José de Anchieta revisa a arte da cenografia

Até bem pouco tempo havia motivo para queixas da ausência de bibliografia sobre o teatro brasileiro. Felizmente, nos últimos cinco anos, essa memória vem sendo recuperada ou preservada por meio de variadas publicações - biografias, estudos e peças - ora assinadas por artistasenvolvidos na criação teatral, ora por estudiosos das artescênicas. O cenógrafo José de Anchieta enriquece agora essabibliografia com o livro Auleum - A Quarta Parede, que serálançado amanhã, a partir das 20 horas, na Casa das Caldeiras, na zona oeste da capital paulista.Trata-se de um cuidadoso volume de 250 páginas, ochamado livro de arte, ilustrado com desenhos de cenários efigurinos criados por Anchieta ao longo de 40 anos. J. C.Serroni assina o prefácio do livro cujo título (Auleum) fazreferência à cortina usada no antigo Teatro Romano. Escrito como apoio da Fundação Vitae - por meio de uma bolsa de estudospara pesquisa -, Anchieta encerra seu livro com uma sintéticahistória da cenografia, desde os gregos, passando pela renovaçãode Antoine até o cenário virtual.Anchieta, Daniela Thomas e J.C. Serroni receberam juntos, em 1995, o prêmio máximo de cenografia na Quadrienal de Praga. Aliás, o recebimento deste prêmio, em Praga, e a posterior homenagem em Brasília, rende uma das saborosas histórias do volume, cuja qualidade de narrativa surpreende, num artista "habituado pela força da profissão a lidar com lápis, tintas epincéis", como escreve na abertura do volume.Afirmando ter como objetivo dizer o que pensa "sobreesta pouco comentada e indevidamente entendida arte dacenografia", Anchieta não só destrincha os fundamentos dessaarte como, de quebra, registra parte importante da históriarecente do teatro brasileiro. Narra experiências sobre suasparcerias com diretores como Antunes Filho e Cacá Rosset, entreoutros, sempre do ponto de vista da especificidade da atuação docenógrafo e sua relação com os demais envolvidos na montagem. Eainda dialoga com outras publicações sobre o teatro, como oslivros publicados pelo diretor e cenógrafo Gianni Ratto - AMochila do Mascate e Antitratado de Cenografia - ou aindaAdhemar Guerra, o Teatro de um Homem Só, de Oswaldo Mendes.A experiência vivida com Adhemar Guerra, na criação dopremiadíssimo cenário da peça Lulu, de Wedekind, merece umcapítulo especial no livro. Afinal, Anchieta ficou de "queixocaído", como disse em entrevista à reportagem, ao tomarconhecimento, no livro escrito por Oswaldo Mendes, da forma comoAdhemar Guerra foi obrigado a mudar toda sua concepção ao ver ocenário de Lulu, que ele havia imaginado muito diferente nosdesenhos apresentados durante os ensaios. Anchieta aproveitaessa experiência para uma interessante reflexão sobre a atuaçãodo cenógrafo e sua relação com os diretores.Logo adiante, lembra de como esse erro repetiu-se com apeça Otelo, protagonizada por Norton Nascimento e dirigidapor Jansen Lage, porém com resultado bem menos feliz.Entre os artistas aos quais presta tributo, em suagrande maioria cenógrafos e diretores, destaca-se um ator, PauloAutran, de quem ele faz questão de ressaltar a ética na relaçãoprofissional. Entre os diretores, surpreende a homenagem aAfonso Gentil, responsável pelo núcleo infantil do Teatro deArena, a quem trata como o primeiro e querido mestre. "Elenunca quis entrar no rol dos diretores de renome; sempre foi umpedagogo e teve uma importância muito grande como educador eformador", afirma Anchieta.Pernambucano que, como muitos nordestinos, veio para SãoPaulo com a família sacolejando em um pau-de-arara, Anchieta reserva algumas páginas para contar sua história pessoal. História que inclui uma passagem pelo seminário, de onde foi expulso, mas também onde teve seuprimeiro e definitivo contato com o teatro.Boa parte das belas imagens que podem ser apreciadas nolivro integram ainda uma exposição, que será aberta amanhã,também na Casa das Caldeiras. São painéis com 280 desenhos eainda maquetes de espetáculos como A Comédia dos Erros, deShakespeare, e Scapino, ambas dirigidas por Cacá Rosset.Auleum - A Quarta Parede. De José de Anchieta. Editora ABooks,250 páginas. Exposição com obras do livro checar horáriodiariamente, das 9 às 14 horas. Até 26/11. Casa das Caldeiras.Avenida Francisco Matarazzo, 2000, tel. (11) 3873-6696.Lançamento do livro amanhã, a partir das 20h.

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