José Carreras: cantor entre gerações

'Há talentos notáveis entre os intérpretes que têm aparecido', diz o tenor. Mas adverte: 'Engana-se quem pensa que é suficiente ter uma bela voz'

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2010 | 00h00

No corredor do hotel, o senhor elegante, de terno escuro e gravata azul-clara, caminha com cuidado entre a profusão de equipamentos de uma atrapalhada equipe de televisão. Paciente, encosta-se na parede e começa a cantarolar Aquarela do Brasil, até que alguém se dá conta. "Gente, ele já está aqui, esvaziem a sala." Instantes depois, é a vez de o tenor José Carreras conversar com o Estado. Ele brinca de novo com a melodia de Ary Barroso. "Há muitos pontos de contato entre as culturas brasileira e espanhola. Somos todos latinos. E, além de culturalmente, compartilhamos muitas idiossincrasias", diz.

O tenor volta ao Brasil depois de dois anos - em 2008, participou da inauguração de um teatro em Curitiba. Desta vez, faz dois concertos no HSBC Brasil, ao lado da soprano Ailyn Perez e do maestro Miguel Ortega. No repertório, trechos de Gounod, Ponce, Bernstein, Luna e Caballero.

Conversar com Carreras é, em certa medida, dialogar com um pouco do que foi a ópera nos últimos 30 anos. Ao lado de Plácido Domingo e Luciano Pavarotti, ele formou a trinca que monopolizou o gênero na segunda metade do século 20. Foram grandes entre os fãs - mas chegaram também a plateias que nunca pisaram em um teatro lírico. Talento, carisma, fenômeno de Marketing, cada um tem a sua explicação - mas o fato é que o mundo da ópera ainda está à espera de tenores com tamanha fama.

"É justo dizer que a nova geração tem grandes artistas, vozes importantes, de Juan Diego Flórez a Jonas Kauffman", começa Carreras. "Agora, há vozes que são realmente únicas, como foi o caso de Luciano. E há talentos musicais especiais do ponto de vista da interpretação, da qualidade musical, como acontece com Plácido. Mas, isso dito, acredito que o que acontece hoje nada tem a ver com o instrumento em si, mas com a personalidade, a capacidade de se comunicar, o que chamamos de carisma. É difícil, para mim, julgar essas coisas, porque, no final das contas, elas estão relacionadas a sensações que o público tem."

Se o carisma faz parte da equação, não é a única de suas variáveis. A geração dos três nasceu e cresceu em um momento de transformação da ópera, marcado pela presença do vídeo, pelo incremento das tecnologias de gravação e mesmo das técnicas de Marketing. "São interessantes os desafios e características de cada geração", diz. "Os cantores que vieram antes de nós eram fantásticos. Giuseppe di Stefano, Mario Del Monaco, Franco Corelli, Jussi Björling, Richard Tucker, a lista é interminável. Eram inacreditáveis. Mas a minha geração se beneficiou das novas possibilidades da televisão, das gravações - tudo isso tornou mais fácil chegarmos a um público mais amplo. Mas perdemos também. O mundo da ópera, nos anos 70 e 80, ficou rápido demais. Uma nova montagem no Metropolitan ou no Scala deveria significar trabalho dedicado com o maestro, o diretor, muitos ensaios. E isso deixou de acontecer."

Mas havia também algo menos palpável em jogo. "Os antigos tinham a vantagem de trabalhar com os grandes maestros que, muitas vezes, haviam trabalhado com os próprios compositores. Lembro de uma anedota. Ainda jovem, Gianandrea Gavazzeni estava trabalhando como pianista em Nápoles e foi ensaiar com o lendário Beniamino Gigli. A ópera era O Elixir de Amor e Gigli estava cantando a famosa ária do tenor. De repente, fez uma frase longa, sem respirar. Gavazzeni, preocupado, disse a ele: "Maestro, talvez seja necessário respirar no meio dessa frase." E Gigli respondeu: "Tudo bem, se você quiser, pode respirar." (risos) Essas coisas realmente foram se perdendo."

Precisa mais? O catalão José Carreras foi descoberto, diz a lenda, por Carlos, irmão da soprano Montserrat Caballè - e os dois acabaram por ajudá-lo a conseguir seus primeiros contratos. Mas foi o maestro Herbert Von Karajan que o levou à fama, nos anos 70. As críticas da época falam em uma voz cristalina e poderosa. Um crítico alemão mais empolgado escreveu, após uma récita de La Bohème: "Ele é jovem, talentoso, musical e bonito. Precisa de mais?"

A essa altura, Domingo e Pavarotti já disputavam o posto de grande tenor do momento. Carreras começava a correr por fora, de cara, com papéis mais leves, de tenor lírico e, em seguida, com personagens mais pesados. Houve então quem dissesse que ele iria machucar a voz encarando tais papéis cedo demais. "Todos cometemos erros", diz ele. "Eu talvez realmente tenha chegado a alguns papéis antes da hora. Mas, entenda. Alguns dos meus maiores sucessos, como em La Forza del Destino ou Carmen, foram com papéis pesados. E estou convencido de que se um maestro como Claudio Abbado ou Karajan chama para uma nova produção, você não tem como dizer não. Se Karajan me chamasse para cantar Micaela, eu iria! (risos) Você tem essa paixão que é cantar e a chance de trabalhar com esses caras é a expressão máxima do que a ópera pode ser. Não tem como você não querer fazer parte disso. É essa a ambição saudável do artista. E erros... bom, os erros dão sabor à experiência de viver."

No final dos anos 80, porém, Carreras foi diagnosticado com leucemia. "Eu me lembro das primeiras 24 horas, do desespero. Eu era jovem, tinha 40 anos, estava feliz com a minha carreira, com todas as oportunidades. E, de repente, o diagnóstico. Foram 24 horas. E então, mesmo sabendo o quão difícil seria, precisei arranjar determinação para lutar. Tive sorte, o apoio da família e dos amigos, a manifestação de carinho que vinha de todos os lugares." O pesadelo acabou com um transplante de medula óssea. "Isso me deu força e fez com que eu criasse uma fundação para ajudar pessoas na mesma situação que eu. Depois de tanto carinho e apoio, você se sente em dívida, você precisa pagar de volta."

Além do trabalho beneficente, Carreras hoje gira o mundo em recitais e master classes. Em São Paulo, não dará aulas, mas estavam programados para ontem e hoje dois ensaios abertos com a Sinfônica da USP, com quem vai se apresentar. Que mensagem costuma passar a jovens estudantes? "São sempre muitas perguntas que nos fazem e, na verdade, nós ainda temos muitas perguntas a fazer. A mensagem mais importante, porém, nada tem a ver com técnica, emissão, essas coisas. O que tento descobrir é se o cantor está certo de que é essa a carreira que escolheu, se sabe exatamente o que está em jogo, a necessidade de disciplina. Está enganado quem pensa que basta uma boa voz. (O compositor Pietro) Mascagni, aliás, já dizia: para cantar ópera é preciso também uma boa voz."

Entre os seus mestres, ele fala com carinho do inglês Colin Davis, "um gentleman e uma grande cabeça musical" - e ri quando é lembrado do trabalho com Leonard Bernstein, com quem gravou o musical West Side Story: o making of mostra uma cena em que os dois se desentendem. "Personalidades bem diferentes", limita-se a dizer, com um sorriso maroto no rosto. O modelo do grande maestro ele identifica em Karajan. "Claro, se ele gostasse de você e achasse que o canto estava próximo daquilo que ele havia imaginado", diz. Mas rapidamente joga outro nome na roda, o do italiano Claudio Abbado, com quem gravou Simon Boccanegra, de Verdi. "Nada mal aquele elenco, não? Piero Capuccili, Mirella Freni, Nicolai Ghiaurov."

Sem pânico. "Fico sem resposta", diz ele, quando indagado sobre qual papel de seu repertório lhe parecia o mais adequado, aquele em que sentia poder explorar ao máximo seus dotes de cantor. Mas arrisca. "Há personagens que sentia bem próximos de mim, até mesmo em termos de personalidade. Rodolfo, na La Bohème; Don José, na Carmen, Riccardo, no Ballo in Maschera; Andrea Chenier. Provavelmente, se fosse tentar me lembrar da minha melhor performance ao vivo, ela teria ocorrido durante récitas de alguma dessas óperas."

Lembrado de uma entrevista recente, na qual o tenor argentino Marcelo Álvarez dizia que estava na hora de a geração dos três tenores abandonar os palcos, deixando espaço para quem estava começando e tentando criar suas carreiras, ele ri uma risada solta. "Álvarez é um grande cantor. E não tem que se preocupar. Eu hoje só canto em recitais e concertos e não frequento mais os palcos de ópera. E ele é excelente, tem espaço garantido." Outro jovem tenor, Marcello Giordani, brincou com a polêmica, lembrando que esteve no palco recentemente ao lado de Domingo, que fazia sua estreia como barítono no Metropolitan de Nova York. "Bom, com o Domingo é um problema. E não se esqueça que ele também rege", brinca. "Mas, falando sério, o pessoal que está chegando não precisa se preocupar. Sem pânico."

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