José Saramago revisita o mito de Don Juan

Fã ardoroso da clássica ópera de Mozart, o prêmio Nobel de Literatura de 1998 José Saramago entusiasmou-se com a idéia do músico italiano Azio Corghi, que sempre gostou da musicalidade das palavras do escritor, de que ambos compusessem juntos uma ópera com ato único, original, para ser apresentada no Teatro Scala de Milão.Depois de um ano de efervescente criação conjunta, os dois amigos criaram Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido, cujo texto a Companhia das Letras lança nesta semana. Trata-se de mais uma releitura do releitura de um conhecido "mito literário", o de Don Juan, nascido El Burlador de Sevilla (O Embusteiro de Sevilha), de Tirso de Molina, surgida em 1630.Um de seus planos iniciais era fazer um Don Giovanni um tanto borgiano, talvez um pouco kafkiano, mas a idéia não foi concretizada. Por que? Pareceu, para o senhor, que a estratégia resultaria mais positiva do ponto de vista literário que dramatúrgico?A resposta já está na pergunta. Um Don Giovanni não só borgiano, mas também kafkiano, seria um autêntico quebra-cabeças para o escritor que se arriscasse a tal empresa. Talvez no quadro de um romance isso fosse possível, mas seria preciso virar a personagem do avesso e transformá-la em algo que acabaria por ter pouquíssimos pontos comuns com o Don Giovanni tradicional em suas diferentes versões. E não era isso que pretendíamos, Azio Corghi e eu.Quais outras obras o senhor gostaria de revisitar como fez com Don Giovanni?Actualmente o meu trabalho está centrado no romance, em todo caso um romance menos interessado em contar histórias que em ser um veículo para a reflexão, como vem acontecendo desde Ensaio sobre a Cegueira. Não tenho projectos para a revisitação de outras obras, mas também é certo que nunca me tinha passado pela cabeça que um dia me atreveria com Don Giovanni...No texto de introdução, o senhor lembra que decidiu aceitar o convite de Azio Corghi quando lhe surgiu uma boa idéia, mas, em seguida, faz uma ressalva: ?suspeito agora de que não seria tão boa quanto ao princípio me tinha parecido?. O que pretendia dizer com isso?Digamos que se tratou de uma manifestação de modéstia do autor... Verdadeira, ou falsa. No entanto, e com esta observação tento absolver-me, todos sabemos que a obra realizada é sempre uma imagem mais ou menos pálida da obra sonhada. Já não será mau que a distância entre uma e outra não seja demasiado grande.Um veterano ator brasileiro, Walmor Chagas, encena atualmente um texto próprio em que, entre outras coisas, afirma que a musicalidade do texto de Shakespeare só é bem expressa e bem entendida em inglês - quando traduzido para o português, por exemplo, perde-se muito dessas qualidades. Ao escrever em português "Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido", o senhor se preocupava com a escolha das palavras de forma que, ao serem vertidas para o italiano, não perdessem sua riqueza própria, a despeito da proximidade entre o italiano e o português?Houve alguém que disse que traduzir um verso é como empalhar um raio de lua. Toda a tradução é, ao mesmo tempo, traição e recriação. Walmor Chagas tem razão, tanta como se estivesse a referir-se, por exemplo, a uma tradução de Grande Sertão, Veredas para inglês. Quanto ao Don Giovanni, como não sei italiano, não podia estar a pensar em equivalências. E mesmo que conhecesse a língua, também não o faria. Confio absolutamente na minha tradutora italiana, Rita Desti. De alguma forma ela é também José Saramago quando traduz.Seria o Coro a criação com mais inserções de Azio em relação aos demais personagens? E seria ainda o Coro aquele que mais contribui para ação desmistificadora pretendida pelo senhor?O propósito desmitificador não se contém apenas na acção das personagens, quer individuais, quer ?colectivas?, como é o caso do coro. Creio que conseguimos um bom equilíbrio entre as diferentes contribuições: musicais, textuais e dramatúrgicas.Em um certo momento na troca de correspondência entre vocês, Azio questiona: ?Estaremos bem seguros de que um Don Giovanni pode ?mudar de pele? definitivamente??. Assim, qual é a maior dificuldade ao traçar o percurso de um personagem já existente, com um passado já definido?Ninguém ?muda de pele? definitivamente, portanto Don Giovanni, o mais volúvel dos homens, não poderia ser excepção. Mas, ao contrário do que a pergunta sugere, Don Giovanni não tem um passado definido. Vem ?mudando de pele? desde Tirso de Molina e certamente não irá ficar muito tempo como Azio Corgi e eu o vimos. Outras versões virão porque tudo é movimento e mudança.Em muitos casos, Don Giovanni é um personagem mostrado por diversos autores como uma figura caricata, símbolo da cultura retrógrada como o "Don Giovanni na Sicília", de Bracanti, ou como o melhor caminho para se pintar um retrato da sociedade vitoriana, como fez Bernard Shaw em "Homem e Super-homem". Ao criar o seu Don Giovanni, o senhor levou em consideração essas outras versões?Embora conheça algumas das releituras do mito de Don Giovanni, a minha única referência absoluta foi a ópera de Mozart e, em particular, o libreto de Lorenzo da Ponte. Digamos que tive a ambição de acrescentar um acto mais ao Don Giovanni mozartiano... Espero que me seja perdoada a presunção.Por que Don Giovanni não é vigorosamente desmistificado? Seria por se ele o modelo do pecado e não da virtude?Ao contrário do que parece pensar-se, o meu propósito não foi tanto desmistificar Don Giovanni como pôr a descoberto a hipocrisia do comportamento das restantes personagens principais, isto é, Comendador, Dona Ana, Don Octávio e Dona Elvira. Todos eles têm sido apresentados como vítimas inocentes do malvado Don Giovanni, e a verdade é que não encontro qualquer tipo de inocência em nenhum deles. O meu texto é bastante claro a este respeito.Por que são justamente duas mulheres, Elvira e Zerlina, quem tanto humilha Don Giovanni (a primeira) como o absolve e o salva (a segunda)? Deveria caber mesmo a uma mulher o gesto final que abre a dimensão da esperança e, ao corrigir Giovanni, lhe restitui a glória pela fragilidade reaprendida?No geral, ainda que sem esquecer as excepções de um lado e do outro, penso que as mulheres são melhores que os homens. No particular, isto é, como escritor criador de ficções, tenho-me rendido à força com que se me apresentaram as minhas personagens femininas. Começou em Manual de Pintura e Caligrafia e não parou nunca até esta Zerlina de Don Giovanni. Nunca gostei de Dona Elvira nem de Dona Ana. Também são mulheres, mas, neste caso, não é razão suficiente...Isso acontece por não ser Don Giovanni, no seu entender, um sedutor, mas um homem permanentemente seduzido?Don Giovanni é incapaz de ficar indiferente na presença de uma mulher. A ária do catálogo de Leporello é perfeitamente elucidativa a esse respeito. O que sucede é que, sendo constantemente seduzido, é também constantemente sedutor. A dicotomia entre seduzir e ser seduzido é mera aparência, não tem realidade. Ninguém seduz se não é seduzido, ninguém é seduzido se não seduz."Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido" representa um novo caminho no percurso artístico que o senhor trava com Azio. O que se pode esperar a partir de agora?Estou nas mãos do que meu querido Azio Corghi. Se ele amanhã tem uma ideia e crê que a minha participação possa ser útil, já verei.A burlesca desentronização de poder do Comendador, quando ele não consegue enviar Don Giovanni para o inferno, foi-lhe o momento mais divertido na escrita?Não foi só divertido, foi como uma espécie de vingança. Os pais nobres do teatro burguês sempre me pareceram ridículos.Por outro lado, qual foi o momento mais difícil para se manter a coesão do discurso literário com o da ópera?Escrevi a minha história em plena liberdade e sobre ela compôs Azio Corghi a sua música. Entre um momento e outro nasceu o libreto final, o texto que os cantores e actores cantarão e declamarão no palco e que apresenta obviamente diferenças em relação à fonte original. Não houve portanto momentos difíceis, houve, sim, uma diálogo contínuo entre o compositor e o escritor.Ainda na correspondência trocada com Azio, o senhor afirma que sua maneira de trabalhar a peça não lhe permitia dar ?saltos? na ação dramática, ao contrário do que normalmente faz em sua escrita narrativa, marcada por diversas deslocações dos planos temporais. Como foi isso?O território do romance, pela sua vastidão, permite e muitas vezes reclama essas deslocações nos planos temporais, mas creio não ser esse o caso do teatro. A lógica de encadeamento é distinta, o teatro não suporta digressões, avança em linha recta. Nesse sentido, o teatro é implacável.

Agencia Estado,

31 de março de 2005 | 17h16

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