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Jovens tardes de domingo

22 de agosto de 1965: algo iria acontecer durante e depois que o primeiro Programa Jovem Guarda chegasse ao fim

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2011 | 00h00

Algo dizia a Roberto Carlos que aquilo ali não daria certo. Era euforia demais para se tentar fazer na televisão um alienígena chamado Programa Jovem Guarda numa época em que a própria juventude andava nas fraldas. Depois de uma reunião com os diretores da Record, que definiria detalhes daquela simbiose de matinê com show de rock, Roberto parecia preocupado pelos corredores da emissora. "Ele estava pensativo, cabisbaixo", lembra o pianista do Zimbo Trio, Amilton Godoy. Ao músico Luiz Chaves, do mesmo Zimbo, Roberto fez ali provavelmente a mais fracassada previsão em seus 51 anos de carreira: "Não, bicho, esse programa não vai durar muito".

Quem tinha mais de 40 anos em 1965 e algum bom senso poderia achar o mesmo. Afinal, não havia antecedentes de insanidade juvenil parecida registrada nas redondezas de uma emissora de TV. Duas horas antes de os portões do auditório serem abertos, a fila de uma gente com menos de 20 anos descia veloz a Rua da Consolação. Os cambistas vendiam ingressos bem mais caros do que os de 2 cruzeiros cobrados no câmbio oficial e esgotados em menos de uma hora. A cantora Wanderléa lembra desta tarde de estreia como "uma loucura, pessoas enlouquecidas querendo entrar ao mesmo tempo". Seriam belas e rentáveis tardes de domingo aquelas que começaram às 16h30 de 22 de agosto de 1965, produto também de uma das mais bem sucedidas estratégias traçadas por uma TV. Ao querer atrair uma inédita audiência adolescente, a Record criaria novos ideais artísticos e de comportamento.

A emissora não estava preocupada com público, mas com a idade dele. Elis Regina e Jair Rodrigues, amparados pelo Zimbo Trio, já eram grandes à frente do musical O Fino da Bossa. Elizeth Cardoso ia muito bem com Bossaudade. Mas nada até então chegava aos corações adolescentes.

Sem anunciante que quisesse entrar na roda, mesmo porque ainda não havia roda alguma, a agência de propaganda Magaldi & Maia assumiu os riscos para bancar o programa até que viessem os patrocinadores, o que logo aconteceu. Ao mesmo tempo, criaria uma espécie de grife iê-iê-iê, com calças e jaquetas de brim modelo Calhambeque e chapéus de cowboy Tremendão.

Embora já tivesse criado Splish Splash dois anos antes, Roberto ainda não era rei. Aos 24 anos, batalhava por mais. "Ele era é um chato de galocha. Sua empresária ficava pedindo pelo amor de Deus para escalarmos ele em um programa chamado Ás do Disco", contou Paulinho Machado de Carvalho (morto em 2010), diretor da emissora e filho do dono, Paulo Machado, em entrevista de 2008 ao Jornal da Tarde. O programa saiu de vez do plano das ideias quando a Record foi proibida de transmitir os jogos de futebol nas tardes de domingo. Sem o Corinthians do novato Rivellino e o Santos do auge da era Pelé, procurava-se uma sensação que ocupasse o vácuo. A primeira convidada a assumir a frente do dominical foi Celly Campelo, que se recusou por assuntos familiares. Roberto Carlos, então, veio para um teste com Paulinho: "Colocamos ele no banquinho da sala técnica. Quando olhei, falei: "Puta merda!" Era fantástico, ele tinha um ar de quem queria mãe".

A mãe e os amigos. Quando percebeu que seria o astro rei da atração ganhando 50% a mais do que seus parceiros, Roberto fez sua primeira exigência. "Fomos assinar o contrato eu, Roberto, Wanderléa e Erasmo em um restaurante na Brigadeiro Luiz Antonio, em São Paulo. Tudo ia bem até chegarmos aos valores. Roberto disse que só assinaria se os companheiros recebessem o mesmo valor que ele. E assim foi feito", lembra Manoel Carlos, hoje autor de novelas na Globo e ex-diretor na Record.

A estreia na TV poderia ser a consagração ou a fritura de Roberto Carlos. Expor seu rosto de menino carente à frente de um programa de TV, sendo zero seu traquejo para o negócio, era um tiro no escuro. Ali já se percebia que as palavras faladas não eram seu forte. "O carisma de Roberto resolvia todos os problemas entre ele e o público", diz Manoel Carlos. A saída para qualquer encrenca maior já estava pensada: nada de textos longos. "Ele só precisava dizer algumas palavras do vocabulário dos jovens, inserindo outras que ele mesmo e o Erasmo criavam. Ninguém ia ao auditório ou ligava a TV nas tardes de domingo para ouvir o Roberto falar. Queriam era que ele cantasse", fala Maneco.

O som era outro desafio. Sabia-se bem como captar vozes naquelas gravações para TV, mas a história ali era outra. Guitarras, bateria e baixo disputavam espaço com gritos. Se sobrasse alguma coisa, daria para ouvir os cantores. O melhor técnico de som do País era Zuza Homem de Mello, que tinha experiência em gravações importantes nos Estados Unidos. Zuza chegou cedo ao auditório, já com suas estratégias pensadas. No teto, um microfone para registrar a vibração do público. No palco, microfones Philips para as vozes principais que só captavam o som que vinha em linha reta. E para os instrumentos, modelos de alta fidelidade AKG e Telefunken em frente aos amplificadores. "O segredo era mixar tudo isso. O microfone do teto só era aberto quando as pessoas se manifestavam", diz Zuza.

Às 16h30, Roberto apareceu no palco para imediatamente ser massacrado pela histeria. Anéis de ouro e de jade enfeitavam as mãos. Um colar com um medalhão ficava à vista na camisa aberta. Seus convidados seriam Tony Campello, Rosemary, Ronnie Cord, The Jet Blacks e Prini Lopez, além da banda de apoio Os Incríveis. Para chamar Erasmo, Roberto esticou o braço direito, dobrou o corpo até a cintura e lançou um pausado: "E agora, com vocês, o meu amigo Erasmo Carlos". A uma hora que se seguiria até às 17h30 seria de muita música e quase nenhuma frase. As TVs da época chegaram a registrar picos de 3 milhões de telespectadores em São Paulo. Ao fim, era como se alguém houvesse puxado o pino da granada. "Roberto Carlos foge para não ficar nu!", era a manchete dos jornais no dia seguinte. Segundo as publicações que acompanharam a estreia, Roberto foi cercado na saída por umas 30 garotas descontroladas e já estava todo arranhado quando conseguiu pular dentro de um Volkswagen verde e sumir. As meninas ficaram na porta da Record, disputando os pedaços que tinham rasgado de sua camisa. Ali, Roberto já era rei. Mas todas as imagens gravadas do programa se foram em 1969, em um incêndio nos estúdios da TV Record.

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