Juan Pons, barítono por excelência

Espanhol interpreta canções e árias de ópera hoje no Teatro São Pedro e dá aulas a jovens artistas brasileiros

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2010 | 00h00

Pons. Mudança de registro por causa de Caballé e golpe de sorte por sair de Menorca jovem.

 

O barítono espanhol Juan Pons, um dos grandes nomes da ópera internacional das últimas décadas, está de volta a São Paulo. Hoje, faz recital no Teatro São Pedro ao lado da pianista Joana Pons, sua filha. No programa, canções catalãs, italianas e algumas das árias de ópera que o tornaram famoso.

Convidado da série Grandes Vozes, da Cia. de Ópera São Paulo, ele também dará master classes a cantores brasileiros na terça e na quarta, no Cultura Artística Itaim (as aulas são abertas ao público). Na conversa com o Estado, no sábado, ele relembrou o início da carreira, a amizade com Luciano Pavarotti e seus principais papéis.

O senhor vai interpretar canções catalãs em seu recital. Que papel esse repertório teve em sua formação de cantor?

Não muito grande. São canções bonitas, têm textos emotivos. Mas a ópera sempre teve papel mais importante. De qualquer forma, a preocupação é a mesma: explorar os sentidos da palavra. Para um cantor, a voz é apenas a base. É preciso saber interpretar. E espero me conectar com o público paulistano.

Quando soube que seria um cantor de ópera?

Nunca me imaginei cantor. Foi um golpe de sorte da vida que um cantor de coro em um povoado de pouco mais de 40 mil pessoas em uma ilha virasse alguma coisa (risos). O coral foi certa vez a Barcelona para dois concertos e um senhor que trabalhava no Teatro del Liceo me ouviu e pediu que eu fizesse uma audição. Não conhecia nada de ópera e então cantei uma zarzuela. Comecei então a estudar no Liceo. No dia 12 de julho, serão quarenta anos desde que parti de Menorca para Barcelona.

Desde cedo, o senhor interpretou os papéis mais pesados de Verdi e do verismo, que os cantores costumam deixar para mais tarde em suas carreiras. Foi uma escolha consciente?

Eu comecei, na verdade, como baixo. Até que um dia Montserrat Caballé chegou para mim e disse: "Você é barítono!". E eu acreditei (risos). Agradeço sempre porque tive a oportunidade de passar por todos os escalões do Liceo, aprendendo sempre. Estudei na academia, cantei no coro, fiz papéis pequenos antes de chegar aos grandes personagens verdianos. Papéis pesados de barítono. Isso foi muito importante para mim. Cantei como baixo de 1970 a 1978. E, dois anos depois, fazia a estreia como barítono no Scala de Milão.

Que lembrança tem desta estreia, com o Falstaff?

É uma das lembranças mais bonitas da minha vida. Foi no dia 7 de dezembro de 1980. E, de certa forma, ali nascia a minha carreira. Tive muita sorte de trabalhar logo de cara, na mesma produção, com artistas como o diretor Giorgio Strehler e o maestro Lorin Maazel. Aprendi muito com Strehler sobre movimento em cena, o uso dos cenários, o gestual, como caminhar, como parecer maior, mais gordo. Sempre que voltei a cantar Falstaff, usei algo que aprendi com ele.

Estamos acostumados a fazer referência a um "barítono verdiano", mas Verdi escreveu papéis bastante distintos para esse tipo de voz. É possível falar em um barítono verdiano? Como defini-lo?

A definição para um barítono verdiano? Juan Pons (risos). Não. estou brincando, não leva isso a sério! Há diferenças sim entre os personagens, mas também algo em comum. A voz verdiana precisa ser extensa, mas também corpulenta, robusta, e versátil, para te possibilitar ir de um papel como Macbeth até Simon Boccanegra ou Falstaff.

O senhor trabalhou com grandes artistas. Com algum teve maior afinidade no palco?

Cada vez que cantei com Plácido Domingo aprendi algo, ele é um monstro musical e como ator. Sabe, às vezes desejo ter 20 anos de novo! (risos) Sou muito grato por ter vivido nessa época e ter cantado com todos os grandes. Scotto, Caballé, Freni. E, claro, Pavarotti, com quem tive uma relação de grande amizade. Estive com ele pouco menos de um mês antes de sua morte, estava debilitado mas era a mesma pessoa carinhosa de sempre. Cozinhei uma tortilla de batatas para nós. Ele era assim, guardo com carinho as noites que passamos jogando cartas em turnês, ou cozinhando com colegas maestros e sopranos.

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