José Carreras em noite de canções

Apesar dos arranjos fracos, tenor interpretou com maestria peças como Vurria ou Manhã de Carnaval

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

 

 

Carreras. Cantor não perdeu marcas como a elegância no fraseado e nos pianíssimos

 

 

 

    "Granada!", gritou um; "Nessun Dorma!", pediu outro. Mas o tenor José Carreras manteve os planos originais e atacou de Chitarra Romana, Manhã de Carnaval e Aquarela do Brasil nos extras do concerto que ofereceu na noite de quarta-feira, em São Paulo, no HSBC Brasil, ao lado da Sinfônica da USP. No contexto da apresentação, fez sentido - ao longo de pouco mais de uma hora, ele havia interpretado uma seleção de canções napolitanas e catalãs, com uma parada em Carlos Gardel e outra em um hit do musical Man of La Mancha.

O repertório de canções tem dominado nos últimos anos as apresentações do tenor. Há uma honestidade na escolha, em compasso com o momento atual de sua carreira. E, a rigor, não há nada de errado com essas pequenas joias do cancioneiro internacional. Individualmente, cada uma tem seu encanto: Vurria, Silenzio Cantatore, L"Ultima Canzone, etc. Um único senão: em conjunto, elas acabam formando um programa que esbarra no kitsch, com arranjos sinfônicos que matam um pouco da espontaneidade de sentimentos (que no final das contas está na gênese de sua composição) e nivelam as especificidades estilísticas, fazendo, por exemplo, um símbolo da cultura catalã, como Rosó - Pel Teu Amor, parecer demais com o tango melancólico Lejana Tierra Mia, de Gardel - e ambas, com canções napolitanas.

Se tudo faz sentido é por conta da expressividade do canto de Carreras. Dizer que a voz não é a mesma de anos atrás não é mais que ressaltar o óbvio. Mas se sofre nas regiões mais agudas, o material ganhou cores interessantes nos graves e nos médios. E relembra a todo instante as interpretações de outra época - a elegância no fraseado, a construção dos clímax, a passagem de momentos de explosão a pianíssimos delicados. Está tudo lá, mostrando que o tempo, vilão incontornável da carreira de qualquer cantor, não é capaz de apagar a musicalidade e a inteligência na interpretação. Não seria essa a lição maior de um grande artista?

 

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.