Jean Chung/The New York Times
Jean Chung/The New York Times

Jovens sul-coreanas quebram regras de beleza e ignoram opinião alheia

Usados principalmente para modelar a franja, os bobes adotados pelas garotas são um reflexo da divisão geracional do país

Jin Yu Young, The New York Times

30 de novembro de 2021 | 20h00

COREIA DO SUL - Numa recente tarde de outono, dentro de um vagão do metrô, sete jovens sul-coreanas viajavam em silêncio no meio de uma multidão de passageiros. Elas vestiam jaquetas e casacos da estação, assim como os outros viajantes, mas um acessório as destacava: modeladores de cabelo um tanto antiquados bem presos nas suas franjas.

Esses cilindros de plástico, geralmente cobertos com velcro, hoje estão presentes em quase todos os lugares de Seul - nos cafés e restaurantes, nos transportes públicos, nas ruas.

E, embora os modeladores possam parecer vestígios de uma época passada, as jovens que os usam dizem que, mais do que funcionais, os bobes também são um sinal de mudança de ideias sobre gênero e beleza e um reflexo da divisão geracional do país.

Jung Yoon-won, estudante universitária de 23 anos que usa os rolinhos diariamente, afirmou que os usa fora de casa para deixar a franja perfeita antes de ir a algum evento ou encontro. Ela disse que sua mãe tinha pedido que ela parasse, temendo que outras pessoas achassem impróprio. Mas, para Jung, a aparência é mais importante no destino do que no caminho até lá. “Você só precisa estar com boa aparência na frente das pessoas de que gosta”, contou ela.

Essa atitude independente é compartilhada por muitas jovens que não se sentem mais obrigadas a cumprir as convenções que eram estritamente seguidas na sociedade sul-coreana. As jovens de hoje dizem que ficam menos aflitas com o que as outras pessoas pensam e que preferem viver uma vida mais despreocupada.

Impecável

Jung não vê os rolinhos como uma relíquia do passado, mas sim como uma ferramenta para ajudá-la a se recompor enquanto cruza a cidade de um lugar a outro. “Existe essa noção de que as mulheres de hoje sempre devem estar com os cabelos apresentáveis”, diz ela, que rejeitou a ideia de que sair de casa em Seul sem maquiagem e cabelos perfeitos era como sair sem roupa.

Ao contrário das gerações de mulheres que achavam que era necessário se arrumar em espaços privados, escondidas da vista dos homens, ela e outras se importam muito menos se seus esforços estão mais visíveis, explicou Jung. “É por isso que tudo bem usar os modeladores no metrô ou no café.”

Na Coreia do Sul, os rolinhos de cabelo geralmente são usados na franja. Custando apenas 80 centavos cada um, eles são acessíveis para a maioria das mulheres e até celebridades costumam postar fotos de bobes nas redes sociais. As mulheres mais velhas estão intrigadas e perplexas com o fenômeno.

Penteados

Lee Jeong-jin, de 51 anos, tem uma filha de 21 que usa os bobes fora de casa, para decepção da mãe. Lee, que mora perto de Seul, observou que não é incomum que as jovens tenham uma atitude “não estou nem aí”. Ela entende as jovens. Usar spray de cabelo para criar penteados altos e volumosos era tendência na Coreia do Sul quando ela era adolescente. “Tenho certeza de que naquela época a geração mais velha também achava que éramos esquisitas”, garantiu.

Ainda assim, Kim Ji-in, de 54 anos, vê os modeladores de cabelo como parte de uma mudança mais ampla entre as jovens, que sentem que devem comportar-se como bem quiserem, sem se sentirem obrigadas a seguir expectativas sobre beleza e gênero. Na sua época, era impensável uma mulher sair de casa com rolinhos no cabelo, acrescentou ela.

A resistência aos rígidos padrões de beleza e às visões restritivas sobre gênero não é nova na Coreia do Sul. Depois que as denúncias do #MeToo varreram o país alguns anos atrás, algumas mulheres reagiram com o Escape the Corset (algo como “fuja do espartilho”), um movimento pelo qual elas abandonaram a maquiagem e passaram a usar cabelo curto para protestar contra as crenças opressivas sobre beleza física.

Mercado

A indústria de cosméticos sul-coreana floresceu apesar da pandemia. Porém, cada vez mais, as jovens dizem que preferem sair de casa do jeito que elas bem entendem.

Kim Dong-wan, um pesquisador de 25 anos que mora em Seul, disse ter ficado confuso na primeira vez em que viu jovens usando modeladores de cabelo em público, cerca de seis anos atrás. Agora ele diz que é “indiferente” a isso e que as mulheres hoje em dia parecem menos pressionadas a esconder essas coisas e também exigem mais respeito.

“Os tempos mudaram muito”, concluiu ele. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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