Tom Cabral/Divulgação
Tom Cabral/Divulgação

Jornalista palestino fala sobre Bin Laden e Primavera Árabe na Fliporto

Editor do jornal Al-Quds Al Arabi também tratou do confronto entre Israel e Palestina

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2011 | 01h17

O jornalista palestino Abdel Bari Atwan, editor do jornal Al-Quds Al Arabi, foi convidado em diferentes ocasiões para entrevistar Osama Bin Laden, Saddam Hussein e Muamar Kadafi. Só recusou as três investidas de Saddam porque teve medo de ser visto como um porta-voz do ex-presidente do Iraque. "Hoje me arrependo muito. Eu poderia ter escrito um livro e estaria rico", brincou na noite desta segunda-feira na 7ª Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), em Olinda. De Kadafi, guardou a imagem de um homem tímido mas excêntrico, de mãos suaves como as de uma mulher e uma ameaça de morte. De Bin Laden, a fama por ter sido um dos poucos jornalistas levados à caverna onde o chefe da Al-Qaeda se escondia.

Na primeira parte do encontro mediado pelo jornalista Geneton Moraes Neto, o palestino contou, de forma muito descontraída, como foi a mítica entrevista realizada em 1996, que começou com um embaixador de Bin Laden cochichando em seu ouvido se ele não gostaria de entrevistar o "sheik". "Que sheik?", arriscou-se a perguntar, e ao saber de quem se tratava aceitou na hora a missão. Não contou para a mulher, que nunca o perdoou, e passou para a sua assistente uma lista com os nomes das pessoas que lhe deviam dinheiro e um pedido especial: "Se eu não voltar, por favor, escreva alguma coisa simpática sobre mim".

Ele não sabia para onde ia e nem quem deveria procurar quando chegasse lá. Já no trajeto, que durou 8 horas, pensou que morreria nas mãos de um motorista que julgou menor de idade e que dirigia perigosamente. Durante a viagem, uma parada para tirar as pedras do caminho. Intrigado com as outras que continuavam caindo do topo da montanha, perguntou se eles não poderiam morrer se ficassem ali e ouviu de um de seus acompanhantes: "Sim, tanto que na semana passada algumas pessoas morreram. Mas você não quer ir para o céu?"

Na caverna congelante, contou que encontrou um Bin Laden com semblante pacífico e frio como os britânicos. Achou também que ele era um bom ouvinte. A conversa, no entanto, não pode ser gravada por vaidade do entrevistado, que ficou com receio de cometer algum erro gramatical e não queria que isso ficasse registrado. Depois de um jantar que não matou a fome do convidado e só serviu para lhe causar diarreia e vômito, dormiu muito pouco. O lugar era barulhento e ele só conseguia pensar em como seria a volta com o mesmo motorista barbeiro. Mas o que lhe tirou mesmo o sono foi descobrir que estava deitado em cima de armas e granadas. Ficou lá durante três dias.

Tempos depois, recebeu um pedido da organização para que veiculasse em seu jornal a informação de que atacariam os Estados Unidos. "Vamos acertá-los num lugar que vai doer", dizia o texto. "Publicamos, mas ninguém se importou. Veio então o ataque ao World Trade Center." Cinco ou seis dias depois, recebeu outra ligação com a proposta de um novo encontro, mas declinou. "Uma entrevista é mais do que suficiente. Não quero passar por isso de novo", justificou a si mesmo.

Atwan, autor de História Secreta de Al-Qaeda (Larousse), prepara o lançamento de um novo livro: Al-Qaeda - a nova geração. "Se a Primavera Árabe tiver sucesso e os países virarem uma democracia, a Al-Qaeda pode afundar uma pouco. Se não der certo, os jovens integrantes podem se tornar muito mais perigosos do que os da primeira fase", avaliou. De acordo com o jornalista, a organização já tem "franquias" no Yêmen, Iraque, Somália e África.

Para ele, o momento é de histeria no Oriente Médio. "As pessoas estão famintas por democracia, mas elas querem a democracia delas, e não aquela inspirada na americana, britânica ou francesa". Atwan aproveitou para criticar a forma como Kadafi foi morto. "Somos contra Kadafi e contra Saddam porque eles eram contra os direitos humanos. Isso o que aconteceu não é um bom exemplo para a nossa Primavera Árabe". E completou: "Deveríamos ter dado um julgamento justo".

Criado em um campo de refugiados na Faixa de Gaza e radicado em Londres há mais de 30 anos, terminou fazendo um apelo à Israel. "Podemos criar um paraíso, mas nos deixe ter nosso pedaço de terra. Se podemos viver juntos em Londres ou em Nova York, por que não conseguimos o mesmo em casa? Vamos amar uns aos outros".

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