Juízo final

Há duas semanas:

Marcelo Rubens Paiva , O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2014 | 02h05

Noite de sábado quente no Rio de Janeiro. Desembarcamos no Santos Dumont antes do previsto. Num táxi, comentei com minha mulher que daria para deixarmos as malas no apê da família, encarar um Big Polis e depois um cineminha.

São três redes de cinema a 5 minutos a pé, Cine Leblon, Kinoplex Shopping Leblon e Cinépolis Lagoon, e uma a 15 minutos, Estação Shopping da Gávea. Ao todo, 20 salas.

Pensei rápido. Não assinamos O Globo. Tem alguma banca aberta? Desviaremos do caminho, para passar pelas da Ataulfo de Paiva, desvio chato, congestionado. A vizinha deve ter O Globo, tem cara de quem assina O Globo, gente boa, animada, assina jornais e deve estar lá se preparando para ir ao cineminha. Ou peço ao porteiro? Devem ter jornais recolhidos, hoje é sábado, o Rio Show, guia cultural do jornal, saiu ontem, sexta, deve ter no prédio, os porteiros são gente boa, me deixarão vasculhar no lixo recolhido em busca de um exemplar lido, se bem que o Rio Show é o tipo de caderno que o leitor guarda na mesa de centro, sob a televisão, na bolsa, para ser consultado na semana, filmes, teatros, shows, restaurantes. Se o porteiro não puder deixar a guarita, posso eu mesmo vasculhar as lixeiras.

Melhor, podemos ir a pé pelas ruas do Leblon, arriscar, passamos no Big Polis, damos um rolê na noite quente de sábado, em que chegamos antes do previsto, checamos na fachada art déco do Cine Leblon, que quase fechou, virou comoção, mobilizaram-se, e acabou de ser tombado, os filmes em cartaz, ou podemos comer no Lagoon e tentar um filme numas das seis salas, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, cenário sem igual. É Rio de Janeiro!

Vejo a luz no rosto da minha mulher refletida de uma tela led. "Já vimos os filmes do Leblon. Como chama o cinema da Lagoa?", perguntou. Tinha um celular na mão. Já checara os filmes e horários. Digitava o nome do cinema e checava a programação, enquanto eu passeava na imaginação pelo lixo do prédio, pelas ruas do bairro. Claro. Celular. Como não? O mais bizarro: o meu estava no colo, ainda em "modo avião".

Senti nostalgia de ir ao cinema e escolher na hora, guardar cadernos culturais, vasculhar o lixo em busca de jornal velho, pedir ao vizinho, sair sem rumo certo, eleger o que fazer com os dados do acaso. Senti falta da imprevisibilidade. O celular, hoje, nos deixa conectados demais, informados demais, seguros demais. Nele, há previsão do tempo e da vida.

Quando a psicóloga e educadora Marluce Dias assumiu em 1998 a diretoria-geral da Globo, no tradicional seminário com produtores, diretores e roteiristas de Angra (RJ), alertou para uma plateia desconfiada que a maior concorrência da empresa era nova e desconhecida. Fez suspense e apontou: o celular. Muitos se olharam céticos. Somos chefiadas por uma doidona? Na época, celular era um telefone apenas. Havia Palm e BlackBerry. O iPhone surgiu só em 2007. O Android em 2008. Viu no que deu. "Marluca" ou visionária?

O censo mais recente revelou que existem 202 milhões de brasileiros. Há 250 milhões de celulares no Brasil. Incluindo bebês, presidiários, padres, pacientes na UTI em coma, índios não contatados, hippies, hare krishnas, faroleiros, caçadores de palmito, todo brasileiro tem um celular, e 48 milhões têm dois.

Nos escravizam. Estão no topo da cadeia alimentar. Se o sentido de vida é a sobrevivência e a reprodução, eles nos dominarão quando começarem a não nos obedecer. Já se comunicam entre si, manipulam dados, entram em sistemas bancários, exibem em suas telas mensagens e imagens hipnóticas, mudam rotas de satélites, controlam nosso tráfego e se reproduzem mais do que nós. Estarão enfim no comando. Ou já estão?

Há uma semana:

Tarde de sábado ensolarada em São Paulo. Decidi dar um rolê pela Paulista. No metrô, combinei um almoço pelo celular com amigos. Ele estava há meses com a tela rachada. Funcionava, mas eu temia uma pane inesperada.

Deixei-o consertando no Conjunto Nacional. Ficaria pronto às 16h. Almoçamos. Cruzei as ruas do Jardim com calma e curtindo raios de sol que teimosamente atravessavam os prédios no inverno. Chequei vitrines, entrei em livrarias. Fui pegar o celular às 16h20, mas a loja estava fechada. Não explicaram que, além do meu celular ficar pronto às 16h, eles fechavam às 16h.

Um processo de pânico se desenvolveu. Afetou meu batimento cardíaco, a respiração. Desci, reclamei com o único porteiro, voltei, bati na porta, desci novamente, perguntei se o porteiro era capaz de identificar algum técnico da loja. O desenho se completava: eu ficaria o fim de semana SEM o CE-LU-LAR!

Voltei para casa como se tivessem me separado do irmão siamês. A primeira constatação: eu não sabia de cor o número do celular da minha mulher, ela estava no interior com meu filho, ou já estavam na estrada? Eu não sabia seu celular, nem o da sogra, nem o fixo deles, nem tinha anotado em nenhum lugar. Eu não sei mais números de celulares! Nem de fixos! Apenas daqueles que decorei antes da lavagem cerebral das agendas eletrônicas dominantes de celulares. De cor vem de "de coração". Saber de cor é um saber físico, não idealizado.

Não sei mais decorar. Sei de cor o da minha mãe, minha irmã mais velha e de amigos que não vejo há anos. Garanto que minha mulher não sabe o meu de cor. Nem o do fixo de casa. Já a vi trocando o prefixo. Ela também foi dominada. Seria ridículo pedir pela rede social o telefone da minha mulher.

A família se reencontrou à noite. Selfies foram feitos no domingo, em almoço e jantar com amigos, e publicados. Não do meu celular. Senti falta da previsão do tempo sempre à mão. Domingo, a temperatura despencou 13 graus em uma hora. Fomos almoçar sob sol e calor, voltamos tremendo de fio e molhados. Senti falta do despertador na segunda. Não sei mais programar aquele relógio ultrapassado que permanece como um fóssil no criado-mudo.

Consegui através de e-mails e redes sociais do meu desktop me comunicar normalmente com quem precisava. Reabri meu fichário antigo, que servia de agenda telefônica e calendário. Comprei canetas e tive uma decisão maluca: não vou pegar o meu celular. Só pra ver se é possível viver sem ele e fazer uma experiência antropológica contemporânea.

Vivi mais de 30 anos sem celular, e o sol brilhou todas as manhãs. Começarei a contraofensiva. A luz há chegar aos corações.

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