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Juízo Final

A menina decidiu não pensar no nada. Preferiu pensar no lado bom do Juízo Final, quando ele viesse

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2017 | 02h00

A menina ficou muito impressionada quando ouviu dizer que, no dia do Juízo Final, os mortos sairiam das suas covas para serem julgados. Estava na Bíblia.

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A menina não entendeu. Todos os mortos sairiam das suas covas para serem julgados? Todos, na história do mundo?! Ela nem tentou calcular quantos mortos seriam. O que vinha depois de trilhão?

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Outra coisa: os mortos voltariam para suas casas, para os seus parentes? A menina tentou imaginar sua casa cheia de antepassados mortos. Não haveria lugar para todos. Nem comida. E nem dava para pensar na fila do banheiro. 

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Mas havia o lado bom da história. A menina reencontraria seus avós. E a tia Isolda, sua madrinha querida. E o primo Zeca, que ela adorava! Havia um consenso na família que o primo Zeca iria diretamente para o inferno depois da sua morte num acidente de moto. Mas a menina o adorava. E decidiu que, quando viessem buscar o primo Zeca para seu julgamento final, ela o esconderia num armário, nem que tivesse de expulsar outros parentes mortos lá de dentro.

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Aquilo era outra coisa que intrigava a menina. Juízo Final. Como seria o julgamento? O juiz era Deus, claro. Não era Deus que decidia o destino das pessoas? Que tinha o poder de condená-las ou inocentá-las, como quisesse?

- É - disse o pai da menina, quando a menina perguntou. - Como o Moro. 

A menina também não entendeu aquilo.

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Se não era Deus que decidia, quem era? Nos julgamentos haveria advogados, testemunhas, essas coisas que a gente vê nos filmes? Quem fosse condenado voltaria para a cova, sem direito a sair de novo? E quem fosse inocentado, ganharia o quê? A Bíblia dizia que Juízo Final era final mesmo. Era o Apocalipse, o fim de tudo. O futuro do mundo, para vivos e mortos, era o vazio. Era nada. Então pra que julgamento?

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A menina decidiu não pensar no nada. Preferiu pensar no lado bom do Juízo Final, quando ele viesse. Nas oportunidades que ela teria para conversar com seus antepassados. Bastava escolher a época. Com antecedentes da idade da pedra, a conversa seria difícil, não falariam a mesma língua. Mas com um parente do século 18, por exemplo, seria divertido. A menina mal podia esperar seu reencontro com a tia Isolda. Como teriam assunto! 

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