José de Abreu faz mega-projeto sobre Nelson Rodrigues

Para comemorar os 60 anos do teatro de Nelson Rodrigues, o ator e produtor José de Abreu investiu-se de uma difícil missão. Há um ano e meio ele desenvolve o projeto Mergulho em Nelson que chega ao Rio em sua completude. A partir de sexta-feira o público carioca poderá ver a peça A Mulher Sem Pecado, primeiro texto de teatro de Nelson Rodrigues, além de filmes, debates, palestras, exposição com as gravuras do irmão de Nelson, Roberto Rodrigues, e leituras dramatizadas de todas as 17 peças do dramaturgo e também de suas crônicas. A imersão começa pelo espetáculo mas se desenrola por uma extensa agenda que vai até meados de fevereiro do próximo ano. José de Abreu acaba de concluir o site que vai registrar e promover a comemoração que idealizou. É o www.amulhersempecado.com.br, que ele pretende transformar em um portal de Nelson Rodrigues, quando a peça sair de cartaz. Planos não faltam a José de Abreu. O mergulho que ele pretende fazer no universo rodrigueano está sendo gestado desde maio de 1999. De lá para cá, chamou seu amigo e diretor Luiz Arthur Nunes, que lhe sugeriu A Mulher Sem Pecado como carro-chefe do projeto, e fez contato com centenas de pessoas, sempre anexando novas idéias para o que viria a ser um mega-evento sobre Nelson Rodrigues. "Estou vivendo um surto de trabalho", diz José, que revela estar lançando as bases para uma nova - e grande - companhia de teatro, a Cia Brasil: Teatro. "Ela será um centro de estudos teatrais", conta, deixando claro que, para investigar o teatro de outros autores, a idéia é continuar a promover os mergulhos na obra de cada um deles. Se o projeto Mergulho em Nelson tem várias facetas, é certo que o site é o xodó, e tem o maior poder de fogo. Com textos bem escritos e um visual que não deixa a desejar, o endereço já motivou mais de 200 pessoas a mandarem e-mails para Abreu. Detalhe é que o site está no ar desde o último dia 21. "Recebi até uma tese de mestrado num e-mail", espanta-se José de Abreu, "isso reforça a idéia de criar algo maior na Internet". O site, que até agora leva o nome da peça, mas que deverá se chamar "nelsonrodrigues.com", já tem links para dois sites femininos e quer levar as inernautas a todos eles. "Nossa intenção é que a mulher sem pecado encontre as outras mulheres", brinca José de Abreu. Escolha - Celebrar os 60 anos do teatro de Nelson Rodrigues, para muitos, seria o motivo ideal para encenar Vestido de Noiva ou Toda Nudez Será Castigada. Escolhas que se tornaram óbvias demais para a dupla José de Abreu e Luiz Arthur Nunes, respectivamente produtor e diretor de A Mulher Sem Pecado. José queria um personagem forte. Pediu a Luiz Arthur algumas opções. Hoje, eles já nem lembram mais que outros textos estudaram. "A Mulher Sem Pecado é tratado por alguns como um embrião do verdadeiro Nelson", diz Luiz Arthur Nunes, "mas ela tem tudo o que Nelson viria a fazer". A Mulher Sem Pecado, escrita em 1940, conta a história do ciúme que Olegário (José de Abreu) tem por sua mulher, Lídia. Paralítico, o marido põe seus criados para vigiar Lídia a todos os momentos. Sua paranóia com uma traição que não existe leva a mulher a enlouquecer. Sufocada, Lídia reage ao controle do marido da forma mais controversa. "Olegário é quem leva Lídia ao adultério", diz o diretor, "e esse é o paradoxo". E, como em mais de uma peça de Nelson Rodrigues, quando o protagonista está no auge de sua certeza, toma um choque de realidade que o faz cair com força de seu ilusório pedestal. "Para Nelson, o homem é uma vítima da vida, pois quando ele tem o máximo de segurança e de controle, o tapete embaixo de seus pés é tirado", diz Luiz Arthur Nunes. Olegário não foge à regra, e também tem sua queda monumental. "Assim são os personagens rodrigueanos, têm uma obsessiva sede de absoluto e sobem tanto que, quando caem, sua queda é espetacular", diz Arthur. Por causa desta capacidade de provocar a surpresa através da expectativa não realizada é que Luiz Arthur vê A Mulher Sem Pecado como uma peça de primeira linha do repertório rodrigueano. "Acidentes da cultura acontecem; A Mulher Sem Pecado foi encenada pelo Teatro de Comédia, que usou técnicas muito clássicas para um texto que já era de teatro moderno", explica. "Vestido de Noiva, a segunda peça de Nelson, foi encenada por Ziembienski, um diretor antenado com sua época, e fez muito mais sucesso por isso", diz Arthur.Luiz Arthur Nunes enxerga inovações típicas do teatro moderno em A Mulher Sem Pecado. O uso da voz em off, de pensamentos e lembranças de personagens e de elementos subjetivos representados na cena são fatos novos para o teatro da década de 40. Isso pode servir para comprovar que A Mulher Sem Pecado não é desalinhada com as outras peças de Nelson Rodrigues, mas é a presença de uma teatralidade quase gritante no texto da peça que surpreende o diretor. "Esta peça tem uma visão de palco já tão consolidada no texto que não é preciso mais que ater-se a ela", ele diz. De fato, Luiz Arthur promete não delirar na direção: "o texto dispensa efeitos, basta escutá-lo com atenção". Referência - José de Abreu quer fazer um trabalho de referência sobre Nelson Rodrigues. Todo o processo de montagem da peça, assim como o produto dos debates e palestras que o Merglho em Nelson vai ver nascer, estarão registrados no site. Com isso, a equipe comandada por José e Luiz Arthur quer estabelecer um marco sobre o maior dramaturgo brasileiro que sirva para pesquisas e como estímulo para novos projetos culturais que envolvam o teatro de Nelson Rodrigues. A Mulher Sem Pecado é o ponto de partida. A peça foi encenada primeiro em Recife, cidade natal de José de Abreu e do próprio Nelson Rodrigues. Lá, foi sucesso. Mas a experiência que confirmou o acerto do produtor foi nas sedes do Sesc do interior do Estado do Rio. Com duas apresentações em cada lugar, a trupe esteve em Teresópolis, São João de Meriti, Nova Iguaçu e Madureira. "Tínhamos casa lotada no primeiro dia e super-lotada no segundo", lembra, feliz, José de Abreu. "O público popular entendeu perfeitamente a peça e interagia muito mais, de forma mais espontânea", diz Luiz Arthur. Somente no Rio, entretanto, é que será possível levar a público o amplo leque de eventos ligados à peça. As leituras dramatizadas ocorrerão todas as terças, a partir de 31 de outubro, até o fim de janeiro. As leituras performáticas vão ocupar praças e estações do metrô com crônicas de A Vida Como Ela É. A mostra de filmes baseados em textos de Nelson Rodrigues começa dia 8 de novembro, com Boca de Ouro e vai até 20 de dezembro, sempre com debates após as projeções. Um ciclo de debates tem início dia 3 de janeiro e contará com intelectuais e profissionais do teatro e do cinema. A exposição com os desenhos de Roberto Rodrigues começa em novembro. Essa intensa programação será toda em um só lugar, cujo nome está, a partir de agora, mais que justificado: o Teatro Nelson Rodrigues. A Mulher Sem Pecado - Teatro Nelson Rodrigues. Av. Chile 230, Centro. Tel:262-0942. De quinta a sábado às 21h, domingo às 19h. Preços: R$20,00. Na primeira semana, preço promocional de R$10,00. Ciclo de leituras sempre às terças às 20h, com início dia 31/10. Mostra de filmes sempre às quartas às 20h, com início dia 01/11. Ciclo de debates sempre às quartas, com início dia 03/01. Exposição de Roberto Rodrigues em novembro, data a confirmar.

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