Josué Montello é sepultado no Rio

Quase 30 acadêmicos, quorum raro mesmo nas eleições de novos imortais, foram hoje à Academia Brasileira de Letras (ABL) para o velar o escritor Josué Montello, que morreu quarta-feira. Sua morte adiou a eleição para a cadeira nº 28, ocupada até novembro pelo ex-ministro Oscar Dias Corrêa, e quebrou uma rotina. Como a eleição foi adiada para a próxima quinta-feira, dia de sessão ordinária na ABL, a sessão da saudade que vai declarar vaga a cadeira nº 29, que era de Montello, foi marcada para a tarde da próxima quinta-feira, dia 21. Pela manhã, será rezada sua missa de sétimo dia, no Mosteiro de São Bento. Montello era o acadêmico mais antigo da ABL. Foi eleito em novembro de 1954, substituindo o médico e escritor Cláudio de Souza, na cadeira que tinha o dramaturgo Martins Pena como patrono e já havia sido ocupada pelo magistrado e escritor Vicente de Carvalho e pelo também dramaturgo Arthur Azevedo. Estavam lá imortais que raramente vão à casa, como Zélia Gattai, o senador José Sarney, Lygia Fagundes Teles, Paulo Sérgio Rouanet e João Ubaldo Ribeiro, além dos que movimentam as sessões, como Antônio Carlos Secchin, José Murilo de Carvalho, Alberto Costa e Silva, Antônio Olinto, Ledo Ivo, Eduardo Portela, Murilo Melo Filho, Cícero Sandroni e o atual presidente, Marcos Vilaça. "Josué Montello trouxe para esta casa a multiplicidade de seu talento e tinha com a Academia uma relação tão orgânica que sua pele se alongava pelas salas e bibliotecas de nossos prédios", disse Vilaça. "Magalhães de Azevedo e Barbosa Lima Sobrinho foram acadêmicos mais tempo, mas Josué freqüentava a academia, como palestrante, desde o início dos anos 40", completou o secretário geral, Cicero Sandroni. "Foi o acadêmico perfeito. Lutou pela aproximação entre esta casa e a sociedade", acrescentou Antônio Olinto. "A obra de Josué Montello abrange todos os gêneros literários, do romance à biografia, dos ensaios ao memorialismo. Acho que ele só não escreveu poesia", comentou o poeta Ivan Junqueira. "Era uma pessoa com muitas qualidades morais e intelectuais, mas duas destacavam-se: tinha amor e sabedoria. Como ele estava doente há muito tempo, sofrendo muito, sua morte é uma espécie de libertação." Montello tinha 88 anos e mais de cem livros publicados, o mais famoso deles, Os Tambores de São Luís, um romance sobre o entrosamento das culturas negra e branca no Maranhão, traduzido em muitos idiomas. Foi subchefe da Casa Civil no período presidencial de Juscelino Kubitschek, diretor do Museu Histórico Nacional, da Biblioteca Nacional e do Serviço Nacional do Teatro, além de fundador do Conselho Federal de Cultura e embaixador do Brasil na Unesco, em Paris. Hoje mesmo já se especulava sobre sua substituição. "Precisamos de um nome à altura de seu cabedal e está difícil apontar um", dizia Ivan Junqueira. "Mas isso só depois de terça-feira porque hoje a vaga ainda é dele". O acadêmico foi enterrado no túmulo da família, no cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio. Ele era casado com Yvonne Montello, com quem tinha duas filhas, cinco netos e três bisnetos.

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