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Joumana luta pela Liberdade

Escritora libanesa lança livro e fala sobre as mulheres no mundo árabe

MARIA FERNANDA RODRIGUES , OLINDA, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2011 | 03h06

OLINDA - Quando a guerra civil começou no Líbano, Joumana Haddad tinha quatro anos. "Até meus 21, vivi aquilo e devo muito do que sou a todo esse período difícil", comentou a poeta, escritora e tradutora que agita o mundo árabe com suas ideias, sua polêmica revista feminista Jasad, seus vestidos curtos e seu recém-lançado Eu Matei Sherazade (Record), que acaba de chegar às livrarias libanesas e foi totalmente ignorado pela imprensa local. No Brasil para divulgar o livro, que já foi editado em 12 países, Joumana fala sobre a nova mulher árabe nesta segunda, 14, na 7ª Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto); no dia 16, no Polo do Pensamento Contemporâneo (Pop), no Rio; e no dia 18, na Casa do Saber, em São Paulo.

Aos 41 anos, não deixa de se indignar pelo fato de que ainda são poucas as mulheres que se irritam por viverem submissas. Ela acredita que, em algumas situações em que elas se mostraram mais participativas, como nos recentes protestos na Tunísia e no Egito, era tudo fachada. "Quando acabaram os protestos, elas sumiram. Foram usadas como peças de xadrez e o pior é que aceitaram isso", comentou a escritora, que não está animada com o rumo que as coisas devem tomar nos países revoltosos já que, como disse, lá a escolha é sempre pelo menos pior.

"Infelizmente não estou eufórica com a Primavera Árabe. Mesmo sabendo que essas revoluções devem acontecer e que os ditadores já deviam ter caído há muito tempo, sempre acreditei que a próxima armadilha seria um integralismo religioso", disse. Para ela, só depois que todas as pessoas do mundo árabe estiverem vivendo esse extremismo é que vão querer, de fato, uma mudança. E isso leva tempo.

Frequentemente comparada a Carrie Bradshaw, protagonista do seriado Sex and the City, Joumana diz que isso não faz sentido exceto pelo fato de as duas gostarem de bons sapatos. O que a escritora faz é político e para levar suas ideias a mais mulheres está negociando com uma emissora local um programa de televisão. Só há uma condição: que nenhum assunto seja censurado. Um site também está nos planos e funcionará como uma espécie de fórum, onde as mulheres poderão discutir e deixar sua mensagem. Houve até quem sugerisse à Joumana que ela liderasse uma organização para a conscientização da mulher muçulmana, mas ela não tem tempo e prefere participar da mudança escrevendo.

Joumana não acredita que tenha nascido para mudar o mundo, mas sabe que sua voz está sendo ouvida. Por isso, não pensa em se mudar do Líbano. Mas quer que os filhos saiam. O mais velho, de 19 anos, se muda no ano que vem para os Estados Unidos para estudar Direito. O mais novo não puxou à mãe, que não chega perto de um fogão e, aos 12, já decidiu ser chef de cozinha. Os dois são filhos de pais diferentes, outro motivo para Joumana não ser bem vista em seu país.

Os meninos sabem que são diferentes e às vezes se sentem constrangidos na escola porque queriam ter uma mãe normal. Quando o mais velho tinha 7 anos, chegou a perguntar se ela não poderia só se parecer com uma mãe. "Mas o fato de eu não ser só uma mãe mostra a eles que existem outras perspectivas na vida." Outro episódio curioso: dia desses, quando Joumana foi sair de casa, o caçula a recriminou pelo tamanho do vestido; ele, por sua vez, foi recriminado pelo irmão. Ela então se perguntou como um garoto como aquele, criado por ela, poderia dizer uma coisa desse tipo. "Não conseguimos fazer a mudança sozinhos. Tem muito mais gente envolvida na educação dos filhos."

Ela dá tanta liberdade a eles porque não teve nenhuma enquanto morava com os pais. Mas de uma coisa ela se lembra com carinho: a biblioteca do pai, repleta de livros proibidos, que ela começou a frequentar aos 11 anos. Leu Marquês de Sade com 12 anos e Kafka com 13, e não parou mais. Em sua casa, deixa todos os livros ao alcance dos filhos, que não ligam muito para literatura. "Eles dizem que os livros estavam me roubando deles. Sei que os livros me fizeram ser o que sou hoje e me permitiram ser livre e por isso o desinteresse deles me frustra um pouco."

Hoje a relação com os pais é outra. "Você não cria apenas os filhos, cria também os pais. Os meus mudaram bastante e sentem muito orgulho de mim mesmo quando não concordam com o meu ponto de vista. Isso é bom, afinal, o que importa é que as pessoas respeitem o seu direito de pensar diferente, o que é proibido no mundo árabe."

Joumana fala sete línguas. Escreve poesia em árabe, livros para crianças em italiano, ensaio em inglês e obras eróticas em francês. Sabe um pouco de português e quer aprender mais para poder ler os autores de que tanto gosta em suas línguas originais. Clarice Lispector, Ana Cristina Cesar, Jorge Amado e Milton Hatoum estão entre seus preferidos. Esta é a sua primeira vez no Brasil. "Me encontrei aqui. Costumo dizer que com o Big Bang pedaços de mim foram espalhados pelo mundo e durante minhas viagens vou me reconhecendo nesses lugares. O melhor é que foi uma parte boa de mim que achei aqui."

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