José Mindlin conta sua vida entre os livros raros

O empresário e colecionador José Mindlin precisou disputar algumas das raridades de sua extensa biblioteca com outros colecionadores, inclusive o descendente do imperador Pedro II, dom Pedro de Orleans e Bragança, mas só por causa de sua obsessão: a coleção Brasiliana, que reúne tudo o que você sempre quis saber sobre a história do Brasil, da Colônia a Lula, mas não teve meios de consultar. Parte dessa história está contada no livro que Mindlin lança hoje, Memórias Esparsas de Uma Biblioteca, ao lado de sua assistente Cristina Antunes, autora de Memórias de uma Guardadora de Livros. Os dois títulos completam um ao outro. No primeiro, Mindlin conta como formou sua histórica biblioteca de mais de 35 mil volumes. No segundo, Cristina Antunes, conservadora desse tesouro há mais de 20 anos, relata desde o primeiro contato com o empresário até o destino da Brasiliana, 15 mil títulos que vão para a Universidade de São Paulo (USP) assim que estiver pronto o prédio para abrigar o segmento mais importante da biblioteca do colecionador. Várias universidades americanas mostraram interesse na biblioteca, que tem, entre outras preciosidades, uma raríssima edição em português da História do Brasil de Robert Southey, seis volumes publicados pela Garnier em 1862. Foi, aliás, o interesse por assuntos brasileiros que levou o empresário, descendente de judeus russos, a formar uma biblioteca. Aos 13 anos, ganhou uma edição de História do Brasil, de frei Vicente de Salvador, um cronista do século 17, e os seis volumes de Southey. Aos 15 anos e meio, começou a trabalhar no Estado. "Foi um período excepcional na minha vida", relembra o advogado e empresário, que completou 90 anos no último dia 8. Nesse período, Mindlin já era um ávido leitor de Machado de Assis e de Anatole France. Ficou amigo de editores como José Olympio e de grandes intelectuais como Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Milliet e Rubens Borba de Moraes. Este último, que ajudou a planejar a Semana de Arte Moderna de 1922, foi quase um irmão para Mindlin. Deixou sua cobiçada biblioteca - que cobre o Brasil do século 16 ao 19 - em testamento para o amigo. Mindlin passou a viajar com freqüência em busca de tesouros perdidos nos antiquários especializados. Conseguiu até a primeira edição de Os Lusíadas, de 1572. "Consegui até ser recebido na Meca dos bibliófilos, a Maggs Bros., onde encontrei livros ótimos como Triunfos de Petrarca, impresso em Veneza em 1488, além de ser admitido no salão reservado com as obras mais raras, privilégio concedido a poucos bibliófilos no mundo", conta.Memórias Esparsas de uma Biblioteca - De José Mindlin. Memórias de uma Guardadora de Livros. De Cristina Antunes. Escritório do Livro/Imprensa Oficial. Caixa com os dos volumes: R$ 38. Lançamento hoje, às 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2.073, 3170-4042)

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