Jornalista-Uber

Rapidez e concisão. Temos apenas 140 caracteres e muita pressa. Vamos de clichê mesmo

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

27 Agosto 2016 | 02h00

A imprensa pauta a rede social. Este era o lema que anunciava sobrevida à profissão de jornalista, em guerra contra a tecnologia da informação, e nos enchia de esperança, apesar do horizonte de cenário apocalíptico que destruiu (restaurou, na verdade) a indústria fonográfica, cinematográfica e editorial. 

Era o lema. A rede social passou a pautar a imprensa. Que a examina, antes de fechar uma coluna, uma página, um editorial, uma capa, uma manchete. Hoje, a imprensa se alimenta da rede social, dos virais, memes, fotos, gifs, vídeos, frases, tuítes, do climão. Talvez busque nela o lucro em falta. Busque inspiração. Novidades. Sangue novo.

Nos abastecemos da sua quantidade ilimitada de informações, que se renova a cada minuto, e do humor da humanidade, ou melhor, da rede. Nos abastecemos da sua criatividade. Até a fonte passou a dar declarações oficiais pelas redes sociais, colocando a carreira de porta-voz em risco.

O antigo leitor agora é um hashtag, uma arroba, uma página, um avatar, como o repórter, como a empresa de comunicação e como a fonte. Dividimos todos o mesmo espaço digital. Somos um link, sites, produtores de conteúdo, divulgadores de notícias. Somos fotógrafos, cineastas, editorialistas, comentaristas, repórteres. Editamos.

O antigo leitor é o concorrente e parceiro do veículo que seguia, do canal de TV, da imprensa escrita. Aprendeu com o veículo que consumia. Se a humanidade virou rede, o leitor virou galera.

Problema: a ética da rede social passou a prevalecer sobre os manuais rigorosos, bem específicos e bem construídos, sempre atualizados, necessários num contexto de liberdade de imprensa, em que não se quer o controle do Estado sobre a informação. Não é coincidência que foi o fim do regime militar que impulsionou a edição de manuais de redação ou de conduta, redigidos numa parceria inédita e dialética entre patrão e empregado, dentro de um acordo tácito em defesa da isenção e da qualidade da notícia, entre empresas de comunicação, especialistas da língua, juristas e, lógico, pratas da casa, os jornalistas. 

Tem repórter, colunista, escrevendo como se desabafasse para uma rede de amigos, um grupo fechado, notas mal apuradas, maldosas, rancorosas. 

Ainda se acredita que jornalista apura, rede social confunde, jornalista tem credibilidade, rede social se entorpece pelo boato, jornalista tem história, experiência, tradição, rede social engatinha, jornalista tem rede de comando, rede social vive sob a égide do movimento anarquista, da contracultura, dos Rolling Stones (“you can’t always get what you want, but if you try sometimes, you just might find you get what you need”), do punk-rock (“do it yourself”), do lema da Nike (“just do it”).

Continuamos a seguir as linhas preditas por Walter Benjamin, que num estado de desespero e holocausto diagnosticou o fim da narrativa tradicional, o fim do narrador; ou a desorientação moral das formas modernas de narrativa. O que deu na incapacidade de trocarmos experiências. 

O jornalista hoje se viciou pelos tóxicos das redes sociais, o narcisismo gerado pela exposição impensável. Colunistas antes lido por milhares podem ser lidos por milhões. Podem ser tema, gerar cliques, transformando a máquina de notícias em máquina de caça-níqueis, o veículo em cassino. Pode estar acima da sua própria notícia. Virar notícia, assunto comentado, top trend: é compartilhado, seguido, tem fãs, como um ídolo pop.

Pouco a pouco, ele se destaca da rede produtiva secular e sente que pode ir para o espaço sem a anacrônica relação patrão&empregado, comprimida pelas leis do trabalho e pressões sindicais. Ele pode ter seu próprio site, seus próprios anunciantes. 

O repórter que entende a rede social se torna empreendedor, vira um jornalista-Uber, domina aplicativos e páginas alavancadas por contas no Face, Twitter, Insta, Snapchat, confiando na fidelidade de seus seguidores.

Para isso, precisa falar a mesma linguagem. A velocidade da informação, arma da rede social, atrapalha a apuração, reduz suas antigas habilidades. A qualidade da notícia fica a desejar, já que é preciso ser o primeiro a blogar ou tuitar. 

Não se deve perder tempo com a palavra que se encaixaria com perfeição. Vai com o clichê mesmo. Rapidez e concisão. Temos apenas 140 caracteres. Temos pressa. 

E vamos torcer para a notícia se confirmar. Para ser verdade. Onde tem fumaça, tem fogo. Se não for, beleza, a rede tem memória curta. Em dois dias, a polêmica se esvazia. Surgirão outras, que devo compartilhar, para jogar uma nuvem de fumaça diante da minha desinformação. Ah, a galera sabe, nem tudo que sai na rede é verdade.

Benjamin lamentou o fim da narrativa oral, base da Civilização e do conhecimento, trocada pela industrialização do contar história. Dizia que era cada vez mais raro encontrar pessoas que soubessem narrar qualquer coisa com correção. 

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