José Mindlin toma posse na Academia Brasileira de Letras

O empresário e bibliófilo José Mindlin respeita tanto a Academia Brasileira de Letras que não se deixou fotografar nas provas do fardão com que toma posse nesta terça-feira, da cadeira 29, que durante 52 anos foi ocupada pelo escritor Josué Montello. Há pelo menos duas semanas prepara seu discurso, em que elogia seus antecessores, como é praxe, mas também conta sua relação com livros e como formou sua biblioteca, a maior coleção privada do Brasil, com 38 mil títulos, muitos raros, alguns exemplares únicos no País. A novidade é que falará de improviso. "Por um problema de saúde, não consigo mais ler", lamenta. "Veja que injustiça!".Injusto mesmo, para quem, desde a adolescência, foi ligado à cultura em geral e aos livros em particular. Sua primeira aquisição, aos 13 anos, foi "Discurso sobre a História Universal", de Jacques Bossuet, tradução portuguesa de 1740. Não sossegou enquanto não comprou todos os livros que constavam da bibliografia. Ajudou muito ter começado a ganhar seu próprio dinheiro como redator do Estado, dois anos depois, em 1930. "Entrei em maio, fiz 16 anos em setembro e fiquei até 1934. Acho que fui o redator mais novo do jornal e hoje sou o mais antigo", brinca. "Foi uma experiência fantástica porque era época da Revolução de 30 e o doutor Júlio Mesquita, um dos líderes, me encarregava de passar as instruções para seus aliados em inglês para despistar a censura."Essa jovialidade é a marca de Mindlin, que alega ser "o mais novo e talvez o mais velho membro da Academia Brasileira de Letras." Em seu discurso, ele vai lembrar três amigos que o ajudaram a formar sua biblioteca, libertários como ele. Rubens Borba, que foi diretor da Biblioteca Nacional e do acervo da ONU, Luiz Camilo de Oliveira, que dirigiu biblioteca do Itamaraty e foi um dos redatores do Manifesto dos Mineiros (a primeira iniciativa de oposição ao Estado Novo, em 1943) e o crítico literário Antônio Cândido. Vai falar também dos muitos amigos que fez na Casa de Machado de Assis e que, praticamente, o obrigaram a se candidatar. "Para mim foi um acaso, nunca tinha pensado, até porque sou mais leitor que escritor", conta. Foi eleito quase por unanimidade, com 33 dos 37 votos válidos. Houve um branco e duas abstenções, de Paulo Coelho e Ariano Suassuna. "Acho que o Suassuna foi por distração."Mindlin é autor de três títulos autobiográficos, "Uma Vida entre Livros", "Memórias Esparsas de uma Biblioteca" e "Destaques da Biblioteca de Guita e José Mindlin", mas sempre foi um disseminador de livros. O que prova que a Casa procura hoje em dia, mais que autores com larga obra impressa, pessoas que tenham importância para a cultura do País. E Mindlin não pára, aos 92 anos de idade. "Faço parte de uma comissão paulista para implantar uma biblioteca em cada município de São Paulo e pretendo ampliar essa campanha em nível nacional", promete. "Existem no Brasil 5.000 bibliotecas, mas temos que ver se elas são vivas ou são apenas depósitos de livro."Na festa desta terça, ele vai reunir toda a família, três filhas, um filho e 12 netos, parentes e aderentes. "Só eles já enchem o salão do Petit Trianon", garante. Só vai faltar dona Guita, sua companheira por 68 anos, único motivo de tristeza na festa. Eles viveram um romance que começou na Faculdade de Direito de São Paulo, ficou sério devido à paixão comum pelos livros (ela até virou restauradora para cuidar de sua coleção de raridades) e durou até poucos dias depois da eleição dele para a ABL. Dona Guita recebeu os amigos que foram abraçá-lo, fez as honras da casa feliz pelo sucesso do marido, mas faleceu poucos dias depois. "É claro que ainda não me recuperei da falta que Guita me faz. Até queria adiar a posse, mas a Academia, que está com o quadro completo, quer ter todos empossados até o fim do ano."Ele só não promete vir ao Rio todas as quintas-feiras para o chá e a sessão. "Sou da Academia Paulista e tenho que alternar aqui e lá, para não causar ciumeira", avisa. Mas ele promete se um imortal modelo, lutando pela cultura, pela disseminação da leitura e pelo acesso fácil ao livro. "Não me levo a sério, mas tomo muito a sério tudo que faço", garante. "Além disso, tem a convivência agradável com todos estes amigos da Academia."

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