Alex Cruz/EFE
Alex Cruz/EFE

Juan Gelman lutou toda a sua vida contra a impunidade das ditaduras do Cone Sul

Poeta e militante argentino morreu no México, aos 83 anos

Ariel Palacios / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2014 | 18h36

O poeta argentino Juan Gelman, vencedor do Prêmio Juan Rulfo de 2000 e do Cervantes de 2007, entre vários outros, morreu na terça de complicações da síndrome mielodisplásica, aos 83 anos, na cidade do México, capital do país onde residia desde 1988.

O autor, que também foi jornalista das principais publicações portenhas desde os anos 60, era um ativo militante da poesia revolucionária e integrou grupos clandestinos que se opunham à Tríplice A, grupo paramilitar que operava com a proteção do governo da presidente civil Isabelita Perón (1974-76) e à ditadura militar argentina (1976-83). Integrante desde os anos 60 das Forças Armadas Revolucionárias (FAR), grupo que se fundiu com a guerrilha cristã-nacionalista Montoneros em 1975, Gelman posteriormente rompeu com esses grupos e partiu do país em exílio na França e Itália.

O poeta também ficou famoso pela campanha internacional realizada no fim dos anos 1980 para encontrar seu filho, Marcelo Gelman Schubaroff, ex-militante do Exército Revolucionário do Povo (ERP), e de sua nora Maria Claudia Iruretagoyena. Ambos foram sequestrados pela ditadura em agosto de 1976. O poeta, que também procurava sua neta, nascida no cativeiro, comoveu a opinião pública nos países da região, especialmente Argentina, México e Uruguai.

Em 1989 a Equipe Argentina de Antropologia de Medicina Legal identificou os restos mortais de seu filho, que havia sido executado com um tiro na nuca disparado a meio metro de distância. O cadáver do jovem de 20 anos – que na época do sequestro não militava em grupo algum – foi misturado com cimento e areia, colocado dentro de um tambor metálico e jogado no Rio San Fernando, na província de Buenos Aires.

Gelman nunca encontrou o corpo de sua nora, que havia sido levada para o Uruguai. María Claudia, que tinha 19 anos e estava grávida de sete meses quando foi sequestrada, foi levada para o outro lado da fronteira dentro do esquema do Plano Cóndor, a operação regional de intercâmbio de prisioneiros políticos e de colaboração nas tarefas de repressão entre as diversas ditaduras do Cone Sul.

Gelman procurou sua neta durante anos. Após pressões em âmbitos internacionais, utilizando sua fama, o poeta conseguiu uma série de pistas que o levaram a descobrir a neta no Uruguai, onde havia sido apropriada por um militar que a criou, ocultando sua verdadeira identidade. Em 2000, emocionado, finalmente encontrou a jovem, que tinha 23 anos na época. Macarena recuperou sua identidade e propiciou uma volta à felicidade ao envelhecido poeta em seus últimos anos de vida.

Pelo caso de Macarena Gelman, entre vários outros, foram condenados à prisão perpétua em 2012 os ex-ditadores e generais argentinos Jorge Rafael Videla e Reinaldo Bignone.

Em 1989, foi indultado pelo presidente Carlos Menem com outros 64 ex-integrantes de organizações guerrilheiras. Na ocasião Menem também indultou militares que haviam participado da repressão aos civis durante a ditadura. Gelman protestou: “Estão fazendo um escambo comigo pelos sequestradores de meus filhos e de outros milhares de rapazes que agora são meus filhos”.

Juan Gelman foi o autor de Violino e Outras Questões, O Jogo no Qual Andamos, Gotán, Cólera Boi, Para o Sul e Isso, entre outros livros.

Filho de imigrantes judeus-ucranianos, Gelman foi introduzido na poesia por seu irmão mais velho, nascido na Europa, que lia os versos do poeta russo Aleksandr Pushkin (1799-1837) enquanto tomava conta do caçula Juan.

Em 2007, quando recebeu o Prêmio Cervantes, Gelman referiu-se aos crimes da ditadura argentina e ao tempo transcorrido desde o fim do regime militar: “As feridas ainda não estão fechadas. Seu único tratamento é a verdade e, depois, a Justiça. Somente assim é possível o esquecimento verdadeiro”. Gelman afirmava que havia decidido “não escrever desde o ódio, que nos causa danos”, mas sim, “desde a perda (de um filho)”.

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