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José Eduardo Agualusa lança livro

No romance 'Teoria Geral do Esquecimento', o angolano fala sobre o medo do outro

UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo,

13 de novembro de 2012 | 02h10

Temerosa com os violentos acontecimentos da guerra civil em Angola, Ludovica (ou Ludo, como é conhecida) ergue uma parede que separa seu apartamento do resto do edifício onde vive. Assim, rodeada apenas por livros e por seu cachorro, ela passa 28 anos enclausurada, anotando seus receios em um diário. É por meio dessa fábula moderna que o escritor angolano José Eduardo Agualusa trata de um dos assuntos mais delicados do mundo moderno, o racismo.

O receio de Ludo de que as mortes e os saques provocados pelo conflito cheguem até seu lar é o tema de Teoria Geral do Esquecimento, mais um livro da nova editora Foz, cujo lançamento acontece nesta terça-feira, 13, no Sesc Vila Mariana, durante o projeto Sempre um Papo. Sobre o assunto, Agualusa respondeu por e-mail às seguintes questões.

Como foi o seu processo de escrita?

José Eduardo Agualusa - Ludo, a personagem principal do livro, viveu muitos anos dentro de mim. Não me recordo exatamente como nem quando surgiu. No meu diário - há mais de 20 anos que escrevo um -, encontro a informação de que, no dia 10 de janeiro de 2005, Jorge António, diretor de cinema português, casado com uma coreógrafa angolana, e que vive entre Angola e Portugal, veio propor-me uma ideia para um roteiro. Não gostei, mas lhe falei sobre o enredo para um romance, sobre uma velha senhora que se emparedou num apartamento, em Luanda, pouco antes da independência. Ele gostou da ideia e eu escrevi o roteiro, mas o filme nunca chegou a ser feito. Então essa mulher, a Ludo, continuou a crescer dentro de mim. Acho que nós escrevemos para nos libertarmos dos personagens. Ou melhor, para libertarmos esses personagens que crescem demais. Então, depois de escrever o Milagrário Pessoal, decidi que era tempo de libertar a Ludo. Foi um processo relativamente rápido, porque eu tinha sido a Ludo durante todos aqueles anos. Sabia como ela havia conseguido sobreviver, fechada em casa, durante três décadas.

Para um livro intitulado Teoria Geral do Esquecimento fala-se muito em memória. Há relação com outra obra sua, O Vendedor de Passados?

José Eduardo Agualusa - Sim. No Vendedor de Passados, há um homem que vende passados aos novos-ricos. Vende-lhes novas identidades. Então há pessoas que mudam de identidade, reescrevendo o próprio passado. Neste livro, há também pessoas que se transformam noutras, que mudam de nacionalidade e até de raça, como é o caso de um antigo mercenário português, através de um processo de esquecimento. Este mercenário, por exemplo, quer ser esquecido. Precisa que os outros o esqueçam, para sobreviver. Ele vive para esquecer. E, a partir de certa altura, converte-se no outro, no "inimigo", e assim se resgata e se salva. Com a protagonista acontece algo bastante semelhante. Este deve ser o meu livro mais otimista, porque todos os personagens se salvam. O livro inteiro é, no fundo, um discurso contra a xenofobia e o racismo.

O humor serve de antídoto à história trágica de Angola?

José Eduardo Agualusa - Creio que em todos os meus livros, mesmo nos mais sombrios, como é o caso de Estação das Chuvas, ou Barroco Tropical, há sempre gargalhadas. O humor, enquanto manifestação de inteligência e de lucidez, é regenerador. Ajuda-nos a reavaliar os nossos problemas. Essa capacidade de rir nos momentos de sombra é uma característica dos angolanos, e também dos brasileiros. Isso talvez nos distinga um pouco dos portugueses, que cultivam a melancolia, e se comprazem na própria desgraça. Nós não levamos as desgraças muito a sério.

Como foi criar o íntimo de Ludo, personagem tão dilacerada?

José Eduardo Agualusa - Creio que todos nós, em certos momentos, somos essa mulher. Todos sofremos com esse medo do que nos é estranho. Depois, se tivermos a coragem de avançar, de estender a mão, compreendemos que o que nos parecia estranho era apenas uma outra representação de nós mesmos. Da nossa humanidade. Nós mesmos, com uma outra roupa, uma outra pele, uma outra língua ou um outro sotaque. Tentei imaginar-me na pele desses portugueses, que conheci em Angola, e vez por outra encontro em Portugal, que viveram em África, mas sempre aterrorizados com o outro. Com os "pretos". Eu acordava de noite, na minha cama, e ficava pensando no que faria se estivesse no lugar da Ludo. Como iria comer, conseguir água? Eu sentia o terror dela. Escrever, afinal, é um permanente exercício de alteridade. Os escritores, como os meus personagens, estão sempre a mudar de raça.

Como foi a transposição de roteiro de cinema para romance?

José Eduardo Agualusa - Originalmente, era uma ideia para um romance - que virou um roteiro. Lendo meu diário, vejo que, na época, eu tinha dois projetos literários: um romance sobre essa mulher emparedada, e um outro sobre uma localidade chamada Macondo, no leste de Angola. A Macondo genuína, a única no mundo, antes de Gabriel García Márquez ter sonhado com esse nome e inventado, para nosso prazer, uma Macondo literária. Creio que o romance ficou muito diferente do roteiro. Tirando Ludo, e o garoto que a resgata, nem sei se os outros personagens existiam no roteiro. Creio que não. Há no livro outros personagens de que gosto muito, como um jornalista que coleciona desaparecimentos. Tenho a certeza de que nenhum estava no roteiro. O livro é melhor do que o "filme".

Parece não haver uma separação entre bons e maus na trama, algo quase impensável durante uma guerra. Como foi isso?

José Eduardo Agualusa - Guerras dão oportunidade às pessoas "boas" de serem "más", sem que ninguém as condene por isso. Pelo contrário, nas guerras as pessoas "más" são condecoradas, viram heróis. A verdade é que não existem pessoas más ou boas. Existem pessoas. Em ambientes e sociedades saudáveis, democráticos, as pessoas são incentivadas a expor e a melhorar o seu lado bom. Em ambientes maus, como as guerras, ou sob o horror de regimes totalitários, como o nazismo, os demônios irrompem do interior dos anjos. É necessária muita coragem para demonstrar bondade no meio de uma guerra ou num contexto de violência e de estupidez institucional, como uma ditadura. A maioria das pessoas, infelizmente, não tem essa coragem. Essa é a diferença entre democracias e ditaduras. Na democracia, é necessária alguma coragem para expor a maldade. Na ditadura, é necessária muita coragem para, simplesmente, ser "uma boa pessoa".

Você já disse que a realidade é mais surpreendente que a ficção. Mas não lhe parece impressionante o poder que a ficção tem de criar novas realidades?

José Eduardo Agualusa - Você tem razão. A realidade pode ser surpreendente, e muitas vezes é mais que a melhor ficção. O que acontece é que nós nos habituamos a ela. A ficção, porém, também pode interferir na realidade. Falei há pouco em Macondo. A Macondo, de García Márquez, ficou tão famosa que os leitores passaram a ir à Colômbia à procura dela. Então, os colombianos ergueram uma cidade chamada Macondo.

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