Julgamento de Nuremberg parece remake

- Hollywood adora remakes e continuações. Não há filme de sucesso que não tenha uma seqüência. E quanto às refilmagens - talvez seja, ou é, sintoma de falta de imaginação, mas os roteiristas de Hollywood estão sempre retrabalhando êxitos antigos e recentes, do próprio cinema americano ou mundial, tanto faz. Agora mesmo, o astro Tom Cruise e o diretor Cameron Crowe estão refilmando Sin Piel, filme espanhol que participou do Festival de Berlim do ano passado (e a HBO exibiu no fim de semana). Assim, não causa espanto que o velho Julgamento em Nuremberg, de Stanley Kramer, tenha ganhado nova versão. Chama-se O Julgamento de Nuremberg. Ela foi feita pela TNT, no formato minissérie. No Brasil está sendo lançada diretamente em vídeo pela Warner. A curiosidade é que a versão de Yves Simoneau não é bem um remake da de Kramer. Ambas baseiam-se no mesmo fato histórico, desenvolvem um certo número de idéias e até personagens comuns, mas as fontes de informação e pesquisa são diferentes. Kramer baseou-se na telepeça de Abby Mann exibida com sucesso pela TV americana no fim dos anos 50. O astuto produtor e diretor convenceu o próprio Mann a adaptar sua teleplay para o cinema. E fez o filme que ganhou diversos Oscars em 1962, entre eles o de melhor roteiro (Mann) e melhor ator (Maximilian Schell).Outra foi a fonte de Simoneau. Ele se baseou no livro Nuremberg: Infamy or Trial?, de Joseph Persico. Mas a idéia é a mesma - discutir o nazismo, evocar o célebre julgamento na cidade alemã que foi cenário das maiores passeatas do nacional-socialismo, dos grandes comícios de Adolf Hitler. Ali, dirigentes nazistas foram levados a julgamento, acusados de crime contra a humanidade. As cenas iniciais prometem - Hitler pode não ter inventado o conceito do Estado-espetáculo, mas com certeza o aprimorou. O nazismo incendiava o imaginário do povo alemão com suas grandiosas encenações.O filme de Simoneau abre-se com uma delas. Termina com os estandartes de guerra do nazismo, a infame suástica. A essas imagens em preto-e-branco, superpõe-se a da bandeira americana, em cores. O tempo é outro. Os nazistas foram derrotados e o cenário agora é uma base americana. Chega um carro. É Goering, que veio se render. É recebido com honras pelo oficial americano que alega solidariedade de aviadores, honra de cavalheiros, para dar-lhe tratamento fidalgo. Espoucam os flashes dos fotógrafos. As fotos da confraternização correm mundo. Causam embaraço em Washington. O presidente convoca o melhor promotor do país para levar adiante o projeto de julgamento dos criminosos da humanidade.Alec Baldwin, o ex-senhor Kim Basinger, o Jack Ryan de Caçada ao Outubro Vermelho, é Jackson, o promotor americano. E Brian Cox, de Coração Valente e Despertar de um Pesadelo, é o marechal Hermann Goering. O julgamento termina sendo o cenário para um confronto das idéias dos dois - e tudo o que representam. O roteiro incorre em todas as simplificações. O romance de Jackson com a secretária, o fascínio que Goering desperta sobre o tenente encarregado de vigiá-lo. O próprio choque de idéias da dupla de protagonistas. Jackson, encarnação do homem moral, Goering, a corrupção do poder.Não faltam observações divertidas. Goering diz que Hitler era vegetariano e não suportava maus-tratos a animais. Logo ele, o monstro responsável pela morte de 6 milhões de judeus durante a 2.ª Guerra. Cínico, Goering também diz que tudo bem em ser julgado e até condenado à morte. Só não quer morrer de tédio - ouvindo o discurso inicial de Jackson, na abertura do julgamento. Baldwin é um ator esforçado, que ousa. Fez Kowalski, na versão para TV da peça clássica de Tennessee Williams, Um Bonde Chamado Desejo, com Jessica Lange no papel de Blanche Dubois. Cria agora outro personagem forte - ou o desperdiça, porque é obviamente um intérprete limitado. Mas o filme não é ruim, ou completamente ruim. Tem momentos fortes. O mais impressionante é o dos filmes exibidos durante o julgamento, mostrando a barbaridade dos campos de extermínio. São imagens, a rigor, já conhecidas, mas o impacto persiste.O mais curioso é que o espectador pode ver O Julgamento de Nuremberg e comparar com o velho Julgamento em Nuremberg, que está sendo sempre reprisado na TV paga. Stanley Kramer sempre foi detestado pelos críticos, que o chamavam de demagogo e sensacionalista por seus filmes sobre grandes temas (racismo em Acorrentados e Adivinhe Quem Vem para Jantar?, a bomba atômica em A Hora Final). Ele próprio reconheceu, em sua autobiografia, que tinha a ambição e os meios materiais, mas não os intelectuais. Não era um bom cineasta. Mas há dois de seus filmes que não podem ser negados com a mesma veemência dos outros. Ambos, dramas de tribunais.O Vento Será Sua Herança, que também teve uma versão recente para TV, sobre o célebre embate dos advogados Clarence Darrow e William Jennings Bryan num tribunal, em 1925, um defendendo e o outro acusando um professor preso por ensinar a teoria evolucionista de Darwin a seus alunos. E Julgamento em Nuremberg, com os personagens míticos de Spencer Tracy como o juiz americano, Marlene Dietrich como a aristocrata falida que quer convencê-lo da inocência do povo alemão, e Montgomery Clift e Judy Garland como as vítimas da brutalidade nazista. Trate de ver os dois julgamentos, o de Nuremberg e o em Nuremberg. Pode ser até espantoso, mas há que fazer justiça a Kramer. Sua versão é melhor. O que é outra prova da mediocrização crescente que domina a produção de massa de Hollywood.Julgamento de Nuremberg (Nuremberg: Infamy or Trial?). Warner Home Video. Cor, 196 min. Nas locadoras

Agencia Estado,

18 de janeiro de 2001 | 17h16

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