Juizado mantém cerco a modelos menores de 18

Os 20 fiscais do Juizado de Menores que no domingo irromperam no camarim da grife Maria Bonita para checar os documentos das modelos que desfilariam para a marca na 8.ª Semana Barrashopping de Estilo - menores de idade só podem trabalhar se forem autorizadas pela Justiça e precisam comprovar que estão matriculadas na escola - conseguiram mudar o horário dos desfiles de todos os dias do evento. "A organização da Semana agiu de má fé", acusou Valéria Fernandes, comissária chefe da equipe de fiscalização. "Marcou o evento para as 17 h, mas começou o primeiro desfile por volta de 16 h. Chegamos no local quando a apresentação já estava acontecendo e por isso precisamos abordar as meninas quando já estavam trabalhando." O alvará exibido pela comissária realmente estipulava o início do evento para as 17 h - horário que, a partir de ontem, segundo a assessoria de imprensa da organização, começaria a ser cumprido pelas grifes. O embate entre modelos e fiscais no lançamento da Maria Bonita deixou rímel borrado em alguns olhos - principalmente nos da estilista Maria Cândida Sarmento, que chorou diante da possibilidade de ter que parar o desfile - e uma garota machucada. Segundo colegas, a modelo Fabiana Semprebom, 16 anos, precisou trocar de sapato para entrar na passarela porque seu pé, pisoteado na confusão por um dos fiscais, sangrava muito. RG nas mãos - "Eles entraram no camarim enquanto a gente trocava de roupa e começaram a implicar com quem estava de blusa transparente, dizendo que quem é menor não poderia desfilar assim", disse a modelo Mariana Marcki, 16. Para protestar contra a necessidade de apresentar documentos antes de cada desfile - os fiscais ficarão de plantão nos camarins durante os quatro dias da Semana -, as modelos entraram na passarela, nas duas apresentações seguintes (das grifes Coopa-Roca e Fertonani), com a carteira de identidade ou o passaporte nas mãos. Foram ovacionadas pela platéia e fizeram gracinhas para os fotógrafos. "Tirar autorização de trabalho para menores de idade é um procedimento normal, que acontece em todas as edições da Semana", explicou o advogado Pedro Camargo, representante dos organizadores. "Só posso entender que este ano o Siro Darlan resolveu ser mais rigoroso", completou, referindo-se ao juiz da 1.ª Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro - o mesmo que no ano passado proibiu os atores mirins de Laços de Família a participar da novela e no início deste quase interrompeu o show da banda Queens of the Stone Age, no Rock in Rio, para prender o vocalista que tocava nu no palco. Valéria Fernandes, comissária chefe da fiscalização, argumentou que nos anos anteriores a documentação entregue pelas meninas estava correta."Desta vez recebemos boletins antigos, que não nos servem de nada, e muitas cartas de pais explicando que as filhas deixaram de estudar porque ganham muito dinheiro como modelo." Das 26 autorizações concedidas pelo juiz, 8 foram posteriormente canceladas em função "de problemas com os documentos" - e as modelos e estilistas informados do cancelamento somente no domingo, pouco antes do início do evento. A grife de moda praia Salinas, que desfilou no primeiro dia, teve poucas horas para substituir duas das modelos que iriam participar de seu desfile e tiveram autorização negada: Jeíza Chiminazzo e Juliana Brescovici. A grife Sandpiper, que também se apresentou na estréia, teve de substituir quatro. Como as roupas são feitas sob medida, os estilistas das marcas tiveram que reformar as peças, pouco antes do desfile, para acertá-las no corpo das novas modelos. Até modelos maiores de idade, sem documento, precisaram se virar para buscá-lo em casa ou no hotel. Ana Beatriz Barros, 19 anos, dizia: "Preciso achar meu namorado, ele está com a chave do hotel, tenho que pegar meu passaporte", dizia a top. Raica Oliveira, 16, que abandonou a escola por não conseguir atender os compromissos escolares, em função da carreira, desistiu de participar da Semana, e foi à Itália posar para uma campanha publicitária. "É um absurdo implicar com as modelos que não vão à escola sabendo-se que a qualidade da educação pública no Brasil é péssima e que há tantas crianças vendendo balas nas ruas", dizia a estilista Jaqueline Biase, da Salinas.

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