Jovens, vão às ruas!

Desconfio dos machos empertigados que pregam contra homossexuais e também contra africanos e seus descendentes. Esses porta-vozes de um puritanismo doentio usam a religião como arma moral.

Milton Hatoun, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2013 | 02h09

Nem de longe são religiosos que dão bons conselhos, como aquele famoso Pero Pérez, padre de uma aldeia espanhola e um dos amigos do Engenhoso Fidalgo dom Quixote de la Mancha. Tampouco são figuras acossadas por dilemas morais, políticos ou ideológicos, seres que estão vivos em romances de Eça de Queirós, Antônio Callado e tantos outros.

Padre Nando, protagonista do romance Quarup, tem as qualidades de um grande personagem atormentado. No romance Luz de Agosto, William Faulkner também construiu uma figura inesquecível: o jovem pastor Gail Hightower, também conhecido como Done Damned - totalmente possuído ou danado -, um louco de pedra que pregava numa igreja de Jefferson, usando palavras da Bíblia como se estivesse num sonho vertiginoso ou à beira de uma catástrofe.

Mas há também incríveis personagens do rebanho. Logo me lembro de um conto memorável de Jorge Luis Borges: O Evangelho Segundo São Marcos.

Baltasar Espinosa, jovem estudante portenho, passa uns dias numa estância perto de Junín e lê a Bíblia à família do capataz - os Gutre -, de origem irlandesa. Os Gutre haviam esquecido o idioma inglês e falavam com dificuldade o castelhano. "Para se exercitar na tradução e talvez para ver se entendiam algo", Espinosa lê parábolas do livro sagrado para essa família.

Não convém resumir nem revelar o desfecho desse conto, uma obra-prima do livro O Informe de Brodie (Companhia das Letras, tradução de Davi Arrigucci Jr.). Basta dizer que os Gutre escutam com atenção as parábolas lidas por Espinosa e as entendem literalmente. O narrador assinala que os peões "careciam de fé, mas em seu sangue perduravam, como rastros obscuros, o duro fanatismo do calvinista e as superstições do pampa".

Essa leitura rasa e tosca do texto sagrado - uma leitura sem mediações, sem qualquer reflexão sobre o significado e alcance simbólico das parábolas - aconteceu em 1928 numa estância Argentina. Mas, fora da ficção, a leitura ao pé da letra do Alcorão e da Bíblia vem acontecendo há séculos, e não poucas vezes com consequências nefastas ou trágicas. Agora mesmo essa leitura está acontecendo no Brasil e em muitos outros lugares dos dois hemisférios.

Ler e assimilar um texto sagrado ao pé da letra é uma temeridade. O duro fanatismo e seus rastros obscuros não se limitam ao calvinista do conto argentino: corre no sangue de muitos crentes das três religiões monoteístas. A Cruzada das Crianças, livro de contos de Marcel Schwob, narra a loucura de crianças europeias que, na Idade Média, marcharam para a reconquista de Jerusalém. Oito século depois, a parte árabe da "cidade santa" está sendo invadida e ocupada por colonos judeus fanáticos, com a cumplicidade de um governo apoiado pela extrema-direita religiosa, igualmente fanática.

Grandes personagens de romances e contos são mais complexos e densos que as pessoas que conhecemos, justamente porque não conhecemos profundamente essas pessoas.

Claro que as declarações do presidente da Comissão de Direitos Humanos se amoldam a personagens bastante vulgares e caricaturais, e olhe lá. Não inspiram sequer o esboço de uma figura complexa. O problema é que esse pastor não é apenas um sujeito caricato e histriônico, à semelhança de tantos políticos. Ele e outros deputados - alguns réus em ação penal - foram vergonhosamente eleitos para presidir comissões relevantes. Isso desmoraliza ainda mais o Poder Legislativo, onde só uns poucos políticos podem ser considerados éticos. Infelizmente a reserva ética tende a zero.

Quanta desfaçatez: uma Comissão de Direitos Humanos de um Estado laico ser presidida por um membro de um partido religioso. Essa aberração e os discursos preconceituosos e claramente racistas desse pastor político merecem o repúdio e o protesto dos brasileiros, religiosos ou agnósticos.

As manifestações dos jovens em Brasília e em outras cidades têm um forte conteúdo político. No fundo, são atos pela liberdade: mobilizações necessárias e urgentes contra forças retrógradas e obscuras.

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