Jornalista seleciona as mais ricas rimas do século

O poeta é aquele a quem o mundo como existe não basta - assim discursou Francisco Campos, recepcionando Augusto Frederico Schmidt, na década de 40. Uma época em que os poetas brasileiros retomavam estruturas antigas na construção de poemas, privilegiando sonetos, elegias. Um tempo também em que o grupo, conhecido por Geração de 45, sofreria ataques de uma outra ala, formada pelos concretistas, justamente por retomar conceitos do início do modernismo. A turbulência intelectual desse período é um dos destaques do livro Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século (Geração Editorial, 324 páginas, R$ 36), selecionados por José Nêumanne Pinto - antologia lançada no mês passado e que já caminha para a segunda edição.O trabalho foi sugerido pelo editor da Geração, Luiz Fernando Emediato, que inicialmente pensava em reunir os cem melhores poemas. "Decidi complicar a empreitada, trocando a seleção por poetas; não satisfeito, propus ainda que a escolha deveria recair sobre apenas um poema de cada literato", explicou Nêumanne, editorialista do Jornal da Tarde e, como prefere, poeta bissexto. De início, a decisão revelou-se oportuna para contornar um grave problema que ronda atualmente o mundo literário: a administração de direitos autorais dos artistas já mortos.Enquanto alguns herdeiros facilitam a republicação das obras, outros impõem uma série de restrições que, em alguns casos, impedem qualquer veiculação. A inclusão do poema Meditação sobre o Tietê, de Mário de Andrade, por exemplo, foi possível graças a uma divisão no domínio dos direitos: enquanto os textos em prosa pertencem a uma editora mineira, a poesia é gerenciada pelo sobrinho do escritor, que liberou a publicação. "Contamos ainda com a gentileza da professora Telê Ancona Lopez, que nos cedeu o texto apurado do acervo do autor."A antologia organizada por Nêumanne, no entanto, sofreu outros problemas diversos. Os concretistas Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, por exemplo, decidiram não liberar a publicação de sua poesia concreta - alegaram estar preparando uma antologia própria. A solução encontrada pelo autor foi engenhosa: apesar de não reproduzido, o poema é identificado pelo título e o organizador fornece as melhores fontes de consulta ao leitor interessado. "Assim, os mais curiosos têm uma chance de se saciar."No restante, as dificuldades resumiram-se ao combate inevitável da abrangência que o trabalho oferecia. Nêumanne faz questão, no prefácio do livro, de ressaltar que a escolha dos poetas não partiu de um colegiado, mas de um profissional do jornalismo e literato amador. O que explica eleições puramente pessoais, como a de Machado de Assis, mais conhecido como prosador, mas, cuja homenagem à mulher, Carolina, revela-se um poema pungente. Mesmo assim, o jornalista ouviu, atento, conselhos de amigos respeitados, que terminaram influenciando a escolha.Foi o caso da seleção do poema do recifense Carlos Pena Filho. A preferência de Nêumanne tendia para Improviso no Bar Savoy, mas a insistência do amigo Aluízio Falcão convenceu-o a se decidir por Soneto do Desmantelo Azul. O passar do tempo bastou para dirimir qualquer dúvida. "A cada releitura dos versos, percebo que ceder foi a melhor decisão", reconhece.Em outros casos, o próprio poema se impôs. Ao se deparar com Jorge de Lima, Nêumanne pensava em Essa Nêga Fulô, uma preferência nascida durante a infância. A admiração por Invenção de Orfeu, porém, foi se sedimentando ao longo dos anos e terminou prevalecendo. A dificuldade aumentou quando chegaram nomes estelares, como Manuel Bandeira - Pasárgada ou Momento num Café certamente disputariam o gosto da maioria, mas o jornalista optou por Porquinho-da-Índia, por sua malícia irresistível e novamente seguindo sugestão de um amigo (dessa vez, Tereza Sousa). "Também descartei Pneumotórax por ter incluído Sanatório, pequena obra-prima de Ascânio Lopes, que trata de um tema semelhante."A obra de Carlos Drummond de Andrade também ofereceu motivos para uma escolha difícil. Entre José e A Máquina do Mundo, Nêumanne ficou com uma terceira via, No Meio do Caminho, que, apesar de não ser seu preferido, ainda "continua a desafiar a crítica e provocando rebuliço", conforme justifica na introdução.Quando iniciou a seleção, o jornalista chegou a 130 nomes. O gosto pessoal, a leitura de outras antologias e a opinião dos amigos ajudaram-no a arredondar o número para cem. E a exclusão necessária levantou nomes que foram lembrados e cobrados, logo que a primeira edição chegou às livrarias. Por que não incluir Manoel de Barros? "Considero-o um prosador com frases quebradas", responde. E Ana Cristina César? "Preferi o Chacal como representante da geração do mimeógrafo, por acreditar ser sua poesia muito melhor e que vai perdurar." Aos ainda inconformados, Nêumanne, em tom de brincadeira, lembra que, apesar de poeta bissexto, também não figura na sua própria seleção.Novidade - O rigor na escolha dos poetas justifica-se ainda pela decisão do organizador em abrir um leque de opções, incluindo uma novidade entre as antologias tradicionais: os chamados populares. "Foi um pedido (na verdade, quase uma imposição) que fiz ao editor, que concordou", lembra Nêumanne, profundo conhecedor da arte e cancioneiro nordestinos, especialmente os cordelistas. "Afinal, não estávamos reunindo os cem melhores poetas eruditos do século."Seis nomes foram selecionados, dos quais Patativa do Assaré é o mais conhecido. Além de diversificar, a inclusão permite um contato próximo com o poeta popular nordestino, mestre no improviso de versos ritmados e rimados, cujo trabalho narra o passado, presente e futuro ao público de fazendas e feiras-livres de vilarejos perdidos nos Brasil."Escolhi uma pequena amostragem de uma grande obra, cuja autoria nem sempre é bem conhecida", comenta Nêumanne. Os populares ocupam a última das seis fases em que foi dividida a centena de poetas, iniciando pelos pré-modernistas e continuando por modernistas, Geração de 45, concretistas (que incluem também neoconcretismo, práxis e poema-processo) e contemporâneos, que, aliás, figuram em maior número. "Foi uma questão pessoal para mostrar que a poesia brasileira sobreviveu ao concretismo e aos subcabralistas."A seleção provou ter uma boa aceitação, pois a primeira edição do livro, que contém belas ilustrações de Tide Hellmeister, esgotou seus 5 mil exemplares, obrigando a editora a lançar uma nova remessa.

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