Joseph Roth: hotéis, santos e ruínas

O romance 'Hotel Savoy' e a novela 'A Lenda do Santo Beberrão' são testemunhos de uma época de transformações

Rodrigo Petroni*, Especial para O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2014 | 02h06

Três malas. Esses eram os bens de Joseph Roth, jornalista e escritor brilhante, de origem judaica, nascido em 1894, na pequena Brody, atual Ucrânia. Mais do que excentricidade, essa vida de desterro sinaliza a condição mesma de muitos emigrados do Leste no começo do século 20.

É conhecida a influência que a ascensão dos fascismos, a Revolução Russa e a Primeira Guerra Mundial exerceram sobre artistas e intelectuais. Mas em geral se dá pouca ênfase ao impacto que o declínio do Império Austro-Húngaro, extinto em 1918, teve sobre a literatura e as artes.

A partir de Viena, é possível mesmo traçar um meridiano imaginário cristalino. De um lado, as literaturas oriundas da belle époque, com o refinamento das culturas latinas da Europa. De outro, o verbo de eslavos e bálticos, feito de som e fúria. Essa oscilação ambivalente entre desespero e estetização é uma das chaves de compreensão de alguns gigantes como Robert Musil, Elias Canetti, Thomas Mann. E essa literatura da agonia ainda ecoou em nomes como Thomas Bernhard e Paul Celan, alimentando tantos outros.

Além das consequências políticas desastrosas, a dissolução dessa hegemonia cultural deixou marcas nítidas. E seus vestígios se preservam não apenas na literatura de língua alemã, embora tenha sido nesta língua, por escolha ou fatalidade, que muitos autores expressaram os dilemas da época. Estão presentes também nas literaturas e línguas chamadas minoritárias, e, de modo ainda mais acentuado, nas comunidades judaicas da Europa Oriental.

Tanto que há uma definição para este gênero, a Ghettoliteratur (literatura do gueto), cuidadosamente analisado em um estudo recente de Luis Krausz. Ao contrário do que se pensa, esse termo não se circunscreve a autores marginalizados. Pode lançar luzes sobre escritores canônicos como Alfred Döblin, Arthur Schnitzler e inclusive Franz Kafka.

Um romance e uma novela de Roth acabam de ser lançados pela Estação Liberdade: Hotel Savoy e A Lenda do Santo Beberrão. Em ambos temos um voo sobre essa atmosfera social. Forças migratórias, busca por trabalho, revolucionários, marginalidade, nomadismo e choque de valores. Acima de tudo, o processo massivo de guetização das comunidades, não apenas em âmbito judaico. Olhar e escuta rentes à realidade, Roth se coloca como um analista exímio dessas tensões.

Gabriel Dan ocupa um dos 864 quartos do Hotel Savoy, propriedade do grego Kaleguropolos, administrado pelo ascensorista Ignatz. Entre os laços ainda tênues com Stasia, uma dançarina de teatro de variedades, e a prestação de contas a seu tio Phöbus Böhlaug, Dan permanece. Hesitante. Até que a morte do carismático Wladimir Santschin precipita sua partida. Encontra trabalho como guia em uma estação, junto a um antigo amigo, o revolucionário Zwonimir Pansin.

Acaso ou providência? O destino parece sempre reconduzir ao grande hotel. Ao retornar, Dan finalmente conhece as finezas de Bloomfield, um multimilionário americano recém-chegado. Salta aos olhos também a estratificação. As alas mais ricas ocupam os pisos inferiores. Os pobres, banidos e malditos, as superiores. As desigualdades não demoram a se manifestar. E a realidade vai produzir a contrapartida.

Quanto à lenda em forma de novela, situa-se na primavera de 1934. Como sempre, Andreas mendiga às margens do Sena. Um senhor lhe dá duzentos francos, desde que o pobre-diabo os restitua à santa de devoção do distinto senhor: Teresinha do Menino Jesus.

Desde então Andreas passa a ser visitado por atos de bondade, todos envolvendo dinheiro. Em meio a reencontros com a amante Karoline e com um colega de escola que se tornara um atleta famoso, as bebedeiras o impedem de ressarcir a quantia. E é exatamente disso que depende o desfecho da narrativa.

Uma das aptidões literárias de Roth é o traço seco realista. A composição dos personagens em grossas e poucas pinceladas, quase como um caricaturista, no que lembra Bruno Schulz. O olhar, sempre oblíquo, capta os humilhados. Contudo não se pauta por um enquadramento social, ideológico ou moral. Quer antes flagrar as contradições.

Ao pé da cova de Santschin, um jumento. Cena tão comovente quanto grotesca. Hordas dos regressados da guerra, famintos e nômades cruzam as linhas visuais do leitor. Se a revolução parece inexorável, a palavra de ordem de Zwonimir é uma só: América. Revolução e melancolia são as duas notas compostas de um mesmo acorde final.

Roth poderia recriar a hagiografia da mística hassídica. Marcar seu personagem com uma santa e embriagada loucura. Inebriado pela presença divina, como diria Martin Buber. Mas ele não é um idealista. Kaleguropolos não existe. É uma ficção criada por Ignatz para poder controlar os moradores do hotel. Os inimigos estão dentro. Ao lado. Em todos os lugares. O próprio Dan confessa, em primeira pessoa: sou um egoísta.

O Hotel Savoy é um palácio e uma prisão. Por ele desfila uma lanterna-mágica de tipos. Em um mundo abandonado, milagres e moedas se equivalem. Deus apenas se materializa para Andreas sob a forma de dinheiro. A vida se desdobra entre o retorno de figuras do passado e uma dívida futura. E se futura, eterna. Amarga eternidade de um amanhã para sempre adiado.

*Rodrigo Petronio é escritor e filósofo. Autor e editor de dezenas de obras. professor da FAAP, do Museu da Imagem e do Som (MIS) e da Casa do Saber.

A LENDA DO SANTO BEBERRÃO

Autor: Joseph Roth

Tradução: Mário Luiz Frungillo

Editora: Estação Liberdade, 80 págs., R$ 26

HOTEL SAVOY

Autor: Joseph Roth

Tradução: Silvia Bittencourt

Editora: Estação Liberdade, 184 págs., R$ 38

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