José Lewgoy fala da vida

Nem lhe falem em aposentadoria. Aos 80 anos, que completa na quinta-feira - nasceu em Veranópolis, no Rio Grande do Sul, em 16 de novembro de 1920 -, José Lewgoy continua encontrando prazer no trabalho. Ele vem de uma estada de um mês em Portugal, onde gravou sua participação na minissérie Os Maias, que Maria Adelaide Amaral adaptou do romance de Eça de Queirós, para a direção de Luiz Fernando Carvalho. E se prepara para outra participação que antecipa prazerosa. No filme que André Sturm roda sobre a Revolta da Vacina - Sonhos Tropicais -, Lewgoy integra, com Hugo Carvana e Antônio Pedro, o coro grego que pontua a ação. Suas cenas serão rodadas na Confeitaria Colombo, cenário de tantas produções do cinema nacional. "Eu mesmo já filmei lá; lembra da cena do champanhe, quando eu brindava com Veuve Clicquot em Ibrahim do Subúrbio?"Os 80 anos terão uma comemoração pública e outra privada. A pública fica por conta do Canal Brasil (Net/Sky), que exibe na quinta um Retratos Brasileiros em homenagem a Lewgoy, retraçando sua carreira. Depois, a partir do dia 22, o canal exibe uma programação com diversos filmes do ator. A comemoração privada será um jantar com os amigos. Na sexta, Lewgoy vai a Porto Alegre para um almoço em família. E, na segunda, estará em São Paulo para uma comemoração muito especial. Ele adorou os garotos com quem gravou Os Maias em Portugal. "Como eles são loucos pelo McDonald´s, combinei de comemorar o meu aniversário com eles comendo hambúrguer com fritas e refrigerante."Sua fama é de notório mal-humorado. Está lá na enciclopédia do cinema brasileiro que ele tem temperamento difícil. Ele diz que não é nada disso. É exigente, consigo mesmo e com os outros. Some-se a isso a inveja dos colegas e criou-se o mito do artista genioso. "Como posso ser mal-humorado se os meus maiores amigos são humoristas?", pergunta. Cita os nomes - Chico Caruso, Millôr Fernandes, Luis Fernando Verissimo. Em Porto Alegre, vai encontrar aquelas a quem chama, carinhosamente de "minhas três velhas" - Mafalda Veríssimo, viúva do escritor Érico Veríssimo, Diná Gastal, viúva de Paulo Fontoura Gastal, o Calvero, o mais famoso crítico de cinema do Rio Grande e Eva Sopher, a benemérita do Teatro Municipal da capital gaúcha. Fernanda Fernandes/AEYale - Filho de pai russo e mãe americana, Lewgoy nasceu no Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, nos anos 40, integrou a equipe de tradutores da Editora Globo, trabalhando com Érico Veríssimo e o poeta Mário Quintana. Foi Érico que lhe abriu as portas para que fosse estudar em Yale. Já era ator de teatro. Voltou mudado, com o talento aprimorado. Walmor Chagas diz que ele foi o primeiro ator moderno do cinema brasileiro. Explica o que isso quer dizer. Ele trouxe um outro estilo de representar, que não aquele do teatrão ou do teatro de revista, que dominavam o cinema brasileiro da época.Embora formado nos EUA, nunca foi um ator do Método, no sentido stanislavskiano. Seus modelos foram os grandes atores franceses - Jean Gabin, Louis Jouvet, o lendário Raimu, atores que, como ele diz, "não tinham vergonha de representar, nem tentavam disfarçar que estavam representando". Conta que sempre se aproximou dos personagens de fora para dentro, nisso diferençando-se dos atores formados na escola de Stanislavski, no célebre Actors´Studio. Cita Laurence Olivier. "Quem constrói o personagem de dentro para fora termina fazendo a si mesmo."Virou vilão por acaso. Watson Macedo ia fazer Carnaval no Fogo com Luís Tito, um ator que integrava a companhia de Dulcina de Morais, como vilão. Macedo achava que o vilão tinha de ser alto, forte. Quando Tito caiu fora, um assistente propôs Lewgoy. "Cheguei no set magrinho, pequenino; o Watson ficava o tempo todo me ironizando." Só que quando o filme ficou pronto, o próprio Macedo e mais o público, os críticos, todos se uniram numa rara unanimidade em favor de Lewgoy. Ele prosseguiu na Atlântida fazendo papéis de vilão até Matar ou Correr, a paródia que Carlos Manga fez do western (supervalorizado) Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann.Gostava de fazer o vilão e fazia bem, mas aquilo não tinha muito a ver com seu temperamento. Era um trabalho de ator. Depois de Matar ou Correr cansou-se e foi para a França, onde ficou dez anos. Viveu lá, trabalhou lá e poliu os modos refinados e a cultura que o levam a ser reconhecido como um dos mais cultivados (senão o mais) dos atores brasileiros. Tão cultivado que o chiquíssimo Gilberto Braga sempre o coloca em suas novelas. Lewgoy considera "Louco Amor" a melhor parceria dos dois. "O Gilberto conhece minhas virtudes e limitações, sabe até onde eu posso ir."Maria Adelaide Amaral é outra que escreve bem, como Braga. Lewgoy gostou muito do trabalho dela no remake de O Anjo Mau. Gostou mais ainda da adaptação de Os Maias. Estende os elogios ao diretor Luiz Fernando Carvalho. "É severo exigente, mas muito competente." Faz o abade Custódio, que se opõe ao personagem Afonso. Um é ateu, o outro, religioso. "Ele aparece no começo da minissérie, quando o Carlinhos da Maia ainda é garoto." Carlinhos é o protagonista da minissérie. Adulto, é interpretado por Fábio Assunção, com quem Lewgoy não chega a contracenar.O vilão mais famoso do cinema nacional sobreviveu à derrocada da Atlântida (e das chanchadas). Fez, no papel de Vieira, o cult Terra em Transe, de Gláuber Rocha. Sabe que Gláuber é um ícone, mas se arrisca a polemizar dizendo que o que acha que vai sobrar na história do cinema brasileiro são as chanchadas que fez. "Elas ecoavam o clima da época; mostravam um Brasil que ainda era feliz." Com o Cinema Novo, diz que o cinema brasileiro entristeceu. Vieira recria, numa vertente mais elaborada e intelectual, os vilões da chanchada. E essa linha prossegue em filmes como Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite, em que Lewgoy, opondo-se ao personagem de Paulo José, é o carrasco dos sonhos daquela geração que queria mudar o mundo nos anos 60. E chega a Faca de Dois Gumes, de Murilo Salles. Não tem uma opinião muito lisonjeira desse filme, nem do diretor - um dos mais talentosos do cinema brasileiro. "Diminuiu minha participação porque tinha medo que minha presença revelasse quem era o crimninoso; quem mais podia ser?"Teatro - São mais de 130 filmes, novelas e minisséries. Quem for pesquisar sobre ele na Internet vai encontrar páginas e páginas de informações. Por temperamento, não é muito de olhar para trás, prefere encarar o futuro. Mas não se furta a uma constatação, na passagem dos 80 anos. Lamenta não ter feito mais teatro. O último papel importante no palco foi em O Jardim das Cerejeiras, nos anos 80. Até pela origem russa da família, acha que entendia a complexidade e o sentimento de Chekhov. Os críticos não lhe pouparam elogios. No último dia da peça em cartaz, resolveu que ia representar para ele, como achava que o personagem devia ser. É uma das experiências mais gratificantes na vida artística.Acha, a propósito, que por mais que essa vida pública (e artística) lhe tenha fama, não se compara à vida privada, cheia de experiências e peripécias que o levam, em avaliação que só ele pode fazer, a considerar essa última mais importante que a outra. Vivem lhe cobrando uma autobiografia. "Tenho vontade de puxar um revólver, cada vez que me falam nisso." Autobiografia, não, mas livro de memórias, sim. Promete que um dia ele sai. Fernanda Fernandes/AE"Só existe um ator que o Klaus respeita no mundo - é um ator brasileiro chamado José Lewgoy."Diz que tem um dom - fala com as crianças de igual para igual, não como um adulto falaria com elas. Diante do seu computador, comporta-se como uma criança. Instalou um programa divertidíssimo para liberar a energia acumulada, a violência reprimida. Um martelo destrói todos os ícones da tela. Depois, aparece uma vassourinha que limpa todos os estragos e reconstitui tudo o que foi quebrado antes. Carrega grandes lembranças da carreira. Oscarito, com quem contracenou tantas vezes, era gênio. Era, não - é. Lewgoy fala nele no presente. "Ele tem aquela formação tremenda, no circo, no teatro de revista; improvisa muito e me leva a improvisar, também." Também fala no presente sobre Klaus Kinski, com quem trabalhou duas vezes em filmes de Werner Herzog - Fitzcarraldo e Cobra Verde. "Aquilo sim é que é um sujeito difícil, temperamental." Considera um elogio a frase que ouviu do irmão de Herzog. "Só existe um ator que o Klaus respeita no mundo - é um ator brasileiro chamado José Lewgoy."O apartamento, em frente à Lagoa Rodrigo de Freitas, é cheio de troféus. Há Candangos, a estatueta do Festival de Brasília, por todo lado. Prêmios nunca lhe faltaram, mas ele lamenta não ter recebido o Saci, que o Estado dava nos anos 50 e 60. "Era um prêmio muito prestigiado, teria sido importante para mim." Admira a cultura oriental - as gravuras japonesas e os romances de Mishima. E tem pronta a fórmula, se alguém lhe cobra uma autodefinição. Albert Camus é seu ídolo e Mersault, de O Estrangeiro, um dos personagens com quem mais se identifica. Aquele homem que mata sem saber por que e vê da janela a vida passar é um pouco ele. Gostou muito da adaptação que Luchino Visconti fez do romance. "É um filme que as pessoas gostam de esnobar; eu, não." Mas Mersault é só uma das faces em quem Lewgoy se reconhece. "Quer saber quem sou eu?", pergunta. E logo responde - "A resposta está em Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas; aquele gato que sorri, desaparece e fica só o sorriso, sou eu."

Agencia Estado,

14 de novembro de 2000 | 16h43

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