém do grande público que lota as duas exposições julga o artista e não a arte. Se julgasse, a arte o absolveria.

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Não são poucos os exemplos de boa arte feita por más pessoas. Ou pessoas de quem a gente discorda (grandes reacionários podem ser grandes escritores). Jean Genet e Céline são nomes que sempre aparecem em relações de artistas importantes apesar de loucos ou reprováveis. Agora temos o caso do Woody Allen, acusado pela sua enteada de tê-la molestado quando criança e que está sofrendo um boicote que culminou com a decisão dos produtores do seu último filme de suspender seu lançamento. 

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A acusação a Allen já foi julgada e o caso encerrado por falta de provas. Mas como envolve pedofilia, tocou em nervos expostos pelo atual clima de contestação feminina à agressividade sexual masculina nos Estados Unidos, o que dificulta uma opinião racional. Os fãs de Woody só lamentam estarem sendo privados de ver seu último filme. O público acabou sendo punido pelo comportamento do artista. E pela primeira vez em mais de 40 anos não sai o filme anual de Woody Allen. Se ele merece o castigo ou não, não sei. Mas alguém nos deve desculpas. 

Bye bye. Estou saindo de férias. Volto no dia 1.º de novembro, não sei bem para que Brasil. Não façam bobagem, gente.

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