Epitacio Pessoa/AE
Epitacio Pessoa/AE

José Mayer e Tiago Abravanel se superam nos palcos

Atores estreiam na sexta-feira, 09, em São Paulo, o clássico 'Um Violinista no Telhado' e o sucesso 'Tim Maia - Vale Tudo'

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2012 | 20h27

A trajetória é semelhante. Dois musicais que fizeram estrondoso sucesso no Rio, Um Violinista no Telhado e Tim Maia - Vale Tudo, estreiam na sexta-feira em São Paulo. E ambos trazem a marca da superação de seus protagonistas: José Mayer e Tiago Abravanel iniciaram meio titubeantes, pois enveredavam por caminhos novos em suas carreiras. O resultado, porém, foi extremamente positivo, permitindo que Mayer deixasse de lado a fama de galã de novela das 9 para se lançar como ator que canta, além de transformar o jovem Abravanel em uma das grandes revelações do teatro em 2011, apesar de já contar com sete musicais no currículo.

“Hoje, posso cravar sem receio de que é o melhor papel da minha carreira”, comenta Mayer. “Já interpretei Calígula, Jasão, Peer Gynt, do Ibsen, mas nenhum deles me ofereceu o desafio de ampliar minhas possibilidades de ator.” Aos 62 anos e com um visual que destoa do conquistador habitualmente visto na TV - hoje cultiva uma vistosa barba além de manter os cabelos ligeiramente desgrenhados -, Mayer vive, em Um Violinista no Telhado, o leiteiro Tevye, morador de Anatevka, um vilarejo judeu encravado na Rússia czarista, no início do século passado.

Pai de cinco filhas, ele se vê diante de uma crise quando três delas - Tzeitel (Rachel Rennhack), Hodel (Malu Rodrigues/Karina Mathias) e Chava (Julia Fajardo) - desafiam a tradição ao recusar casamentos arranjados. “É o Rei Lear dos musicais”, observa o ator. Enquanto tenta resolver o problema ao lado da esposa Golda, vivida por Soraya Ravenle, Tevye enfrenta ainda uma questão mais grave, que é a hostilidade de grupos russos orientados pelas diretrizes antissemitas do czar. Ou seja, a pacata Anatevka é assolada por perseguidores de judeus.

Tradições. Considerado um dos grandes musicais dos anos 1960 (foi o primeiro da história do teatro americano a ficar em cartaz por mais de sete anos), Um Violinista no Telhado, que estreia no Teatro Alfa, parte das tradições judaicas para mostrar sentimentos mais gerais, como amor à terra em que se vive e filiação. “Trata-se do primeiro musical americano em que não há glamour como seus antecessores, ou seja, todos os personagens são pobres”, lembra Claudio Botelho que, ao lado de Charles Möeller, é responsável pela criação artística geral do espetáculo - a produção tem a assinatura das empresas Aventura e Conteúdo Teatral.

Com canções de Jerry Bock e Sheldon Harnick e criativa coreografia de Jerome Robbins (mantida na montagem brasileira), o musical estreou na Broadway em 1964 e ganhou uma versão cinematográfica em 1971. A primeira teve Zero Mostel no papel principal, enquanto para a tela grande o eleito foi Topol, dono de interpretações que se tornaram hits de musicais. “Tevye exige uma das maiores entregas vocais de personagens masculinos entre os espetáculos da Broadway”, explica Claudio Botelho. “Suas canções se alternam entre temas judaicos suaves e bem-humorados (como If I Were a Rich Man), passando por fortes e dramáticos solilóquios e chegando ao extremo lirismo em um emocionante dueto com a mulher Golda (Do You Love Me?).”

“Topol deixou uma marca poderosa que, se não deve ser rigorosamente seguida, também não pode ser desprezada”, comenta Mayer, que sempre quis participar de musicais, um desejo que se intensificou há pelo menos três anos, quando começou a frequentar aulas de canto. “Em 2002, ele foi muito bem na audição que fizemos para Folies, de Stephen Sondheim, que infelizmente não saiu do papel”, conta Charles Möeller. “O convite foi mantido, mas sua participação nas novelas não permitia, até surgir uma brecha.”

Estado - Você ainda acredita ser esse o principal papel de sua carreira?

José Mayer - Com certeza. Não só no teatro, como apontou outro caminho na TV, pois tive a opção de escolher o papel de Pereirinha, em Fina Estampa, e não pelo Paulo, que seria o habitual na faixa romântica.

Estado - O que a música adicionou?

José Mayer - Ela expandiu meus recursos como ator. A comunicação pela música parece alcançar mais o âmago, a intuição do espectador. Algo que nem sempre a palavra falada consegue.

Estado - E o esforço vocal?

Descobri ser necessário preparo físico de atleta. Mas a partitura do personagem é muito adequada à minha voz de barítono.

Situação distinta foi vivida por Tiago Abravanel. Conhecido no meio dos musicais paulistas (participou das montagens de Miss Saigon e Hairspray, entre outras), ele ainda não participara de uma produção inspirada em história nacional. Assim, quando o diretor de Tim Maia - Vale Tudo, o Musical, João Fonseca, percebeu a presença do ator de 24 anos na audição e desconfiou: que fazia ali o neto do apresentador Silvio Santos, um branco querendo interpretar Tim Maia? 

Bastou Tiago soltar o vozeirão para o diretor não ter mais dúvida. “O fraseado, a expressão, a voz... o Tim já estava ali”, disse Fonseca, que escalou ainda atores para viver figuras célebres como Roberto e Erasmo Carlos, Elis Regina, Jorge Benjor, Carlos Imperial, Chico Buarque. “Nem foram necessárias aulas de canto, todos já vieram totalmente preparados.”

Inspirado no livro Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia (Editora Objetiva), de Nelson Motta, o musical, que estreia no Teatro Procópio Ferreira, acompanha a trajetória de Tim Maia desde a adolescência, quando estava com 13 anos, até sua morte, em 1998, com 55. “Vivo, assim, diversos momentos de sua vida, muitos sem nenhum registro histórico - apenas recuperado pelos depoimentos de amigos”, conta Abravanel, acompanhado por outros dez atores, além da banda que se apresenta ao vivo. “Assim, meu maior desafio foi criar esse personagem de forma coesa.”

Para isso, ele contou tanto com o auxílio de Motta como do diretor João Fonseca. “Fui amigo do Tim a vida inteira, sabia tudo dele. Então foi fácil e muito prazeroso escrever, porque o João Fonseca me ajudou muito com a sua visão teatral, cênica de espetáculo. Sou de uma escola jornalística, narrativa, linear, e ele me estimulou a criar cenas livremente”, observa Motta, cronista do Estado.

O musical conta, assim, a história do músico por meio de blocos temáticos que são ilustrados por clássicos de Tim Maia. Vale lembrar que grandes sucessos como Vale Tudo, Do Leme ao Pontal, Azul da Cor do Mar, Primavera, Não Quero Dinheiro, Chocolate, Gostava Tanto de Você, Sossego e Você são ouvidos e cantados.

O grande desafio enfrentado (e vencido) por Tiago Abravanel era não apenas criar uma cópia de Tim Maia. “Ao longo do espetáculo, eu mudo os gestos e a maneira de falar”, conta o ator, que tem ainda o auxílio da caracterização. “Criei meu personagem a partir das informações que recebi e também de vídeos.”

Por conta disso, o musical oferece um grande painel da trajetória do músico, desde a infância pobre no bairro carioca da Tijuca, o contato com a música e as primeiras bandas que integrou, como Tijucanos do Ritmo, The Sputniks e The Snackes, quando conheceu Roberto Carlos, Jorge Benjor e Erasmo Carlos.

O diretor musical e arranjador Alexandre Elias optou por reproduzir a estética sonora da Vitória Régia, banda formada por Tim em 1976 e que o acompanhou por 22 anos. “Tim foi o precursor da soul music no País, voltou dos EUA muito influenciado pelo som da Motown e criou por aqui aquilo que se chama de ‘música preta brasileira’”, conta ele, lembrando-se de quando Tim, em 1959, passou pelos Estados Unidos, de onde foi deportado por roubo e porte de drogas.

“Meu maior desafio foi participar de um musical tipicamente brasileiro, o que é diferente do que eu vinha fazendo até então, que eram espetáculos inspirados na Broadway”, conta Tiago. “Aqui, não temos aquelas características trocas de cenários. E, da minha parte, tive de adaptar minha voz, que foi treinada para musicais americanos e não para o estilo como o do Tim.”

O esforço foi plenamente recompensado - mais de 100 mil pessoas já viram musical desde a estreia no Rio, em agosto do ano passado, alçando Tiago à condição de astro. “Claro que tudo isso é maravilhoso, mas confesso que só aumentou meu nervosismo com a estreia em São Paulo. Afinal, aqui está minha família, foi onde comecei. Espero não decepcionar.” 

Estado - O Tim músico sempre foi conhecido, mas não o da intimidade. Como foi trabalhar tal aspecto?

Tiago Abravanel - Esse é o grande barato do espetáculo. O Tim dos shows é conhecido. Nosso desafio foi mostrar seu comportamento a partir de depoimentos e relatos históricos. Descobri sua bipolaridade, a depressão e solidão que inspiraram suas músicas. O que evitamos foi criar um cover do Tim. Não é um show.

Estado - Você estava habituado a fazer musicais americanos. Como foi fazer um tipicamente nacional?

Tiago Abravanel - No começo, foi difícil. Por ter um canto voltado ao musical americano, comecei a cantar as músicas do Tim de uma forma muito pop. Logo descobri seu jeito de soul brasileiro.

UM VIOLINISTA NO TELHADO

Teatro Alfa. R. Bento Branco de Andrade Filho, 722, 5693-4000. 5ª, 21h; 6ª, 21h30; sáb., 17h (a partir de abril) e 21h.; dom., 17h. R$ 40 a R$ 200. Estreia sexta, 09/03.

TIM MAIA - VALE TUDO

Teatro Procópio Ferreira. Augusta, 2.823, tel. 3083-4475. 5ª e sáb., 21h; 6ª, 21h30; dom., 18h. R$ 50 a R$ 150. Estreia sexta, 09/03

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.