José Saramago lança novo romance

José Saramago ganhou o Prêmio Nobel em 1998. Sua vida, que já era agitada, complicou-se. O prêmio atrasou o projeto de escrever A Caverna, romance inspirado no mito utilizado pelo filósofo grego Platão. Mas, no último ano acelerou a composição do livro, para lançá-lo antes do final de 2000. Assim, chega às livrarias dos países de língua portuguesa no dia 16 de novembro, a obra que completa a "trilogia involuntária" que inclui os romances Ensaio sobre a Cegueira e Todos os Nomes e que, segundo o próprio autor, compõe sua visão de mundo neste fim-de-século.Os quatro personagens do livro - mais um cão - vivem a substituição dos pratos de louça pelos de plástico. O artesão Cipriano Algor, herdeiro de uma tradição familiar, vê seu trabalho tornar-se inútil. Muda-se, então, para o Centro, onde os negócios são feitos e onde a caverna de Platão assume uma versão contemporânea. Saramago explica que a imagem lhe surgiu em Lisboa, quando soube, por meio de uma enorme propaganda, da construção de um shopping center. Nessa entrevista, concedida por telefone do Chile, ele fala do processo que resultou no livro e afirma que a realidade superou em muito o mundo terrível criado por George Orwell, em 1984. Leia abaixo os principais trechos.Agência Estado - Por que o sr. decidiu retomar Platão?José Saramago - A história desse livro explicará melhor isto. O livro nasceu quando vi, em Lisboa, um grande anúncio de um centro comercial que seria inaugurado. Percebi que o centro comercial era algo que me servia para expressar umas quantas idéias e umas quantas preocupações. Mas foi só no dia seguinte, conversando com o meu editor em Lisboa e explicando a idéia que, de repente, ocorreu-me isso: de certa maneira, o centro comercial, o chamado shopping center, é também uma caverna. Entra-se nele como se entra numa caverna, não há janelas para o exterior, é um espaço fechado.No romance, o artesão é impedido de trabalhar com o avanço capitalista, um capitalismo de "plástico", como as louças que fabrica.O capitalismo já cá está há muitos anos, não é? O que eu quis dizer, com o recurso à olaria, ao artesão, é que um mundo está a acabar. Como nós sabemos, não são só as espécies animais e vegetais que vão desaparecendo, também há línguas que desaparecem porque não há quem as fale. E, tal como isso, há profissões que já não têm nenhum sentido, a sociedade atual já não precisa delas.O sr. tem uma visão bastante negativa da massificação do consumo que descreve.Provavelmente não é a visão que é negativa, o que é negativo é a realidade que está aí. Eu digo às vezes que certos aspectos da nossa realidade eram, até a tempos relativamente recentes, assimilados no interior de uma grande superfície, que era a catedral. Agora, nossa mentalidade não se forma na escola, na universidade. Forma-se no interior dessa outra grande superfície, que é o shopping center. Basta dar alguma atenção ao que se passa para ver que se forma uma nova mentalidade.E o sr. já está escrevendo o próximo livro?Não, não é possível. Tenho o lançamento em Portugal, depois a África, Angola e Moçambique, e só depois o Brasil. E depois, tenho a Argentina, o Uruguai e o Peru. Cheguei a Santiago há quatro dias e só voltarei à casa no dia 20 de dezembro.O sr. escreverá O "Livro das Tentações"?Depois de já ter falado tanto desse livro, era hora de eu terminá-lo, mas ele ainda não existe. Em todo o caso, tenho de satisfazer o compromisso da coleção Literatura ou Morte e escrever sobre Alexandre Dumas, pai. É a primeira coisa. Depois, irei começar com o livro, que se chamará, na verdade, O Livro da Lembrança. O pior, o melhor, é que nesses dias apareceu-me uma outra idéia que pode vir a dar um romance. Se ela insistir muito, terei de adiar o tal Livro da Lembrança. Mas ainda não posso falar dela.No livro, as pessoas são monitoradas, mas em dado momento elas conseguem escapar desse controle. O sr. acha que as pessoas estão sempre em busca dessa fuga?À primeira vista, parece que não, que elas se satisfazem com a situação que vivem. Mas eu tenho verificado que há uma grande inquietação no espírito de muita gente, porque elas não sabem para onde vão. E algumas suspeitam que sabem para onde vão e não querem isso. Tudo isso é muito difuso, mas há um estado latente de inquietação na sociedade que, de alguma forma, tentei reproduzir.Esse controle permanente da vida humana tem relação com 1984?O livro de George Orwell, que parecia tão terrível, é uma pálida coisa ao lado da realidade de hoje. Nossa conversa pode estar a ser gravada em qualquer parte. Nós sabemos que os EUA gravam entre 90% e 95% de todas as comunicações por fax e por telefone do mundo. O pior é que a sociedade não protesta, não se indigna, não reclama. É surpreendente como a humanidade aceita viver nessa maneira.A sua literatura é um manifesto em defesa do ser humano?Um romance nunca é um manifesto. É um apelo àquilo que, de alguma maneira, era nosso, que vinha de uma cultura que vem do Iluminismo e que está a ser transformado agora que me parece a realização plena de 1984, mas ultrapassada pontos inimaginados antes.A Caverna. Romance de José Saramago. Companhia das Letras. 352 págs. R$ 31,00. À venda a partir do próximo dia 16.

Agencia Estado,

10 de novembro de 2000 | 16h26

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