Jovens escritores

Escrever é um patrimônio coletivo, ser escritor é uma vocação específica

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2019 | 02h00

Meu reitor fez chegar a mim o livro Depois Que Seja Tarde Antes Que Seja Nunca. O poeta, Enzo Fuji, nasceu no ano 2000. É uma bela edição pela Patuá. Um autor que você nunca leu antes traz a vantagem de não vir acompanhado de preconceitos positivos ou negativos. Eu estava neutro, querendo perceber a qualidade do texto, sem um “a priori”. Para mim, um texto de poesia geral tem três campos de virtudes (ou de falta delas). O primeiro é técnico. O verso é laboratório da língua, trama de palavras, combinações poderosas dos recursos infinitos do Português. Em frases metrificadas, brilha uma matemática criativa; nos versos livres ou brancos, surge a capacidade de fazer música sem partitura fixa. Além da técnica, existe a complexidade das ideias, suas sutilezas e gradações. Poesia faz pensar com o que se lê e o que se imagina. Por fim, da combinação dos dois elementos anteriores e de um terceiro intangível, surge a emoção. Não é um método de análise que proponho, não sou literato ou especialista no universo da poética. Trata-se da minha maneira de encarar o texto poético e assim fui, livro em mãos, avançando nos versos de Enzo em busca da minha tríade. 

O texto é, definitivamente, de um poeta. Veja uma diferença, querida leitora e estimado leitor. Eu toco piano, todavia nunca fui e não serei pianista. A diferença não está apenas na destreza. Eu já escrevi muitas poesias, guardadas todas e zelosamente pelo bom sono das musas. Todos podem dar uma aula e isso não torna alguém um professor. Cozinhar envolve técnica e vontade, eu até cozinho bem. Ser uma chef ou um chef é talento que vai muito além. O bom padre Vieira distinguia entre ser semeador e ser aquele que sai a semear. Enzo Fuji é poeta. Nas suas palavras, “escrevo aos mortos que não me leram aos vivos que também não me lerão aos vivos-mortos apenas alguns são”. O jovem opta quase sempre pelo jeito que Valter Hugo Mãe utilizava: sem maiúsculas, evitando vírgulas e fugindo da pontuação formal. Com o título latino Sapere aude (Ouse Saber), registra: “Com toda a história que tenho estudado chego a inferir que os diabos vivem e os anjos falecem”. Por vezes, flerta com variação de tipos como um bafejo concretista, escrevendo em letras maiores “Despencar e não cair flutuar sempre neste território de muita gente”. Os três exemplos dados são algo meio haicai que existe no texto. Há formas de sonetos, prosa poética e homenagens a autores como Gabriel García Márquez. No poema-inventário de influências (subversivo), ele registra em um trecho: “Que me perdoem os clássicos como baudelaire e rimbaud e eliot mas a estética não importa se através de linhas retas você não chega a lugar algum”. 

Poderia multiplicar bons exemplos, seriam sempre lacunares e injustos. A obra vale a pena para quem deseja pensar e aumentar sua capacidade de ver o mundo pelos olhos de Enzo. Talvez, a maior diferença esteja sempre na necessidade: um poeta precisa escrever como Van Gogh precisava pintar. O conhecimento e o talento em idade tão escassa são sempre notáveis. Sua juventude é revelada em gestos indiretos: a foto reveladora, o pedido a sua professora para que fizesse o posfácio e, por fim, um sinal de pouca ou de muita idade: palavras mais complexas engastadas no texto. Quando leio “destarte” ou “valetudinário”, sei que o autor as descobriu há pouco e ainda ecoa na sua memória o impacto fonético e semântico do vocabulário novo. Ou... que aprendeu há tanto tempo que Alexandre Herculano e Euclides da Cunha ainda eram suas referências maiores. Birra minha apenas, o brilho do texto é quase o canônico: dizer coisas complexas de forma relativamente simples e bem engendradas. Enzo causa emoção e espanto. 

O título da crônica estava no plural e eu só falei de um jovem e excelente autor. O que eu queria manifestar a todos os jovens de todas as idades é que escrevam muito. Escrever é treino e técnica e fazê-lo com frequência ajuda bastante. Para ser um escritor de fato? Não apenas saber expressar ideias em bons textos é atividade para todas as pessoas de todas as funções. Assim também a atividade física regular e bem orientada é necessária ao existir humano, ainda que poucos se tornem atletas. Escrever coisas claras em redes sociais, em e-mails, em textos maiores, em ambiente profissional e em cartões e cartas pessoais: são habilidades muito importantes para toda a vida. Escrever é patrimônio coletivo, ser escritor é vocação específica. Assim, treinemos todos (eu também) a escrita. O topo do Everest continua a ser um metafórico Olimpo, porém o fôlego para chegar ao acampamento-base já é um passo enorme na excelência pessoal e profissional. A prática melhora todos, quem vai viver da escrita e quem apenas usa a escrita para outros fins. Em resumo, ao pensarmos o universo das redes sociais, um conselho: escrevam com menor frequência e com maior qualidade. Recomendei prática, não volume. Se a escrita é amor, as redes sociais viraram prostíbulos. Leiam poesia, romances, editoriais. Leiam muito e escrevam regularmente. Todos estamos na estrada da aprendizagem. E quando estiver inchado de orgulho pelo parágrafo perfeito, leia Rimbaud, Machado, Florbela Espanca ou Shakespeare e suspire aliviado: não temos a dor de carregar o fardo dos gênios. Treinemos. Enzo já está escalando para o topo. Graças ao meu reitor, conheci um poeta de verdade. Bom domingo para todos. 

 

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