José Zaragoza inaugura exposição de pinturas em São Paulo

Mostra do artista começa hoje e apresenta visões noturnas criadas pela ameaça de furacão em NY

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2012 | 03h08

A vida vista através das janelas pode assumir uma dimensão simbólica, como no clássico filme de Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta - em que se estabelece uma relação voyeurística entre o espectador e a tela do cinema -, ou tremendamente real, caso das pinturas que José Zaragoza mostra na exposição que inaugura hoje a Galeria Canvas-SP. Elas, segundo o artista, "foram inspiradas pelo medo que tomou conta dos nova-iorquinos que moravam em prédios, no verão de 1985", quando circulou a notícia que um furacão, vindo de Long Island, iria arrasar Nova York em três dias. Zaragoza, que filmava um comercial na cidade e tinha um apartamento em Tribeca, ficou igualmente com medo, como qualquer morador, ainda mais quando viu que todos os vidros dos prédios amanheceram cobertos com fita crepe em forma de X para que não estourassem.

O curador da exposição, Emanoel Araújo, diretor do Museu Afro-Brasil, considerou a ideia de criar obras de arte "a partir de um elemento tão pouco inspirador e prosaico" um desafio que Zaragoza aceitou e transformou num jogo de relações entre elementos díspares - a sugestão expressionista de vultos através da janela contra o formalismo geométrico ditado pelas esquadrias. Araújo destaca uma pintura na mostra que, diz ele, se caracteriza pelo realismo estrutural. Trata-se de uma estrutura metálica que imita a moldura de uma janela que se abre. "É uma pintura objeto que sugere movimento e até pede a participação do espectador."

É o único exemplo na mostra passível de manipulação. Nas 34 telas restantes da exposição, o espectador volta à contemplação, assumindo o ponto de vista do artista. A exemplo de Vermeer e Matisse, que pintavam paisagens vistas através da janelas de seus ateliês, tentando conjugar interior e exterior, Zaragoza é um voyeur, que costuma subir ao topo do prédio onde está instalada a agência de propaganda que fundou com Duailibi e Petit, a DPZ, para observar a vista noturna de São Paulo, tentando adivinhar o que se passa por trás das janelinhas e janelões da metrópole.

Como o personagem de James Stewart em Janela Indiscreta, um fotógrafo confinado em seu apartamento do Village, Zaragoza voltava à noite para o ateliê de Tribeca para retratar o clima pesado de Nova York, tentando adivinhar o que se passava atrás de cada uma das janelas iluminadas dos apartamentos de Nova York. "Para mim, era uma impossibilidade ver figuras concretas, que se transformavam em formas abstratas." O arranjo cromático desses trabalhos acabou ajustando a "lente" para um registro impressionista da metrópole, ao retratar a paisagem americana como um Philip Guston na passagem da figuração para a abstração.

"Zaragoza sempre me sugere uma emoção que mais faz pensar numa visão surrealista e expressionista ao mesmo tempo", escreve Emanoel Araújo no catálogo, observando que essa série - que o pintor começou há 27 anos e resistiu em mostrar até agora - "ingressa de corpo e alma na geometria".

O pintor, aos 82 anos, pretende seguir outro caminho após a mostra. Quer fazer uma releitura de Olympia, a realista tela de Manet pintada em 1863, inspirada na Vênus de Urbino, de Ticiano, que tomou emprestado o tema de Giorgione. "Não será uma Olympia séria como a de Manet, mas uma visão tropicalista", adianta. Manet, como se sabe, provocou um escândalo ao retratar uma prostituta nua. Zaragoza, que tem uma série de desenhos eróticos já exposta, sabe que os tempos são outros.

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