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Judeus, chaminés e o Brasil

Há muito mais nas identidades sociais do que pensa a nossa vã ideologia

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2019 | 03h00

Os judeus são basicamente debatedores. Entre eles, cada evento, pessoa ou objeto jamais são vistos de um só ponto de vista. Daí, acentuam os estudiosos, as inúmeras disputas na vida e no pensamento judaico, incluindo seus livros sagrados como o Talmude e a Torá. Historiadores desse povo disperso, e com inserções diversas nos países para os quais foram forçados a ir ou expulsos, apontam essa extremada e dramática experiência de ser “o outro” como um elemento básico dessas discordâncias e dessa afinidade com a dúvida. Afinal, ser o “povo eleito” é ser uma coletividade marcada por uma extremada alteridade... 

O atual momento brasileiro está de tal ordem contaminado pela insensatez, ignorância, descrença e cinismo que vale a pena recordar uma velha anedota judaica que me foi contada em Nova York por um rabino e amigo querido. Estou, pois, consciente do meu plágio ou roubo, tão comum, aliás, no meio intelectual e jornalístico. Acentuo o ponto porque, quando escrevemos, não reconhecer a fonte denuncia o plagiário burro engolfado por sua vaidade. Essa turma que infesta com pompa e circunstância o curto cenário brasileiro.

*

Abe, um jovem judeu, foi ver o rabino. “Rabi – pediu – eu ficaria muito grato se o senhor me explicasse o Talmude.” “Claro”, disse o mestre, “mas, primeiro, eu preciso fazer uma simples pergunta. Se dois homens saem de dentro de uma chaminé e um sai sujo e o outro limpo, quem é que se lava?”.

“O sujo!”, respondeu Abe prontamente.

“Não, Abe!”, disse o rabino debaixo do olhar espantado do jovem. “Quem se lava não é o sujo porque ele se acha limpo – é justamente o limpo que pensa que está sujo. Agora, outra pergunta: se dois homens saem de uma chaminé e um sai sujo e o outro sai limpo, quem se lava?”

Abe deu um riso condescendente: “O senhor acabou de me responder: o homem limpo, porque ele acha que está sujo”. “Não, Abe”, replicou o rabino. “Cada um olha para si: o homem limpo sabe que não tem que se lavar, mas o sujo, lava-se...” 

“Agora uma pergunta final. Se dois homens saem de uma chaminé e um está sujo e o outro limpo, quem se lava?”

Desta vez Abe fez uma careta de protesto. “Eu não sei, rabino. Poderia ser qualquer um, dependendo do seu ponto de vista.”

“Não! Abe!”, disse o rabino com firmeza. “Se dois homens saem de dentro de uma chaminé, como é que um deles pode sair limpo

Ambos, obviamente, saem sujos e ambos se lavam.”

Abe estava, agora, completamente confuso. “Rabino, você fez exatamente a mesma pergunta três vezes, mas deu três respostas diferentes. Você está brincando comigo?”

“Não, Abe”, disse o rabino, “eu nunca brinco com você. Isso é o Talmude...”.

*

O aluno de doutorado, que jamais leu um livro, pergunta ao professor de sociologia política. 

– Bebeto, me ensina como o Brasil deu no que deu.

– Primeiro, eu tenho que lhe fazer uma ou duas perguntinhas, diz o mestre. Eis a primeira: dois ministros saem de uma chaminé, quem se limpa primeiro? O corrupto ou o honesto? 

– Quem tem as costas quentes jamais pensa em se lavar, diz o jovem doutorando.

– O que você entende por costas quentes? Replica o professor.

– Eu estou pensando no cargo que aristocratiza e isenta, no modo de usar no cargo e no prestígio de quem o nomeou; em quem são os seus compadres, amigos e companheiros; ao partido político que ele pertence; se foi preso ou perseguido em alguma ditadura...

– É uma lista interminável... – pondera o professor-doutor Humberto, interrompendo o aluno. 

– E o pior é que eles pensam que esses infinitos recursos de poder podem ser corrigidos com leis e não com uma honesta crítica dos seus costumes, dos limites de suas relações. 

– Então os dois saem sujos? Experimenta o professor.

– Não. Responde o aluno. Ambos, sendo legais e caindo dentro da lei, não querem nem saber onde está a sujeira.

*

Eu dei uns socos uma vez na minha vida contra flamenguistas. Não eram torcedores, mas uma seita. Neste domingo, o Flamengo englobou o meu coração e o Brasil. Há muito mais nas identidades sociais do que pensa a nossa vã ideologia.

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