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Joseph Taylor

Na escola, fiz amizade com um dos negros recém-chegados, mas ele não gostava de jazz

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

25 Março 2018 | 02h00

De 1953 a 1956, fui aluno da Theodore Roosevelt High School, em Washington, capital dos Estados Unidos. Durante o primeiro ano, uma vez por semana ia para a escola de uniforme militar e fazia exercícios de ordem unida, com um rifle no ombro, antes de começarem as aulas. Aprendi a desmontar e a remontar o rifle. Certa vez, participei de uma manobra militar junto com outras escolas públicas da região. Nunca fiquei sabendo se a guerra simulada era entre as escolas ou de todas contra um inimigo comum. Voltei para a escola sem ter visto o inimigo e sem saber o resultado da guerra. Mas não havia dúvida sobre quem seria o inimigo real do país numa guerra de verdade. No mínimo uma vez por mês tínhamos um ensaio para o caso de ataque nuclear. Íamos todos para o porão da escola, onde só o impacto direto de um foguete nos liquidaria. Fora isso, sobreviveríamos e sairíamos dali com nossos rifles vazios prontos para deter a invasão russa. 

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Nas aulas, a primeira coisa que fazíamos todas as manhãs era botar a mão sobre o coração e jurar fidelidade à bandeira dos Estados Unidos da América e à República que ela representava, com liberdade e justiça para todos. Mas na época, principalmente no Sul dos Estados Unidos, a liberdade e a justiça não eram para todos. A discriminação racial era oficial nos Estados do Sul e a segregação racial, oficial ou não, existia em todo o país. Eu ainda cursava a Roosevelt High quando a Suprema Corte americana determinou o fim da segregação nas escolas. Lembro dos primeiros negros chegando à Roosevelt. Em outras escolas houve distúrbios. Alunos brancos reagiram violentamente à “invasão”, a polícia teve que intervir, os conflitos duraram semanas e a verdade é que uma integração verdadeira nunca aconteceu. Na Roosevelt, ouvi muitas queixas e expressões de revolta, mas houve paz. Sempre atribuí isso à quantidade de alunos judeus na escola - fáceis de identificar, eram os que faltavam à aula nos feriados judaicos - provavelmente filhos de pais mais liberais do que a maioria. Não sei. O fato é que termos colegas negros tornava menos hipócrita o juramento diário à bandeira.

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Eu provavelmente tinha mais contato com negros em Washington do que todos os meus colegas brancos. Frequentava o teatro Howard, onde havia shows de rhythm and blues depois do filme, e eu era sempre o único branco na plateia. Fora olhares de surpresa, não provoquei nenhuma reação. Nos concertos de jazz também era minoria. Na escola, fiz amizade com um dos negros recém-chegados - Joseph Taylor. Descobri, decepcionado, que ele não tinha nenhum interesse por jazz. Era um cara sério. Naquele mesmo ano houve uma eleição no nosso “home room”, a sala onde nos reuníamos todas as manhãs para saudar a bandeira e ouvir anúncios e instruções antes de nos dirigirmos para as aulas. Uma colega, loiríssima, propôs o nome de Joseph para presidente da turma, baseada mais na sua cara séria do que em qualquer outra coisa. Ele foi eleito. Não houve discursos, ninguém destacou o significado do que tinha acontecido, o próprio Joseph parecia ser o mais surpreso de todos e ele e a menina loira voltaram para os seus respectivos mundos que provavelmente nunca mais se cruzaram. Mas tínhamos feito o nosso pequeno e distraído ritual de integração. Isso há mais de 60 anos.

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Alguns anos depois fui visitar a Theodore Roosevelt High School. O bairro em que morávamos agora só tinha famílias negras. A escola só tinha alunos negros.

A segregação não oficial continuava.

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